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novembro 01, 2012

De quanta cor há o que vejo?




DEPOIS DA LUZ...

De quantas estradas precisam meus olhos até o limite?
O que alcançam por sobre a imagem,
no verso dos objetos, a mergulhar nos vermelhos,
a tocar levemente os amarelos e cinzas da tarde?
Essas bolas curiosas, o que dirão, depois, já sem luz,
sobre como é fundo o leito das cores,
sobre como é vão o fio que desenha o sentido do dia?

Com o cair da nitidez, 
Estando já à porta as sensações de ocaso,
quando de cansaço ruírem os meus contrastes,
que tonalidades dirão o depois das coisas?
Por quantos raios descerá uma manhã?
Que matizes estarão lá,
após o desbotamento de tudo?

Sigo com mil olhares até a última chance de ir
Por entre os tantos azuis que forem possíveis
E que não me seja apagado o que ver
Enquanto houver tão latente o que querer

Ricardo Fabião (novembro, 2012)


Imagem captada, por mim, de um certo jardim, em Garanhuns-PE.

fevereiro 20, 2010

Mão dupla


Se queres que eu sangre,
que eu doa,
que eu agonize,
que eu me lance,
que eu levite,
dê gargalhadas,
que eu me encontre,
alcance as alturas,
que eu siga para saber,
e volte sabendo menos,
que me perca em cálculos,
e seja feliz por mim apenas,
que eu dance,
e sufoque,
que eu exploda,
e insista,
que me assuste,
sem chão,
sem norte,
tudo isso sobre um vivendo-e-morrendo intensamente,
dê-me um só segundo de mundo a dois...

Inspiração


nasci quando recriei a dor humana,
sou da intenção muda de certos caminhos,
não me vejo de outro instante senão do devir,
minha fotografia é uma frase avançando,
de onde emergem gritos e vazios profundos;
a ânsia com que vou é dos textos e da loucura,
sou filha do silêncio com contextos de atalho,
guardo alegrias sob o peso das exclamações,
trago entre pontos notícias tristes dos homens,
desço e subo atônita em intervalos de vírgula,
perco minha voz em dúvidas de reticências,
não tenho casa, sou de como segue a frase,
não tenho tema, vivo de sentidos e sons,
entro em parafuso no fim de cada estrofe
para atravessar o fundo branco que há em ser,
se há mais luz depois é quando sou desejo;

fui criada para exceder a intenção do eu lírico,
para nem ser eu mesma e nem assim o eu outro;
existindo de empréstimo de ideias e gêneros,
sou o que se escreve aqui e o que não se vê,
o que se inscreve por haver sido mel ou sangue,
estendo rios para que naveguem os amantes,
semeio horizontes para que sigam os errantes,
desenho planos de fuga, ânsias de fogo e fel,
estou num estado de entrelugar, de entresser,
com veredas que vão a várias possibilidades...
é assim que aconteço de vida em tudo e nada,
para depois dessa viagem de ocos e mundos,
retornar ao desvio onde deito as palavras,
e zelar pelo vão das janelas na última frase,
onde os verdes da alma começam a amadurecer...
com cuidado para que logo deitem as sementes,
que tudo meu morre e nasce de outras linhas,
a evitar sempre os abismos do ponto final.

Ricardo Fabião (Outubro - 2009)

dezembro 04, 2009

A agenda


Decidiu que iria ao dentista,
que aprenderia alemão,
que não faria outras dietas,
que teria um animal de estimação,
que veria os filmes da temporada,
que tomaria sorvetes coloridos,
que assistiria ao pôr-do-sol,
que distribuiria perdão aos inimigos,
que pagaria as dívidas,
que faria tudo de corpo inteiro,
que orações suplicaria
para cumprir todos seus planos.

Calculou que a vida é preciosa,
percebeu que há sempre uma saída,
que com outro olhar se vê outro mundo,
resolveu que retomaria velhos amigos,
revisitaria livros já lidos,
concluiu que tomaria outra estrada,
vislumbrou uma nova chance,
relembrou conselhos e carinhos,
pensou noites de música e festa,
imaginou beijos, abraços e crianças,
agendou tardes de sol para décadas
decidiu que viveria, se pudesse...

Mas não havia tempo
nem possibilidade de retorno,
logo mais viria o choque quadrado do chão,
um corpo vezes altura vezes velocidade...
então tudo seria desfeito, todas as datas.
Findaria o instante dos nove andares
sobre o silêncio caído, esquecido;
permaneceria uma incerteza de gente,
em lá e cá de desenho torto, contorcido,
nem mesmo um sonho inteiro para resgate.

Ali tudo calado em azul que se colheu caindo;
amores e amigos, braços e pernas misturados,
deixados ao apetite voraz do tempo,
ao lado do branco da agenda não cumprida.

Ricardo Fabião (Dezembro, 2009)

novembro 12, 2009

Significado


dentro do instante cabe um fato todo sempre
não como de muitas partes um fato inteiro
só um tanto onde de fato um tempo encaixa
cada segundo a parte da qual se diz um todo
sempre mais inteiro se retomado por partes
se completo o instante um mais todo ocorre
se partido em quantos mais um tanto avança
pois indo a toda parte cada um dos muitos
há que ser mais inteira a noção de um fato
se as partes cabem em si quantas são todas
tudo é das partes que toda parte é em tudo
não se vê em parte sem se mensurar o quanto
e um todo não há que não se meça por partes
tudo portanto partes e todo são do mesmo um
do instante colhido por mãos diversas algo
portas abrindo-se por fora do mesmo dentro
parte por parte por parte por tudo havendo
isso tudo em fato só, significado.

Ricardo Fabião (novembro, 2009)

setembro 27, 2009

Caleidoscópio


Gira dentro, mira
Vê-se a forma e vira,
Cai de encaixe a peça,
Noutra cor sem pressa
Que girando brilha
Que mudando trilha,
Segue nova dança
Longe olho alcança
Curioso a vê-la,
Deslizante pela
Luz de uma estrela,
E com a mão movendo,
Vai se refazendo,
Toda caprichosa,
Numa grande rosa,
Que mais cintilante,
Tal qual um brilhante,
Pedra harmoniosa
Semi-preciosa,
A rolar vistosa
Dentro solta e lenta
Que girando inventa
Uma constelação,
Penas de pavão,
Gira e voa e vira
Logo se retira

Já depois mais belos,
Montam-se os elos
Verdes e amarelos,
Ardem tons de azuis,
Tão cheios de luz,
Mas não há demora,
Veja que agora,
Pontos de vermelho
Brilham no espelho,
Vertem-se turquesas
Sutis realezas
Em laranjas crescem
Em rubis padecem
Quando tanto mais
Tombam de lilás
Pontos-luz diversos
Cem mil universos
Manto violeta
Tons de borboleta
E girando fácil,
Pleno de minúcias,
E cedendo ao vício,
Degustando o ócio,
Remontando as luzes,
Ligando as matizes,
Colorindo as asas,
Revirando as coisas
Encaixando as cores,
Desenhando em pares
Um milhão de flores
Uma mão movendo
Oco de olho lendo
Que mirando gira
Que girando muda
Que mudando acende
Que acendendo inspira
Que inspirando vira
Outra forma e mira.

Ricardo Fabião (Junho, 2000)

setembro 18, 2009

Engrenagem


a vida
a arte
o teatro
o camarim
o espetáculo
o desdém
o engasgo
a penumbra
a saída
a rua
a lua
a esquina
o instante
o pensamento
a decisão
a ponte
o olhar
a estrela
o salto
o vento
a velocidade
a água
a bolha
o nariz
o desespero
o barulho
o silêncio
o oco
a notícia
a lembrança
o aplauso
o sucesso
o prêmio
o nome
o tempo
a arte.

Ricardo Fabião (Setembro, 2009)

agosto 31, 2009

O Meio (poema)


Depois da última palavra
Antes de tombarem as glórias
Depois do último beijo
Antes de ruírem os desejos
Depois do último instante
Antes de vingar um novo ato
Ainda que pouco tempo haja
Nem que muito tarde seja
No oco de um segundo ao outro
De sua capacidade de desvios
E sua embriagada lucidez
O humano reinventará o humano
E nele acenderá novos deuses
E montará duzentos relevos
Para desenhar seu enredo
De conquistar guerras, folguedos
De se fartar, misérias, brinquedos
Mas cansará no meio da estrada
E apagará o sol como giz na mão
Para saber como se apaga um vão
E será sempre esse homem
Evitando a escrita do espelho
Antes da última palavra

Ricardo Fabião (Agosto, 2009)

agosto 25, 2009

Varal de estrelas (poema)


Quando empino palavras
não basta lhes apresentar o céu...
quero delas vê-las assim tão empinadas,
que algumas não retornem nunca,
que se transformem em azul e chovam nuvens,
ou permaneçam suspensas que nem raios,
e outras que voltem ao chão com vários vãos,
(de tudo que há de não se dizer)
alegando verbos de não servir conjugar,
implicando frases, coisa de não se afirmar,
para que também a alma empinada seja,
e busque outras além disso de um quê fincado,
e se deixe estender num varal iluminado ...
quando enfim empinadas distantes,
alma e palavras errantes
recolham cacos de espelhos de estrelas,
e gritem duzentas mil vezes o que não está lá,
e disso alto eu me projete só de poder vê-las,
e tanto longe seja ir quanto possa decifrá-las,
dentro, silenciosamente em profundo, sê-las,
dê-se pois o encontro de alma e palavras.
E, talvez, sendo de senti-las eu as veja
conectadas, a que empinada à que fincada esteja,
uma haja pela outra,
e todo resto plane...

Ricardo Fabião (Junho, 2009)

"Olho da estrela" é o nome da imagem ao lado do poema,
de minha autoria.

agosto 06, 2009

Metamorfose (poema)


No início a palavra era uma tábua,
escorada num canto só de texto;
amargava dores de reumatismo,
velhava de longo silêncio;
diz que apanhou polissemia,
grávida de três sentidos.
Vieram as febres, dias de agonia...
Morreu de si para ser de muitas.
os sentidos sobreviveram.
Diz que viraram poesia;
hoje pescam poetas.

Ricardo Fabião (agosto, 2009)

"Primeiro voo" é o título da imagem acima, de minha autoria.

Ciranda (poema)


Seguindo as palavras de ir
É que encontramos as palavras de volta
Elas, estacionadas de muitas caras,
Sobre o indo-e-voltando-sempre do tempo...
Quem muda de lugar é o homem

Ricardo Fabião (Novembro, 2008)

Fogo obsessor

                 A velha placa de metal com os dizeres “A mulher que tudo vê e ouve, e que de todas as coisas sabe” estava na parte super...