março 30, 2022

Fogo obsessor


 


            A velha placa de metal com os dizeres “A mulher que tudo vê e ouve, e que de todas as coisas sabe” estava na parte superior da porta. Deveria ou não entrar? A pergunta surgiu, mas não precisava de resposta. Nos momentos de indecisão, minha curiosidade sempre vence. Entrei. Subi a escadaria estreita, íngreme, que parecia não ter fim. Uma mulher, de olhar inquisidor, parada no último degrau, sorriu-me enigmaticamente, entre, moça bonita. Minhas cartas dizem tudo. 
           — Casarás em pouco tempo. Linda festa. Sorrisos, lágrimas, uma multidão, jardim florido... Homem bastante apaixonado, saúde frágil, curto destino, vida breve. Ele tombará sobre ti. Que tristeza, moça! Também vejo obsessão e fogo em teu caminho... 
          Não acreditei na profecia da mulher, obviamente, mas também não facilitei o trabalho do tal destino: nada de pensar em casamento, e nada de se relacionar com homens frágeis, jamais! Acabei o meu namoro no dia seguinte. Aníbal era bem franzino; certamente era forte candidato a uma vida breve. Sinto muito. Adeus! O tempo veio e eu casei, três anos depois, com Ambrósio, forte como um touro, alto, músculos e exames em dia, nada de fragilidade. O casamento foi simples, em uma praia, não houve festa, casei de azul, sem flores, apenas família como testemunha, dia nublado, duas fotografias apenas, tudo programado para dizer “não” às previsões da cartomante. Calculei que tivesse funcionado, mas foram apenas dois meses, três dias, e uma noite ao lado dele. A vidente venceu: enviuvei. Tal qual uma protagonista de tragédia grega, foi tentando evitar o tal caminho que peguei atalhos para ele.        
            O primeiro dia sem Ambrósio foi de fato o mais difícil. Começou já no momento da morte, quando precisei me soltar literalmente daquele corpo, um metro e oitenta de carne sem dono, largado sobre mim, depois de cinco minutos de cama, ainda aceso, coisa triste, e eu imprensada, por baixo, confusa, a ponto de reclamar pela rapidez com que ele terminou antes do meu começo, mas ele permaneceu parado, calado, pesado, inerte. Belisquei suas costas, sacudi o seu rosto levemente, gritei. Ambrósio se foi. Haveria momento mais inconveniente? As cartas tinham razão, ele tombou, maldita cartomante! 
           Cuidar do enterro foi nauseante: era apenas um resto de mulher sozinha a tomar as decisões, a cor das flores, a sequência do velório, onde ficaria o corpo, a roupa que deveria vestir, a hora de fechar o caixão, de iniciar a marcha para o cemitério, de seguir a vida a partir dali. Estava de existência empenada, solta, quase desmaiada aqui, quase apagada ali, meus pêsames, obrigada, um comprimido azul, um marrom, outro amarelo, analgésico, ansiolítico, uma manhã fria dando em tarde descolorida, depois uma noite fervente, tristeza, sobrevivi. Levei dias a calcular ausência de marido e sofrimento. Contudo, três semanas depois, enquanto ajeitava a papelada do seguro, pensando em quantas direções gastaria aquela enorme soma, muito mais do que supunha, senti um alívio, sobretudo horas depois, diante da nova boutique da cidade, provando o primeiro vestido a ser comprado sem a vigilância de Ambrósio, que beijava bem, mas detestava compras. Santa recuperação! Naquele momento, admiti: a viuvez pode ter suas vantagens, sim. Adorei a tarde, amanhã cuidarei do cabelo, das unhas, da pele, estou viva; não fui eu quem partiu. 
       Infringiu os protocolos da morte, comentou a vizinhança, sofreu pouco, chorou apenas nas primeiras noites, colocou cortinas coloridas nas janelas, deixou que o sol entrasse no quarto, comeu bolo recheado, usou amarelo na semana seguinte, tomou vinho, maquiou-se, foi ao cinema. Desse modo, concluíram, não gostava do finado. Todavia, era cedo para conclusões. Eu mesma não sabia as medidas exatas dos meus atos. Nunca fora boa em matemática, trocava os sinais, multiplicava quando deveria dividir, subtraía quando era necessário somar; não seria difícil inverter os sentidos diante da morte, atropelar regras, desandar. Não me julguem! Estou apenas reformando a minha vida, era como me defendia.
          Num certo dia, cessou o desejo de comprar. Então eu soube, a ausência do meu marido começaria a incomodar a partir dali. Parei diante do espelho da sala. De repente, um arrepio profundo fez todo o meu corpo tremer. Em seguida, ouvi a voz de Ambrósio a sibilar algo no meu ouvido. Gritei. Corri para o quarto. Tentei dormir, mas rolei na cama por toda a noite, durante o mês inteiro, caí doente. Os sussurros do fantasma estavam em todos os lugares. Laura, meu amor! 
          Você precisa de Deus, querida, sangue de Cristo tem poder, minha secretária foi convincente, e tão atenciosa que conseguiu levar-me até a igreja para eu conversar com o padre. Aquela primeira visita à casa de Deus foi uma verdadeira faxina em minha alma: algumas linhas de João aqui, Mateus acolá, Lucas assim, Paulo para fechar os ensinamentos, não houve resistência, chorei o quanto precisava. De quebra, expulsei boa parte da minha vaidade; estava fragmentada, dilacerada. Agora, de acordo com as palavras do vigário, era só esperar que o Espírito Santo juntasse os cacos, e construísse uma nova Laura. Enfim, disse ‘sim' a Jesus, santo forte, consolador de almas, aceitei a salvação. 
            Deixei a sacristia aliviada, olhei em volta, dei com o semblante das imagens, seus olhares de misericórdia, de lamento, de medo, de censura, apontados contra minhas privações de viúva, tão desnorteada que só me restava voltar no dia seguinte, e no outro, e no outro. Passaram-se meses. A visita à igreja tornou-se rotina. Ajoelhada, durante horas, implorava a Deus que apagasse a imagem de Ambrósio da minha mente. Isso você esquece com o tempo, querida, homem não é tudo, aquele lá em cima, sim, deve ser a razão da nossa existência. Minha secretária era formada em sofrimento. Apanhou durante dez anos do marido até que ouviu a voz do redentor; eu sei como é isso de ter homem, minha filha, hoje estou livre, fui ungida, ela disse, mas faz uma falta, repliquei silenciosamente. Certo dia, sentindo-me desesperadamente cristã, comprei todo o estoque de discos religiosos que encontrei numa livraria da cidade. Preciso me fortalecer, música acalma os ímpetos e a queimação de dentro. Ouvi e aprendi tudo. Ninguém tinha mais Jesus do que eu. Consegui. Estava transformada. Era um exemplo a ser seguido.
           Todavia, semanas depois, o que era apenas a voz sussurrada, ecoando no quarto, na cozinha, nos corredores, ganhou corpo. Então eu vi Ambrósio por inteiro. Trancava-me no guarda-roupa, e ele estava lá. Depois, no banheiro, também estava lá. O fantasma insistia, assobiava, gargalhava, estava sempre despido, como no dia de sua morte, do jeito que foi tirado das minhas pernas, uma indecência. Constrangida, resolvi revelar tudo para o padre, com todos os detalhes, inclusive admitir um tanto de culpa, já que eu mesma havia implorado que Ambrósio voltasse, que não me deixasse sozinha, que me socorresse nas horas de necessidade. 
           Não há dúvida, a alma do finado precisa de reza, tomar o seu caminho, os que ouviram a história recomendaram. E combinaram um descarrego para a terça-feira da semana seguinte, eu agradeço, em nome de Jesus, e Ele estará lá, minha filha, para iluminar sua vida. No dia marcado, enquanto esperava os colegas da igreja, tentei uma última conversa com o finado, você continua bonito, e firme, se ao menos fosse de carne, adeus, querido. Minutos depois, a casa foi sitiada pelo Exército de Cristo, que era grupo famoso na cidade, quinze integrantes, encapuzados, rezando, cantando hinos, clamando aos anjos e aos santos a proteção daquela jovem. Além disso, havia o braço firme do sacerdote, homem de Deus, respingando água benta sobre a minha solidão de viúva, sobre a mesa da cozinha, dentro da banheira, sobre as almofadas; era força demais contra um fantasma. Ele deixará de atazanar, sim, a secretária sabia das coisas, já havia presenciado a expulsão de outros espíritos zombeteiros. Cantaram, rezaram e conseguiram. Ambrósio pegou a primeira trilha para o desconhecido, e não deixou rastros. Finalmente. Entre os sorrisos eufóricos, todavia, estava uma certa curva na minha boca, um desvio, que não sorria com as demais intenções do grupo, obrigada, amigos, fechei a porta, suspirei. Aliviada? Será? 
           O dia seguinte avançou tranquilamente, o fim de semana, o mês todo, passou um ano e nada, o fantasma não voltou a incomodar. Não havia mais assombração. Restava então desenrolar o resto da vida ao lado de Jesus, subir outros degraus, lutar contra a vaidade, o egoísmo e a luxúria. Repetia versículos bíblicos ininterruptamente, diz que protege, não vacile, minha filha, segura na mão de Deus, e vai. O padre afirmou que o terço funciona quando a imoralidade aponta no pensamento. Então, obstinadamente, eu rezava, respirava fundo, corria para a igreja, suava, acelerada, atazanada, alterada, descontrolada; era uma guerra. Ajoelhava-me, Bíblia na mão, crucifixo no peito, olhar fixo no altar, uma oração para os desejos, duas para as vaidades, três para coisa mais séria, saía de lá quase noite, doída de tanto negar minhas necessidades, jurando que o calor havia passado. Certa vez, questionei se aquele seria o fogo obsessor que apareceu nas cartas da vidente. 
           Assim começou o sufoco, com a temperatura do corpo, que subia. Alguns homens provocavam essa reação. Desse modo, para minha segurança, deveria manter distância deles, principalmente daqueles que tinham barba, dos que não tinham também, dos que andavam sem camisa, dos que usavam terno e gravata, dos que vestiam calças justas, dos carecas, dos cabeludos, dos garçons, dos policiais, do carteiro, do encanador, dos que suavam, dos que sorriam, dos que falavam, daqueles que pregavam, não, do padre, não, jamais! Virgem Maria, como é isso? Nos dias menos movimentados, a coisa piorava; evitava ficar sozinha em casa, tinha sempre uma amiga por perto. Isso é obsessão do capiroto, filha, insistia minha secretaria. Banhos demorados, nem pensar. Nudez diante do espelho, proibida. Essas coisas alimentam fogo indevido, estava tudo no meu regulamento. Televisão, jamais. Era a pior das tentações. 
            Contudo, Rosirene, colega do curso bíblico afirmava que era necessário conhecer o inimigo; não perdia um só capítulo da novela das nove. Refleti: a mulher sabe o que diz, quem tem Cristo, não teme. Sentei-me durante cinco minutos diante da tevê, escolhi o canal das novelas, o coração era uma batucada, bobagem, possuo as armas necessárias; são imbatíveis. Então apareceu o protagonista da trama, tão bonito que me esqueci da batalha, e aí distraidamente reparei no corpo do rapaz, a boca dele era inacreditável, um absurdo, escandalosa, carnuda, vermelha, o jeito como ela se abria, depois se juntava à boca da atriz, e as línguas passeavam de um lado para o outro, uma perna deixada assim, um braço esquecido ali, e aquela música romântica dizendo ‘fique meu amor, não vá, eu te amo', que lindo, eu também quero. Não posso! Levantei-me do sofá. Desliguei a tomada. Corri para a janela, estava suada, aflita, descompensada, chorava e sorria, como uma doida. Decidi que detestava a novela, que o ator era o próprio Lúcifer, que venderia a televisão. Um inimigo a menos dentro de casa, em nome de Jesus. Como penitência pelos pensamentos indevidos, passei meia madrugada de joelhos no canto do quarto, cantando hinos de louvor. 
             Na manhã seguinte acordei quebrada, indisposta, mas satisfeita. O castigo tinha banido o mal: o pensamento da indecência se fora. Não obstante, permaneceu o calor. E Jesus, por que não me ajuda? A queimação deve ser hormonal, querida, minha secretária tinha sofrido coisa parecida, explicou que uma voz do além lhe revelara no passado. Nos argumentos da mulher havia sempre essa voz, e ela supunha que era a de Deus, por isso não errava, e eu acreditava. Fui ao médico. Nenhum distúrbio hormonal, Laura, você tem saúde no lugar, nem chegou aos trinta, quem lhe falou sobre hormônios? Deus me revelou, por meio da minha secretária, ele diz, ela escuta, pois tem unção, e eu sigo tudo. Ela tem também muita imaginação, o médico completou. Você é casada? Não mais, por quê? Procure uma companhia, faz bem, diminui a temperatura nos lugares. Sou uma pessoa de Cristo, doutor, meus desejos foram represados, não quero mais isso. Entendo. Nesse caso, reze para não se afogar no lago que se formará com essa represa. Seria conveniente conversar com um psicólogo. Vou, certamente, mas sei que minha cura está em Jesus. 
          Revelei minha história ao psicólogo. Ele tentou explicar tudo à luz da ciência: você projetou assim, suas frustrações seguiram adiante, por trás dos atos, das palavras, eu entendo de traumas, não me esconda nada. Foi a cartomante, que leu minha mão, e Ambrósio morreu, agora eu me entrego à reza diária, clamo, grito pelo redentor. Sofro de fogo obsessor. Como psicólogo, digo que isso não basta; religião não conforta certas ânsias. Saí desolada de lá, assando por dentro. O homem era lindo! Sangue de Cristo tem poder, mas será que pode com a minha obsessão? Então eu comecei a esquentar de um jeito insustentável; evitei sair de casa, pedi socorro às companheiras de caminhada. Elas agiram. 
          Na semana seguinte, um grupo de mulheres foi até a minha casa. Querida, viemos resgatar teu espírito sofredor, há vaga na nossa comunidade, vida de clausura dá jeito em queimação e necessidade; você vive para o criador, fecha a porta que leva ao mundo, abre algumas janelas para o Espírito Santo, entrega-se à oração, nega a carne, tudo é maravilhoso, abstinência e abstração, aceita? E assim troquei meus vinte e sete anos mundanos por aquela proposta de vida desapegada. Elas me levaram pelo braço; afastaram-me do mundo, mas nem assim passaram a chave nos meus desejos. 
          O vazio permaneceu até aquela madrugada de insônia, suor e paredes, quando o padre me visitou. Ainda à porta ele adiantou que trazia consigo minha cura. Arrisquei um pensamento, aquele santo homem diria palavras de sabedoria e de libertação; todavia, calou-se. Nada havia em seu poder além de tremores e sugestões. Aproximou-se. Perdi a voz. Lembrei-me do recado das cartas, de Ambrósio, do destino, da solidão, da ânsia, do fogo e do pecado em minha vida. E se esse fogo não for uma presença, mas uma ausência? E agora, quem me segura? Proteja-me, Jesus! 
         O padre sentou-se, colheu minha temperatura, tragou um tanto do meu fogo com seus olhos redondos, continuei queimando, queimando, veja, vejo sim, este lugar tem um propósito, há uma saída para o corpo quando a alma não vigia. Como? Fingi que queria entender, mas não precisava. Coisas do corpo só nele se resolvem. Confesse. E eu confessei àquele homem a história que lhes conto. E outras. Ele ouviu tudo, atento, acessível, o padre é um santo homem, não tem pecados, só veio para me livrar dos meus ímpetos. Despiu-me, e deitou-se sobre mim, e, diferentemente de Ambrósio, não morreu. E ocorreu um milagre: minha temperatura diminuiu.

Ricardo Fabião (Fevereiro, 2022)

outubro 12, 2015

Criança no porão


Eu, que tanto quis amadurecer,
que tudo fiz por merecer idade avançar,
que por muito julguei-me conhecer,
tento por resgatar-me hoje buscar
o instante insone em que supus esconder
sem voz, em mim, uma criança, assim...

Eu, que por sempre planos idealizei,
que ao tempo décadas de mim ofereci,
que não percebi nisso quanto neguei,
trato por realizar-me agora restituir
a vida do menino que calei no ser,
por supondo crescer que é assim viver.

Retorna, garoto...
Renova nossas alegrias já desbotadas,
para que juntos sejamos, cresçamos,
vivamos, infinitamente, sem envelhecer...

Ricardo Fabião (outubro, 2015)

novembro 01, 2012

De quanta cor há o que vejo?




DEPOIS DA LUZ...

De quantas estradas precisam meus olhos até o limite?
O que alcançam por sobre a imagem,
no verso dos objetos, a mergulhar nos vermelhos,
a tocar levemente os amarelos e cinzas da tarde?
Essas bolas curiosas, o que dirão, depois, já sem luz,
sobre como é fundo o leito das cores,
sobre como é vão o fio que desenha o sentido do dia?

Com o cair da nitidez, 
Estando já à porta as sensações de ocaso,
quando de cansaço ruírem os meus contrastes,
que tonalidades dirão o depois das coisas?
Por quantos raios descerá uma manhã?
Que matizes estarão lá,
após o desbotamento de tudo?

Sigo com mil olhares até a última chance de ir
Por entre os tantos azuis que forem possíveis
E que não me seja apagado o que ver
Enquanto houver tão latente o que querer

Ricardo Fabião (novembro, 2012)


Imagem captada, por mim, de um certo jardim, em Garanhuns-PE.

julho 08, 2011

Olhares e silêncios



          O segredo daquele mundo limitado era mantido pelo nosso pai, que punha chaves em tudo o que éramos, para que não enxergássemos o que havia. Sob essa presença austera e distante nada crescia, só calava; vivíamos em eterna suspensão de ser, sensação amplificada pelo som mudo das coisas de fora - o cercado largado embaixo do sol, o mato seco e o cheiro dos quatro lados da nossa casa. Dentro, éramos apenas crianças do tipo que nada podem saber. E como não nos era dada a faculdade dos desejos e dos argumentos, recolhíamo-nos em silêncios e acasos, a esperar o para sempre dos dias. Nesse impasse, não havia olhares nossos que pudessem com os dele, nem mesmo palavras; no caminho tudo se partia em lados incomunicáveis. 
          Alguém dissera, quando o segredo ainda era por dois ou três partilhado, com palavras sussurradas, para que assim fosse demonstrada a gravidade do dito, e soasse apenas uma vez, que nosso genitor era pai de outros que não conhecíamos; e que moravam noutras terras para lá do dia mais longe. Para nós, então, eles passaram a ser os outros, a quem possivelmente o silêncio oferecera, desde o nascimento, a mesma impossibilidade de ser. Teriam eles direito a abraços de chegada de um pai? Usufruiriam olhares de afeto, algo a dizer estradas e cumplicidade? Ou seriam apenas crianças no mesmo susto? 
          Então o segredo ali conosco era só a interdição das palavras, pois longe delas havia quem gozasse, em falso cálculo, de anonimato – um pai no seu silêncio. O medo, sim, era fato instituído, insustentável, alargava e tolhia os sentimentos, dava voltas em nossas percepções de família, de amor, de mundo. Sabíamos e não podíamos saber. Nossa mãe, pelos cantos, algo esquecida na sala e na cozinha, com intenções de conduzir e aliviar o crescimento de seis filhos, calava mais naquilo que não se via. Se ela vivia sem revelar sofrimento era no jeito que se entregava à vida, acostumada com a partilha desigual dos caminhos que estão no desenho do mundo. Por isso, de olhos levados para além das janelas, ela só sabia aceitar. 
          Nosso pai tinha as permissões do caminho; saía com a madrugada, horário que julgava ser viável para o sustento dos seus segredos. Quando acordávamos, éramos mais olhos por sobre as coisas e mais medo por dentro na alma. Era medo mesmo, de gente sem dono, não amenizemos aqui a dimensão disso; medo de que aquele homem calado não retornasse. Ele não traria sorrisos, dias depois, quando chegasse imenso à nossa porta, pesado, a pedir por água e comida; não afagaria nossas faltas, tampouco demonstraria alegria por estar entre nós. Contudo, ele era o mensageiro do mundo de todo canto; é quem dispunha dos olhos para o nosso depois; fundou naquele silêncio o chão por onde, bem ou mal, deslizaríamos nossa existência. E foi assim que crescemos todos, ou quase isso, fingindo que aquela tristeza era somente um segredo. 
       Quando nosso pai morreu, havia aquela esposa ao seu lado, quase realizada em tudo, pois aprendera a calcular a vida sob o jugo de uma matemática absurdamente cruel; conseguia dizer-se plena, e ainda do pouco ofertado sentir falta. Estava ali, no recolhimento de sua condição, desde sempre, a colher silêncios, sem poder comentar sobre noites de lamento e solidão; suspirava. Nós, os filhos, com exemplos a serem seguidos, outros a serem deixados lá no tempo em que tudo era medo, ensimesmamo-nos. Conhecedores já da lacuna, tomamos o pé da vida e fomos. 
       Essa história, que pouco se conta de tanta palavra calada que é, desenhou as curvas da estrada, as quais percorremos hoje com desconsertado silêncio; e esse trajeto só foi possível porque em algum momento recebemos a permissão daqueles olhos de brilho faiscante, acendendo e apagando na memória. Desses olhares herdamos imensos abismos, os quais, devido à profundidade, impuseram limites, mas que, de tanto vazio, inspiraram ânsias de amplidão em nossos pés.  


Ricardo Fabião (Julho, 2011)

Texto para o desafio de Julho - Fábrica de Letras
Tema: Segredo

A imagem acima é de Constança Lucas; disponível na página: http://constancalucas.blog.uol.com.br/arch2007-10-01_2007-10-31.html

junho 26, 2011

Um minuto para nunca mais


"Nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos, 
nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra".
Friedrich Nietzsche

        Uma cumplicidade de afeto guiava Marcos e Heloísa, possivelmente lúcidos, dentro daquele instante na cidade. Ela ia com seu coração acelerado na tarde, que era um motor movido pela promessa de futuro a dois e filhos; e ele, com esperança de que finalmente deixaria ao tempo uma possibilidade de sentimento compartilhado, sorria e permitia. Além dessa crença de mundo melhor, que é algo de dentro e do pensamento, queimava um leve sol sobre as calçadas, agradável nos últimos raios. Nesse passo, cabia imaginar décadas adiante para dois seres compartilhando um só projeto; estrada de tempo vezes espaço idealizada pelos enamorados. Seguiam crédulos nessa única intenção. Ela havia saído mais cedo do trabalho para um sorvete de aniversário. Foi o que sugeriu como presente: apenas vê-lo e ouvi-lo enquanto uma montanha gelada de chocolate seria devorada. Era nisso que residia sua lucidez - um amor tranquilo à tarde. 
        Desde criança vivera sob a custódia de um mundo ajustado, em que só cabiam os ensinamentos estabelecidos já em família: amor e respeito, essas duas grandezas, cujas forças teriam potência para enfrentar a brutalidade dos dias. Heloísa completava vinte e oito de vida, radiante, a dizer-se ainda menina, de tanta paixão, nos braços do marido. Calculava de si um vigor inteiro para viver mais oitenta ao lado dele. De tanta cumplicidade, saíram da sorveteria com planos de viagem ao exterior, de amor para além do que é possível imaginar. E assim, avançaram os minutos e as ruas, ao passo que os sorrisos e olhares se tornaram todo o instante. Ela respirou profundamente para absorver a plenitude daquele instante, e julgou que tudo estava em plena harmonia.
        Entretanto, ainda que parecesse improvável aos dois, apareceu ali, subitamente, aquele de harmonia quebrada, um ser no desespero, de esperança há muito deixada no esquecimento. O desconhecido esbarrou sua sorte invertida no casal. Essa junção de energias, pela diversidade de suas intenções, mudou o pé e a estrada, ninguém avançou. E foi tudo muito rápido, o revólver na mão do homem, os insultos sibilados, a carteira que ele exigiu, o relógio, os aparelhos celulares, sem alarde, tudo colocado em seu bolso, dentro do casaco, com mãos trêmulas, de qualquer jeito. Não houve reação contrária; no entanto, ouviu-se o disparo. Foi uma bala que procurou lugar abaixo do maxilar de Marcos, e fez caminho em algum cinza de sua cabeça. Ele tombou sem chance de um instante seguinte de consciência, pesado, sobre a incerteza da calçada. Heloísa, em resposta, com força desconhecida, empurrou aquele que invadiu a tarde, alheia de suas ações. O homem caiu, o revólver também. Apenas ela estava de pé, e desfrutava oportunidades; só teria de decidir. Segurou a arma pela primeira vez, tinha pavor à ideia, mas alvejou a perna daquele que já se levantava na tentativa. E voltou para o marido, que buscava respiração nos minutos demorados: "Marcos", "Marcos", gritava, e nada vinha como resposta.
        No outro ângulo do fato, o desconhecido se arrastava na calçada, com ânsia de outras ruas. Ela então pensou em vetá-lo para sempre, mas lembrou-se de que não acreditava na violência, tampouco nos discursos de força bruta como medida de defesa. Quis e não quis. Olhou para Marcos, buscando alguma palavra que sanasse a situação, mas encontrou um olhar parado. E cresceu ainda mais o seu amor, e, paradoxalmente, o oposto dele. Gritou. Odiou. E conferiu o fim da tarde ao seu redor: nada seria como antes. Seu marido, que, nos projetos de mundo perfeito, seria a mão para a frieza das noites, contorcia-se agora na tentativa de unir ar e pulmões, e não chegava lá. Por que o homem atirou? Por quê? Onde recomeça a história depois de um final infeliz? Não havia respostas ajustadas naquela tarde.
        Subitamente, algo irrompeu dentro dela. Apanhou a arma. Por tudo que perdeu e perderia adiante, pela esquina que não sairia da memória, pelos sentimentos que certamente a sufocariam a partir dali, por todos esses cálculos realizados às pressas, inexatos, inconclusos, afastou-se do marido, e se aproximou daquele que tentava se levantar. Respirou sofregamente, olhou em volta, só havia um cinza intenso. Ergueu o braço, e escolheu um ponto da cabeça do homem. Ouviu-se então o segundo disparo. 
    No dia seguinte, nas manchetes impressas e digitais, sob as imagens de uma Heloísa assassina, constavam notas de repúdio, algumas de felicitação. Era a história da moça bem criada, estudante de Fisioterapia, que atirou em homem desarmado. O assaltante, vítima, não teve chances de defesa - era um chefe de família, matara apenas quatro na vida; sequestrava pessoas e explodia bancos para sobreviver, um desamparado. Quanto às informações sobre Marcos, noticiou-se em tímidas linhas que morrera a caminho do hospital, sem poder explicar o motivo de sua demora para aqueles que aguardavam suas instruções na festa-surpresa preparada para Heloísa. E, curiosamente, tal fato interessou muito pouco a muitos.

Ricardo Fabião (Junho, 2011)

Texto para o desafio de Junho - Fábrica de Letras

junho 06, 2011

Aos porões o sempre



Que se diga primeiro que havia tristeza e silêncio nas horas do homem da história. Quanto à descrição do quarto sem luz em que o encontramos, que se enfatize a impossibilidade da porta e das janelas - era o mundo do homem só. Sobre a noite que avançava, saibam, não havia sono que o libertasse de si nem remédio para as feridas que colhera no tempo. A metros dali, estava a coordenadora da casa de repouso em que morria lentamente esse homem da tristeza. Esta, ao saber da escuridão e dos porões que guardavam as tristes memórias do mundo de antes do homem do quarto, decidiu convidar à história quem dela faria melhor uso – a moça da vingança. Assim, apareceu nessa tristeza contada a mulher que tinha mais passado no que vivia, e carregava em sorrisos de metade os traumas e as ausências. Começou a visitar o homem do silêncio na semana seguinte, fingindo ser aquela que usava afeto e sensibilidade contra a escuridão lá fora do sistema. Havia razões para odiar aquele que interditara décadas antes o caminho em que ela ia, mas encontrou ali um senhor de olhar distante, um velhinho indefeso. Mudanças. Com segundos planos, ela estendeu ao homem da solidão parada a estrada das mil possibilidades. No primeiro sorriso ele já acreditou. E foi tanta visita aos sentimentos que ele voltou a dormir. Também nos dias de sol arriscou alegrar-se; e com mais medidas de tudo voltou a amar. A moça da intenção velada, com idade de filha, devolveu o oposto do que recebeu em dobro; daquele silêncio distante reinventou um homem, deu-lhe vida. Então o amor passou a ser o tamanho do quarto, que ficou pequeno para existir dentro e só. Ela o levou aos passeios da cidade, aos sorvetes das tardes, ao colorido das manhãs, como se o amasse como pai, como se houvesse isso na intenção. No entanto, ele, amando-a como se fosse filha, abriu os caminhos da alma, tanto assim escancarada para não haver volta, mesmo sem saber as dores. Eis o resultado: de amor estava consolidado o mais controverso laço. A moça conseguiu. Aos de vingança, o melhor momento de ataque é o percebimento da fragilidade do adversário. Foi isso. O homem era só de estima paternal e olhos no dia em que ela decidiu espalhar sobre a mesa as fotos de dois jornalistas que silenciaram para sempre nas mãos de um carrasco. Era um casal em papel amarelado: mãe e pai da moça. Discursos abafados, corpos enterrados em matagais. E foi notícia não divulgada nos tempos da ditadura militar; tempos em que problemas se resolviam com pancada, com cordas, alicates e porões. Essa tristeza, velha companheira, rebocou-o de volta ao passado, ao silêncio do pequeno quarto na escuridão. Olhou para as mãos enrugadas. Não havia água que lavasse ali a sensação de sangue, nem música que apagasse os gritos ainda lá nos corredores sombrios da memória. Ela insistia com o amor nas fotografias, com dedos deslizantes sobre sorrisos de gente morta, a maldizer ainda seu destino de órfã, com perguntas sem intenções de respostas, só desabafo. Esse tanto de amor presenciado, recém-percebido, sem doer em lugar certo, torturava o homem da tristeza sem fim, que tanto investiu nas tramas do caminho oposto - violência. Curiosamente, a última lição a conferir deste amor era contra ele mesmo, algo a roer-lhe a consciência no sempre dos dias, a mostrar-lhe tardiamente o outro lado da história. A moça da vingança chorou mais três instantes e saiu. Antes, beijou, por mais intenção de ferir, a testa daquele que assassinou seus pais: era somente um homem idoso, assustado, vencido, mais morto que vivo, a secar no silêncio que cresceu dali para muito mais. Depois da porta, ainda que sem solução para as lacunas, havia o caminho. Ela foi e nunca chegou.

Ricardo Fabião

Texto para o desafio de Junho - Fábrica de Letras


A imagem acima é intitulada "Las manos del terror"; 
foi pintada por Oswaldo Guayasamín (1919-1999).

março 20, 2011

De vermelho o que se fez novembro


Aos que decidem viver suas próprias vidas

Sofrimento antes era matéria só de imaginar distante; depois é que apareceu a moça do sapato que decidiu tomar a curva para uma dor, e nada mais descansou. No começo de tudo, as histórias de sofrer estavam sempre nas ruas mais distantes da cidade, nas vidas errantes de outros povos; não chegava de palavra experimentada na pele de conhecidos. Para aqueles do cercado, viver era aceitar o ali parado do mundo que não ia. Apenas o silêncio quebrava o limite e era maior que as distâncias. Então sofrer estava nesse depois das coisas, e ninguém arriscava provar, só calava até assim. Era desse cuidado o tamanho de existir. E não havia força que levasse viver além das cercas. O destino colhia-se com a mão, no formato suportado, tão já maduro e previsível quanto as maçãs em suas temporadas. Não havia novidade que criasse novos sorrisos, nem desvio que gerasse vida além; o que se tinha para sorrir era do sempre com a mesma intensidade, como ele é e repete adiante. Sob este desenho tímido de existir, os desejos dos quatro filhos homens da história eram estreitos, que não arriscavam coisa além da vida medida a palmo. Muito quando havia uma moça era em raro evento, e tudo com pouca chance de ir mais que imaginar. O pai então, aquele do limite, mantinha a família dentro do cercado, com seu coração apertado de amor e zelo, e dizia que vida boa é aquela que se conhece no passo, por isso era feliz com seus dois pés sobre a plantação no tamanho que cabia. E isso era tudo assim até que nasceu Teresa, que pediu um par de sapatos quando percebeu que já era menina no dia de crescer - tudo muito rápido aos de vida parada no limite. E um porco assado com boca assim aberta na mesa do sapateiro foi o pagamento de um par vermelho calçado no andar da mocinha depois, que correu feliz e livre, como nenhum ali antes provara, e isso tomou caminho distante aos que perceberam. Foi o susto daquele limite de gente. Ninguém antes arriscara ser sabendo ali. Ter liberdade? Como trabalhar esse tanto? Depois, com os sapatos sobre a roça ela decidiu imaginar que grandeza era coisa que se encontrava longe, onde a montanha curvava e ia com seu desenho até perder-se de tanto dia para lá. E pensou tanto em crescer que a noite de fugir chegou. E foi na intenção toda e só que ela partiu para completar treze em alguma estrada que só ia. Deixou apenas um barulho mudo de sorriso na última cerca, e foi toda para si com o sempre do seu vermelho aceso. Diz que muita coisa afundou com isso: um coração de pai lançado de vez ao acaso, coisa sem força de alcançar um olhar adiante; uma mãe que calou no útero o corte da linhagem, com uma dor que cobria a cor de ver as coisas, murchou. E de silêncio, os rapazes, impossibilitados de entender como era um desejar depois do cercado, ensimesmaram-se no que havia. O sol por isso roeu-lhes a pele durante um novembro diferente, que não findou por dentro. Ficou aquele vermelho no alto das coisas, o do sapato, o do destino para depois da encosta, tudo longe da mão, do entendimento. Não houve mais Teresa que lhes indicasse outras ruas, ficou o mundo só ali, no desenho parado de tudo. Não mais quiseram vê-la, que arriscou passo diferente para ser humana sem eles. Depois a vida voltou ao tamanho, o sorriso no formato das cercas, as frutas na temporada prevista, tudo assim. E foi muito tempo que passou, contudo, ainda no último dia de existir, não havia palavra que lhes explicasse a intensidade daquele vermelho - tão novembro, tão para sempre.

Ricardo Fabião (Março - 2011)

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