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maio 22, 2010

Retorno

       
     
      Ela tratou, primeiro, de ir buscar sua vida por baixo da textura do dia, pois para cantar não lhe bastavam cordas vocais e respiração; necessitava, sobretudo, de algo que viesse colocar-se como fundo do olhar, para que de fato houvesse música e sentimento. Nunca cantava só a palavra; varria o mundo de dentro para interpretar o sentido de viver; algo que ateasse fogo na voz, um jorro de sensações, a paixão de ser por isso.
      Contudo, nem sempre se pode filtrar o que é puxado de uma escuridão, sobretudo, quando se trata da própria alma. E nisso vieram alguns sentimentos calados até o lá fora da noite; algumas dezenas de verdades ditas em avesso, outros terríveis enganos, abafados, e aquela saudade, a pior de todas: a saudade de não ter sido.
      Ao cantar, percebeu que só iria adiante se antes retornasse e curasse aquele machucado de vida deixado para trás, um caminho quebrado. E sob os cálculos dessa impossibilidade, mais silêncio caiu sobre tudo. 
      Ela sabia. Não havia música lá fora que chegasse tão dentro para um alívio; precisaria de todas as canções, milhões delas, e que juntas suplicassem todas as chances e  retornos, e que ficassem tomando o chão da madrugada, de muitas. E ainda que houvesse essa ajuda, não havia garantias de que conseguiria colar no ponto certo a vida que se partira profundamente. Foi o que interpretou naquele tango e tremor: o remorso de ter-se ausentado de si mesma, de ter negligenciado tão sagrada paixão.
      A música terminou e ela era mais uma vez sozinha e lá fora; e todo aquele sentimento visitado voltou para o lugar de dentro, camuflado. Estava instituído: no ponto em que se mantinha aquela saudade nada a resgataria. Por mais que ela insistisse em seus retornos, jamais saberia a porta certa de abrir, o jeito assim de rever.
      Permaneceria, pois, aquela dor calada, uma porção vazia, servindo de chão para o pouco dela que seguia naquele tanto que voltava.

Ricardo Fabião (maio - 2010)

Texto para o desafio de maio - Fábrica de Letras
Tema: paixão
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      A intenção primeira era fazer uma homenagem a Carlos Gardel, um dos autores da canção interpretada abaixo. A personagem original do conto era um cantor de tangos, mas apareceu Penelope Cruz, suscitando um fundo diferente ao que eu havia projetado. O vídeo faz parte do filme "Volver", de Pedro Almodóvar, cineasta espanhol.

    


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