outubro 12, 2015

Crianças no porão


Eu, que tanto quis amadurecer,
que tudo fiz por merecer avançar,
que por muito me julguei conhecer,
tento por resgatar-me hoje buscar
o instante insone em que deixei ficar
sem voz, em mim, uma criança, assim...

Eu, que por sempre planos idealizei,
que ao tempo anos de mim ofereci,
que não percebi quanto nisso sufoquei,
trato por realizar-me agora restituir
a vida do menino que escondi no ser,
para refazer as cores que deixei de ver...

Vem, garoto...
renova nossas alegrias já desbotadas,
para que juntos sejamos, cresçamos,
vivamos, infinitamente, sem envelhecer...

Ricardo Fabião (outubro, 2015)

novembro 01, 2012

De quanta cor há o que vejo?




De quantas estradas precisam meus olhos até o limite?
O que alcançam por sobre a imagem,
no verso dos objetos, a mexer nos vermelhos,
a tocar levemente os amarelos e cinzas da tarde?
Essas bolas curiosas, o que dirão, depois, já sem luz,
sobre como é fundo o leito das cores,
sobre como é vão o fio que desenha o sentido do dia?

Com o cair da nitidez, com a chegada das sensações de ocaso,
quando, de cansaço, ruírem os contrastes,
que cores dirão o restante da estrada?
De quantos amores serão as fotografias?
Que tonalidade restará no verde?
Que porta haverá no laranja?
De quantos azuis será o silêncio?

Ricardo Fabião (novembro, 2012)


Imagem captada, por mim, de um certo jardim, em Garanhuns-PE.

julho 08, 2011

Olhares e silêncios



          O segredo daquele mundo limitado era mantido pelo nosso pai, que punha chaves em tudo o que éramos, em tudo o que havia. Sob aquela presença austera e distante nada crescia, só calava; vivíamos em eterna suspensão de ser, sensação amplificada pelo som mudo das coisas de fora - o cercado largado embaixo do sol, o mato seco e o cheiro dos quatro lados da nossa casa. Dentro, éramos apenas crianças do tipo que nada podem saber. E como não nos era dada a faculdade dos desejos e dos argumentos, recolhíamo-nos em silêncios e acasos, a esperar o para sempre dos dias. Nesse impasse, não havia olhares nossos que pudessem com os dele, nem mesmo palavras; no caminho tudo se partia em lados incomunicáveis. 
          Alguém dissera, quando o segredo ainda era por dois ou três partilhado, em sussurros, para que assim fosse demonstrada a gravidade do dito, e soasse apenas uma vez, que nosso genitor era pai de outros que não conhecíamos; e que moravam noutras terras para lá do dia mais longe. Para nós, então, eles passaram a ser os outros, a quem possivelmente o silêncio oferecera, desde o nascimento, a mesma impossibilidade de ser. Teriam eles direito a abraços de chegada de um pai? Usufruiriam olhares de afeto, algo a dizer estradas e cumplicidade? Ou seriam apenas crianças no mesmo susto? 
          Então o segredo ali conosco era só a interdição das palavras, pois longe delas havia quem gozasse, em falso cálculo, de anonimato – um pai no seu silêncio. O medo, sim, era fato instituído, insustentável, alargava e tolhia os sentimentos, dava voltas em nossas percepções de família, de amor, de mundo. Sabíamos e não podíamos saber. Nossa mãe, pelos cantos, algo esquecida na sala e na cozinha, com intenções de conduzir e aliviar o crescimento de seis filhos, calava mais naquilo que não se via. Se ela vivia sem revelar sofrimento era no jeito que se entregava à vida, acostumada com a partilha desigual dos caminhos que estão no desenho do mundo. Por isso, de olhos levados para além das janelas, ela só sabia aceitar. 
          Nosso pai tinha as permissões do caminho; saía com a madrugada, horário que julgava ser viável para o sustento dos seus segredos. Quando acordávamos, éramos mais olhos por sobre as coisas e mais medo por dentro na alma. Era medo mesmo, de gente sem dono, não amenizemos aqui a dimensão disso; medo de que aquele homem calado não retornasse. Ele não traria sorrisos, dias depois, quando chegasse imenso à nossa porta, pesado, a pedir por água e comida; não afagaria nossas faltas, tampouco demonstraria alegria por estar entre nós. Contudo, ele era o mensageiro do mundo de todo canto; é quem dispunha dos olhos para o nosso depois; fundou naquele silêncio o chão por onde, bem ou mal, deslizaríamos nossa existência. E foi assim que crescemos todos, ou quase isso, fingindo que aquela tristeza era somente um segredo. 
       Quando nosso pai morreu, havia aquela esposa ao seu lado, quase realizada em tudo, pois aprendera a calcular a vida sob o jugo de uma matemática absurdamente cruel; conseguia dizer-se plena, e ainda do pouco ofertado sentir falta. Estava ali, no recolhimento de sua condição, desde sempre, a colher silêncios, sem poder comentar sobre noites de lamento e solidão; suspirava. Nós, os filhos, com exemplos a serem seguidos, outros a serem deixados lá no tempo em que tudo era medo, ensimesmamo-nos. Conhecedores já da lacuna, tomamos o pé da vida e fomos. 
       Essa história, que pouco se conta de tanta palavra calada que é, desenhou as curvas da estrada, as quais percorremos até hoje em desconsertado silêncio; e esse trajeto só foi possível porque em algum momento recebemos a permissão daqueles olhos de brilho faiscante, acendendo e apagando na memória. São abismos que, devido à profundidade, impuseram limites, mas que, de tanto vazio, inspiraram ânsias de amplidão em nossos pés.  


Ricardo Fabião (Julho, 2011)

Texto para o desafio de Julho - Fábrica de Letras
Tema: Segredo

A imagem acima é de Constança Lucas; disponível na página: http://constancalucas.blog.uol.com.br/arch2007-10-01_2007-10-31.html

junho 26, 2011

Um minuto para nunca mais


"Nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos, 
nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra".
Friedrich Nietzsche

Uma cumplicidade de afeto guiava Marcos e Heloísa, lúcidos, dentro daquele instante na cidade. Ela ia com seu coração acelerado na tarde, que era um motor movido pela promessa de futuro a dois e filhos; e ele, com esperança de que finalmente deixaria ao tempo uma possibilidade de sentimento compartilhado, sorria e permitia. Além dessa crença de mundo melhor, que é algo de dentro e do pensamento, descia um leve sol sobre as calçadas, agradável nos últimos raios. Nesse passo cabia imaginar décadas de dois seres em um só na mesma intenção. Ela havia saído mais cedo do trabalho para um sorvete de aniversário. Foi o que pediu como presente: apenas vê-lo e ouvi-lo por trás de uma montanha gelada de chocolate. Era nisso que residia sua lucidez - um amor tranquilo à tarde. Heloísa completava vinte e oito de vida, radiante, a dizer-se ainda menina, de tanta paixão, nos braços do marido. Calculava de si um vigor inteiro para viver oitenta ao lado dele. De tanta cumplicidade, saíram da sorveteria com planos de viagem ao exterior, de amor além das possibilidades. Havia mais desejo guardado para conferir-lhe a dimensão,  mas a esquina em que iam era estreita, melhor então alcançar a quarta rua, e dividir tudo em casa. Daria certo. Mas, ainda que parecesse improvável aos dois, apareceu ali aquele de harmonia quebrada, um ser no desespero, de sorriso há muito deixado no esquecimento. O desconhecido esbarrou sua sorte desviada no casal. Essa junção de energias, pela diversidade de suas intenções, mudou o pé e a estrada, ninguém avançou. E foi tudo muito rápido, o revólver na mão do homem, os insultos sibilados, a carteira que ele exigiu, o relógio, os telefones móveis, sem alarde, tudo colocado em seu bolso, dentro do casaco, com mãos trêmulas, de qualquer jeito. Não houve reação, no entanto, ouviu-se o disparo. Foi uma bala que procurou lugar abaixo do maxilar de Marcos, e fez caminho em algum cinza de sua cabeça. Ele tombou sem chance de um instante seguinte de consciência, pesado, sobre a incerteza da calçada. Heloísa, em resposta, com força que não era dela, empurrou aquele que invadiu a tarde na mesma rapidez. O homem caiu, o revólver também. Apenas ela estava em pé, e desfrutava oportunidades; só tinha de decidir. Segurou a arma de primeira vez, tinha pavor à ideia, mas alvejou a perna daquele que já se levantava na tentativa. E voltou para o marido, que buscava respiração nos minutos demorados. Noutro ângulo do fato, o desconhecido se arrastava na calçada, com ânsia de outras ruas. Ela então pensou em vetá-lo para sempre, mas lembrou-se de que não acreditava na violência, tampouco nos discursos de força bruta em medidas de defesa. Quis e não quis. E conferiu o fim da tarde ao seu redor: nada seria como antes. Seu marido, que, nos projetos de mundo perfeito, seria a mão para a frieza das noites, contorcia-se agora na tentativa de unir ar e pulmões, e não chegava lá. Por que o homem atirou? Onde recomeça a história depois de um final infeliz? Não havia respostas naquela tarde. Então algo estalou dentro dela. Apanhou a arma. Por tudo que perdeu e perderia, calculou, pela esquina que não sairia da memória, pelos que não tiveram amparo da justiça, foi lá, ao lado do homem supostamente imobilizado, e escolheu um ponto da cabeça. Ouviu-se então o disparo. No dia seguinte, sob imagens de uma Heloísa assassina, constavam notas de repúdio, algumas, de felicitações. O ladrão, vítima, segundo a imprensa, não teve chances de defesa - era um chefe de família, matara apenas quatro, um coitado. Quanto ao destino de Marcos, noticiou-se em tímidas linhas que perdeu dois sentidos e muitos movimentos – mas isso era fato de segunda página para lá.

Ricardo Fabião (Junho, 2011)

Texto para o desafio de Junho - Fábrica de Letras

junho 06, 2011

Aos porões o sempre



Que se diga primeiro que havia tristeza e silêncio nas horas do homem da história. Quanto à descrição do quarto sem luz em que o encontramos, que se enfatize a impossibilidade da porta e das janelas - era o mundo do homem só. Sobre a noite que avançava, saibam, não havia sono que o libertasse de si nem remédio para as feridas que colhera no tempo. A metros dali, estava a coordenadora da casa de repouso em que morria lentamente esse homem da tristeza. Esta, ao saber da escuridão e dos porões que guardavam as tristes memórias do mundo de antes do homem do quarto, decidiu convidar à história quem dela faria melhor uso – a moça da vingança. Assim, apareceu nessa tristeza contada a mulher que tinha mais passado no que vivia, e carregava em sorrisos de metade os traumas e as ausências. Começou a visitar o homem do silêncio na semana seguinte, fingindo ser aquela que usava afeto e sensibilidade contra a escuridão lá fora do sistema. Havia razões para odiar aquele que interditara décadas antes o caminho em que ela ia, mas encontrou ali um senhor de olhar distante, um velhinho indefeso. Mudanças. Com segundos planos, ela estendeu ao homem da solidão parada a estrada das mil possibilidades. No primeiro sorriso ele já acreditou. E foi tanta visita aos sentimentos que ele voltou a dormir. Também nos dias de sol arriscou alegrar-se; e com mais medidas de tudo voltou a amar. A moça da intenção velada, com idade de filha, devolveu o oposto do que recebeu em dobro; daquele silêncio distante reinventou um homem, deu-lhe vida. Então o amor passou a ser o tamanho do quarto, que ficou pequeno para existir dentro e só. Ela o levou aos passeios da cidade, aos sorvetes das tardes, ao colorido das manhãs, como se o amasse como pai, como se houvesse isso na intenção. No entanto, ele, amando-a como se fosse filha, abriu os caminhos da alma, tanto assim escancarada para não haver volta, mesmo sem saber as dores. Eis o resultado: de amor estava consolidado o mais controverso laço. A moça conseguiu. Aos de vingança, o melhor momento de ataque é o percebimento da fragilidade do adversário. Foi isso. O homem era só de estima paternal e olhos no dia em que ela decidiu espalhar sobre a mesa as fotos de dois jornalistas que silenciaram para sempre nas mãos de um carrasco. Era um casal em papel amarelado: mãe e pai da moça. Discursos abafados, corpos enterrados em matagais. E foi notícia não divulgada nos tempos da ditadura militar; tempos em que problemas se resolviam com pancada, com cordas, alicates e porões. Essa tristeza, velha companheira, rebocou-o de volta ao passado, ao silêncio do pequeno quarto na escuridão. Olhou para as mãos enrugadas. Não havia água que lavasse ali a sensação de sangue, nem música que apagasse os gritos ainda lá nos corredores sombrios da memória. Ela insistia com o amor nas fotografias, com dedos deslizantes sobre sorrisos de gente morta, a maldizer ainda seu destino de órfã, com perguntas sem intenções de respostas, só desabafo. Esse tanto de amor presenciado, recém-percebido, sem doer em lugar certo, torturava o homem da tristeza sem fim, que tanto investiu nas tramas do caminho oposto - violência. Curiosamente, a última lição a conferir deste amor era contra ele mesmo, algo a roer-lhe a consciência no sempre dos dias, a mostrar-lhe tardiamente o outro lado da história. A moça da vingança chorou mais três instantes e saiu. Antes, beijou, por mais intenção de ferir, a testa daquele que assassinou seus pais: era somente um homem idoso, assustado, vencido, mais morto que vivo, a secar no silêncio que cresceu dali para muito mais. Depois da porta, ainda que sem solução para as lacunas, havia o caminho. Ela foi e nunca chegou.

Ricardo Fabião

Texto para o desafio de Junho - Fábrica de Letras


A imagem acima é intitulada "Las manos del terror"; 
foi pintada por Oswaldo Guayasamín (1919-1999).

março 20, 2011

De vermelho o que se fez novembro


Aos que decidem viver suas próprias vidas

Sofrimento antes era matéria só de imaginar distante; depois é que apareceu a moça do sapato que decidiu tomar a curva para uma dor, e nada mais descansou. No começo de tudo, as histórias de sofrer estavam sempre nas ruas mais distantes da cidade, nas vidas errantes de outros povos; não chegava de palavra experimentada na pele de conhecidos. Para aqueles do cercado, viver era aceitar o ali parado do mundo que não ia. Apenas o silêncio quebrava o limite e era maior que as distâncias. Então sofrer estava nesse depois das coisas, e ninguém arriscava provar, só calava até assim. Era desse cuidado o tamanho de existir. E não havia força que levasse viver além das cercas. O destino colhia-se com a mão, no formato suportado, tão já maduro e previsível quanto as maçãs em suas temporadas. Não havia novidade que criasse novos sorrisos, nem desvio que gerasse vida além; o que se tinha para sorrir era do sempre com a mesma intensidade, como ele é e repete adiante. Sob este desenho tímido de existir, os desejos dos quatro filhos homens da história eram estreitos, que não arriscavam coisa além da vida medida a palmo. Muito quando havia uma moça era em raro evento, e tudo com pouca chance de ir mais que imaginar. O pai então, aquele do limite, mantinha a família dentro do cercado, com seu coração apertado de amor e zelo, e dizia que vida boa é aquela que se conhece no passo, por isso era feliz com seus dois pés sobre a plantação no tamanho que cabia. E isso era tudo assim até que nasceu Teresa, que pediu um par de sapatos quando percebeu que já era menina no dia de crescer - tudo muito rápido aos de vida parada no limite. E um porco assado com boca assim aberta na mesa do sapateiro foi o pagamento de um par vermelho calçado no andar da mocinha depois, que correu feliz e livre, como nenhum ali antes provara, e isso tomou caminho distante aos que perceberam. Foi o susto daquele limite de gente. Ninguém antes arriscara ser sabendo ali. Ter liberdade? Como trabalhar esse tanto? Depois, com os sapatos sobre a roça ela decidiu imaginar que grandeza era coisa que se encontrava longe, onde a montanha curvava e ia com seu desenho até perder-se de tanto dia para lá. E pensou tanto em crescer que a noite de fugir chegou. E foi na intenção toda e só que ela partiu para completar treze em alguma estrada que só ia. Deixou apenas um barulho mudo de sorriso na última cerca, e foi toda para si com o sempre do seu vermelho aceso. Diz que muita coisa afundou com isso: um coração de pai lançado de vez ao acaso, coisa sem força de alcançar um olhar adiante; uma mãe que calou no útero o corte da linhagem, com uma dor que cobria a cor de ver as coisas, murchou. E de silêncio, os rapazes, impossibilitados de entender como era um desejar depois do cercado, ensimesmaram-se no que havia. O sol por isso roeu-lhes a pele durante um novembro diferente, que não findou por dentro. Ficou aquele vermelho no alto das coisas, o do sapato, o do destino para depois da encosta, tudo longe da mão, do entendimento. Não houve mais Teresa que lhes indicasse outras ruas, ficou o mundo só ali, no desenho parado de tudo. Não mais quiseram vê-la, que arriscou passo diferente para ser humana sem eles. Depois a vida voltou ao tamanho, o sorriso no formato das cercas, as frutas na temporada prevista, tudo assim. E foi muito tempo que passou, contudo, ainda no último dia de existir, não havia palavra que lhes explicasse a intensidade daquele vermelho - tão novembro, tão para sempre.

Ricardo Fabião (Março - 2011)

outubro 29, 2010

Por uma diferença inteira



Para Oscar Wilde,
que não usufruiu uma diferença inteira.


No instante desconectado ele era apenas o menino que não sabia narrar a história de ser menino como se deve ser. Faltava-lhe o código. Cansava então disso sozinho, dentro do ar pesado, parado, com sua bola de pensamento mudo a mover-se lentamente na tarde. O pouco barulho do seu passo era de não acordar o mundo como ele é, nem de permitir o pensamento como ele voa, porque pensar é ter muito tamanho fora, ficar grande demais, solto no susto de viver; restava-lhe então calar e pôr disfarces sobre a transparência da alma. E naquele instante desconectado ele percebeu muito cedo a diferença; uma diferença ainda no grão. Constatou: ser menino é de um cuidado tão assim que só o medo de não ser na medida certa traduz a dimensão. O mundo dita o formato, e nâo tê-lo é menos viver. Mas o menino do pensamento mudo não acatava de tanto quase; ouvia e cansava nisso com sua tarde suspensa, oca de tanto descaminho. Como me encaixo no jeito que sou, e amo como não posso? Enquanto não respondia a isso chegava a noite, e ter apenas oito anos é de um medo já no começo de gente, que com o tempo só avança mais fundo, e afundar é muito escuro quando não há chão. Corria para o quarto com o coração fora das horas, com aquela diferença de menino que sente estranhamente, algo que só cresceria para muito distante – ele fora do ciclo. Pôs-se à frente do espelho, despido, transparente até enxergar-se todo, e desejou não saber como seria uma diferença completa, assumida. Deitou. Ficou de sossego só, consigo, na penumbra parada entre tomar conhecimento e aceitar-se. Complicado demais - um motor de mundo não se vence com dúvidas. Puxou o lençol e tomou todo o resto para servir de sonho, que o dia seguinte era novamente um percebimento do desvio, e assim o sempre. Não havia régua que o medisse, não havia chão em que aprumasse sua transparência disfarçada, seu código era outro, seus brasões, sua ânsia, seus suores; seu sangue seria derramado por outro sacrifício quando chegasse a hora; e aí o menino: eu vou com isso? Todos dentro da bola hermética precisam atestar que menino é sempre menino como meninos devem ser. É o tratado social; mas a diferença é uma bola ainda maior, e ele rolava nisso de não caber exatamente no formato, um desviado. Tudo assim percebido doía baixinho no início do sono, sob aquele lençol transparente que não cobria. Ao dormir, desenhava a vida para depois: um dia de cada vez para vivê-lo instante por instante intensamente; sorrir consigo e muito, de si, do mundo e das convenções; então comer frutos com mãos diferentes, tomar o ar por outras necessidades, e crescer, crescer, crescer mais, para caber cada vez menos dentro do tamanho vazio das regras, e ser homem inteiro por isso, de transparência e desejos hasteados. Esse ensaio encaixava bem no desenho, entretanto, depois dos cálculos reais, ele constatava que era dor demais para um menino que já sabia como incomoda doer de silêncio. Numa certa tarde, com mais panos sobre a transparência, desistiu de si. Pediu que parassem a bola hermética que ali passava no sempre, superlotada, com o mundo dentro, no caminho que deve ser; entrou e foi bem recebido por todos – levem-me convosco. Na saída, viu lá fora, a sorrir de tudo, a sombra de si mesmo, que largava finalmente a bola do pensamento mudo para arriscar palavras no passo contrário. E por estar assim uma diferença inteira constituída de forças antagônicas, há quem encontre nisso mais de dois finais na história.

Ricardo Fabião (Outubro -2010)

Texto para o desafio de novembro - Fábrica de Letras
Tema: Transparência

A imagem "O menino e a boneca" é da autoria de Graça Martins;

outubro 02, 2010

O segredo da tarde sem luz



Tudo começa com a chuva de algum dezembro, assim inesperada para o tamanho do dia. Aos que dividem o instante isso desce além das necessidades, pois não excede alguns baldes a sede das plantas, nem comportam mais que dez minutos de água caída as ruas e as praças. O que molha depois disso impõe ilhas ao dia, desmonta projetos humanos. E como há desvios nisso, imaginemos uma casa no meio de tudo, e dentro uma cara de menino impossibilitado na janela da sala; depois, lá fora, com um amarelo de vestido sob a tarde, a menina da história, que corre com a mãe até alcançarem o primeiro portão aberto, e logo uma varanda, que serve de abrigo até que não haja água demais no céu para seus trajes de sair. Calculemos agora a intenção do destino: o menino corre até a cozinha, mãe, há intrusos em nossa casa. Da janela, porém, eles logo compreendem menina e mãe, pessoas que vêm com a chuva, que logo retomam seu caminho, não há problema em acontecer numa varanda de empréstimo. Lamentavelmente, é natureza da chuva não corresponder às horas e aos desejos, e o tempo avança ali. Então fica bem oferecer uma fatia de bolo à menina com quase oito e à senhora com algo depois de quarenta, que não representam perigo. Elas entram, boa tarde, então as mulheres se reconhecem de algo antes, e nisso elas se inserem como se fossem velhas amigas. Os dois menores, silenciosos, de olhos na diferença, buscam outra linguagem, a da desconfiança, da confirmação de posse do território, o ajuste de forças que sempre determina o instante seguinte. Sentam-se e comem de olhos no impasse. Quando o assunto das mães torna-se muito adulto é melhor dizer às crianças que sejam crianças em outro lugar. Sejam. Elas procuram lugar, procuram, procuram, e, de tanto que são crianças, identificam quintal e chuva como a melhor das possibilidades, sejamos então felizes. Assim, com meias roupas, as de baixo, sem cálculos disso, eles entram no mundo molhado da tarde sem luz; deixam-se aos saltos, aos impulsos, imaginam piscinas nas poças lamacentas, arriscam abraços, ensaiam olhares, percebem-se, correm, sorriem, caem, misturam-se aos cheiros do chão. Ele a beija na face, sem entendimento, sem medidas de fazer, entretanto, considera mais estranho todo o resto, o impedimento, pois logo ecoam os gritos das mulheres, um, dois, três, muitos; ele toma palmadas e ela é arrastada pelas ruas com o vestido amarelo na mão. A família da garota, gente que responde bem aos ditames da década de 50, deixa o bairro no dia seguinte, certa de que esquecer completamente é caminho possível. Depois disso, como sabemos, o tempo transforma crianças em adultos, desvios em segredos. Hoje, eles não se conhecem, não lembram mais o fato; afinal é apenas uma tarde no meio de todo esquecimento necessário ao vivente. Todavia, não sabem dizer ao certo por que gostam tanto do cheiro sem luz da chuva - algo que futuro nenhum pode transformar em pretérito; conjuga-se sem verbo, alheio à consciência, em eterno presente. Não passa.

Ricardo Fabião (outubro, 2010)

Texto para o desafio de Outubro - Fábrica de Letras
Tema: O cheiro da chuva

setembro 22, 2010

Cartas ao dia seguinte


"A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata".
(Virginia Woolf)

O que se sabe é que ela guardou a última lembrança de existir no sótão, para que não desse com o peso de ser nas horas. Foi disso, nessa falta de luz que proliferaram as ausências, todas, e ali, sem dia, sem ar, só mesmo uma desistência de vida caberia. Ela aparecia vivendo assim, muito cedo, na estrada da manhã com a lacuna; por isso entretinha-se com vassouras e ferros de passar, fingindo-se atarefada com as exigências do seu dia. Inventava esse caminho de ter o que fazer até que não mais houvesse o que pensar, e não cansava dessa fuga. Quando depois do sol, escrevia cartas na varanda, para que no papel pudesse tornar-se personagem principal de alguma história. Eram as cartas do dia, importantíssimas, convinham a uma solidão. Escrevia-as com estreitura e desvios  de quem confessa pecados. Antes de deitar, deixava-as sobre o móvel da sala para pensar no dia seguinte que haviam sido destinadas a ela. Abria-as e conseguia sorrir absurdamente com as novidades narradas no papel, algo apreensiva, com ânsia de adolescente. Os parágrafos traziam a notícia feliz de uma dona de casa que, deixada ao mundo pelo marido após trinta anos de costumes e noites de dois, ainda dispunha do dia seguinte para um passo. E como era manhã no mundo assim, corria ao fogão, apressada em pôr panelas no fogo, pois logo haveria crianças a correr na varanda, a saltar por entre os arbustos do jardim, tudo de muito movimento ao meio-dia e vida ao sol. Mentira. Não havia criança para uma instalação de luz de dia diferente. Até o sol era só queda. A casa havia sido deixada ao que cala e seca, aos caminhos sem ida, e ela era mais impasse que mulher; por isso a importância da leitura em voz alta daquelas cartas, para que delas reverberasse um destino diferente, única saída aos ouvidos, já que no olhar não havia algo que vencesse as tristes distâncias do passado. E ela não ia mais que isso, dividida que estava entre os dois destinos possíveis do seu dia: história que não voltava, que não avançava, um ponteiro de relógio quebrado, um mundo sem ir. Somente o tempo, com as chaves de tudo, seguia no mais para lá dos cercados, tomando as curvas de depois muito. Ela fechava as cortinas, não queria luz nem horizonte, que o de qualquer jeito de sua vida era demais pesado para se levar sabendo. Agora, ela e aqueles objetos abandonados eram uma casa no meio do caminho empoeirado, sem filhos para uma aflição, sem par para um café, ninguém passava, nenhum viajante perdido; ali nada batia além da porta entreaberta, perpassada pelos dois ventos sobreviventes, confusos. Nada chegaria ali, nem mesmo com gritos de socorro. Todos haviam esquecido o endereço da dona de casa que trancafiou as possibilidades de ir com a vida após ser deixada sem amor ao próprio passo. Por isso, ao deitar o sol, ela escrevia sempre. E foi assim até o instante em que deixou de ouvir-se, e passou a esquecer-se de ser, mas não morreu quando chegou o dia, preferiu seguir com a solidão. Guardou-se eternamente dentro das missivas, e lá permaneceu ausente de tudo - em cima do móvel da sala. Com a chegada da noite, ela escrevia cartas ao dia seguinte.

Ricardo Fabião (Setembro - 2010)

setembro 19, 2010

Depois do escuro das coisas


Aquela criança era da parte mais oeste que se imaginava quando alguém dizia medo; e era moradora desse lugar que não constava no mapa, que nem mapa havia, nem mesmo desenhista, um quase existir, que não crescia e não diminuía, só havia com seu tamanho entre os quatro limites, e era o começo de tudo. E ninguém ali tinha coragem de aventurar um só pé mais oeste depois disso, porque haviam dito que indo para lá dormia o sol, e deveria ser mais quente que qualquer coisa mais reluzente de se conseguir ver. E por ser o lugar do seu descanso, um ninho aceso no meio das encostas, assim com tanto amarelo, o sol fatalmente sugaria as outras cores para dentro de si. Não cabia nem pensar nesse destino de uma cor só; melhor era ter medo, para ser mais do sossego que reside em não saber. Os habitantes desse receio, por isso, com o oeste do mais assustador de imaginar, gostavam de pintar o sol nas paredes, do modo mais intenso do seu arco diário, temendo que o astro pudesse morrer para sempre de tanto oeste que repetia no passo do céu e ser por isso esquecido. Ali, o sol era a presença maior, e sem esse entendimento não havia seguir. E todos cultivavam esse cuidado só de calcular que o medo pudesse ser maior que a noite, que já levava muito horário com o azul apagado. A menina, no entanto, mais curiosa que a razão de ser do mais oeste do mundo, resolveu seguir o sol para saber onde ele fingia que morria antes do escuro. E correu sem saber e muito, acompanhando o fio da luz caída, que de tanta natureza só sabia o destino inatingível de oeste. E porque era imensa a bola brilhante, assim deveria ser o ninho em que ela deitava a gerar o dia de outras vilas sem luz. Logo a grandeza seria notada. Mas a menina cansou de tanto que não achou sol naquela largura de noite, e dormiu por cima de uns escuros que encontrou no caminho. Até que veio do leste a primeira luz de sempre. E desse lugar alheio, a menina entendeu que todo leste, por mais imaginado que seja, tem um sol de nascença, e todo oeste, por mais lá indo longe de tudo, leva consigo o sol para o seu depois. E ela ficou feliz de perceber assim o sempre das coisas. Enfim, a distância do escuro do céu foi vencida. E foi por saber mais do oeste que a vila soube das horas que chegavam do leste, um ciclo, e que não havia cansaço em repetir-se. Depois, os habitantes marcaram o dia como tempo de viver, e passaram a ser assim, como se fossem livres. E porque ainda era início todos aprenderam. Então o sol passou a ser somente a bola curiosa que dizia os horários, com direito a uma morte de estrela no dia do seu último escuro. O que não se sabe, o caminho mais alheio, onde as luzes oscilam sem horas e datas, permanece dentro do homem, sem solução.

Ricardo Fabião (Setembro - 2010)

Texto para o desafio de Setembro - Fábrica de Letras
Tema: Livre

agosto 26, 2010

A fronteira


Para Ane, Jessiely, Keila, Renata;
mulheres que arriscam alma e palavras 
além de suas próprias fronteiras.


E com quatro dos símbolos aprendidos ele escreveu 'viver', e assim começou a história. Escreveu, que gostou, e soube como seguir. Agora cada um daqueles símbolos abria uma estranha passagem, o que ele tomou para si como ofício, para riscar nas coisas e arriscar-se mais. E desejou juntar todos eles, os vinte e seis símbolos, para chegar a todas as coisas do mundo, e com isso escrever tudo que se ouve, que se vê e sente, e com zelo especial, tudo que se cala. Foi a professora, com algum tipo de luz nas mãos – como faz o sol, ao rasgar diariamente os caminhos e as cores aos seres –, que os desenhou no quadro, com giz e magia; e não só isso foi aberto ali, o que se escreve e a estrada depois: algo que ele não sabia onde era estendeu-se muito mais mundo adentro, que ele só alcançaria de juntar e dizer todas as letras. E foi sem cansar disso até muitos dias. Juntava então nos dedos as letras e as escrevia no ar. Escrevia, escrevia, ininterruptamente. Onde estava o mundo, lá punha seu dedo a escrever em cima das coisas, com exclamações nas ladeiras, interrogações no horizonte. Quando o ar estava cheio dos seus escritos, ele os apagava até que se refizesse o vazio para abrigar mais palavras. Até aí era a descoberta, o menino. Certa vez, no desvio do caminho, quis saber como era juntar humanos e sentimentos na mesma frase, e pôs 'Lúcia' em cima, no topo da paisagem, e 'meu amor' embaixo, no azul quase chão; depois riscou reticências para que isso ficasse ao tempo. E contemplou a possibilidade e a fundura daquelas palavras. E tão logo percebeu que alguém poderia ler o pedaço rabiscado do vazio, que com mão demais apagou além do que deveria, e deixou um buraco no céu onde antes estava 'amor'. E assustou-se. Sem aquele pedaço de ar faltava-lhe algum caminho até ser completamente. Mas não houve jeito: agora estava lá, em todos os lugares aonde ia, no que sentia e almejava, o tal amor apagado às pressas, doendo onde não estava, um furo no céu, um oco suspenso no olhar, que seguia junto vida adiante, desconhecedor das horas. E foi nessa margem pouco visitada que ele ancorou o passo; cresceu. Eis o adulto, o destino. Todos os dias punha escadas e escrevia no vão do amor arrancado, tentando chegar com palavras ao tamanho necessário para cobrir a falta, algo que aliviasse o incômodo de ter um buraco onde antes desenhado estava o primeiro amor. Quis remendar com linha e agulha, com adesivo e cola, mas nada fechava naquele lugar. Ainda fingiu que era janela, mas tinha de fato medidas de lacuna, de ausência, e não coube uma cortina. Depois ele soube que ali estava a fronteira de tudo. Um dia encontraram apenas a escada e o silêncio. No mundo de cá, aos de sensibilidade, restou o que ele havia escrito. Dizem que virou poeta.

Ricardo Fabião (Agosto - 2010)

agosto 11, 2010

Estranheza

Pode o autor ter predileção por alguns de seus textos?
Se me for dado tal direito, eis abaixo um deles.



A Victória, minha filha,
pela diferença que nos uniu
em tudo eternamente.

         Zafina sofria de esquisitice, de estranheza completa, um desajuste brabo, tão assim sem remédio que nem sete rezas em noite de lua cheia deram jeito; recomendaram em vão. E como não havia nome para o mal, nem tolerância à diferença, ela tornou-se a aluada da cidade, a desandada, uma tristeza. Como resposta, a garota apenas olhava, sorria inocentemente, mas adentrava o pensamento dos curiosos, invadia falsas verdades, desvendava intenções ainda na alma.
         Estranho. Assustador. E não havia quem pudesse com o peso daquele olhar, tanto que desde o nascimento negaram-lhe qualquer possibilidade de afeto. E ela, algo assim calada, parada diante das paredes, olhava-as demoradamente, quase aos sorrisos, como se naquele vazio encontrasse uma saída para o seu descompasso. E foi por medo, por temer a escuridão encontrada na alma das pessoas, que decidiu não mais falar.
         Havia começado as letras mas nada escreveu em cinco anos de chance. Sua única produção estudantil foi o desenho em que rabiscou uma família feliz: uma mãe que ama a filha, um pai, um irmão, e todos no mesmo amor com um sol lá em cima para todo sempre. Mas dinheiro gasto exige algo em troca, evolução, e tiraram-na do colégio: num dia estava lá, no outro, trancada em seu quarto.
        A natureza tem dessas invenções, alguém tinha de ser Zafina e a pequena foi justamente nascer assim. A família estranhou. O que é isso? Bem, aparece uma em cem milhões, o médico do posto de saúde foi categórico, mas dá para aguentar, não morde, não contagia, e não mata, apenas é esquisita. De que jeito, doutor? Segundo minha experiência, ela não se irrita, não deseja o mal, possui todas as virtudes; tudo que faz e gosta e sabe é olhar, muito lá dentro, no viés da alma, nas curvas, e descobre suas imperfeições e relevos; é difícil de aceitar, suponho, mas ela possui também habilidade para amar incondicionalmente; isso talvez amenize o pesar da moléstia. Ameniza nada, estamos convencidos, ela é realmente estranha, somos uma família tradicional, não podemos com tamanha aberração. Como alguém pode apenas olhar, amar e lidar com a verdade? É muito pouco para ser humano legítimo, não sobrevive, não dá certo no caminho, sou mãe preocupada. E a sociedade?
        Decidiram então manter Zafina em casa, sob eterna vigília, quarto separado, remédio controlado, alarme para entrar e sair, o amor é perigoso, ninguém sabe que rumo toma; os talheres foram marcados, a lavagem de sua roupa feita em outro tanque, a doença é rara, sabe-se pouco sobre contágio e tratamento, somos uma família que não arrisca desvios de conduta, há um brasão sobre nossas cabeças, a mãe repetia, mas veja, ninguém é desumano, aqui ela é bem tratada, há um rádio para distrair, sufoco, Zafina cresceu. A serenidade permaneceu, o olhar firme, perfurador, o sorriso e a clarividência, e isso incomodava os mais próximos, que eram, no mínimo, distantes. Um abismo para os dois lados, e o tempo foi junto a cair.
        Ela tinha vinte e três quando o irmão visitou seu quarto numa certa manhã. Ele todo sorriso, quer ver como é o mundo? Zafina toda esperança e feliz, com palavras ditas para dentro, só de olhares, vou ver como é o sol do longe, conhecer o mar, talvez um vestido novo, tomar sorvete, pensamentos. Sim, você vai ser livre, o irmão foi convincente, tinha de ser, havia projetos na cabeça, grandes segredos, um circo, uma atração assim “o olhar que tudo vê”, sucesso, dinheiro, é só esperar. Você trabalha para mim, eu cavo sua liberdade. Combinado. Mãe, eu levo Zafina para morar comigo, lugar distante, não voltaremos, a razão ele omitiu, não se preocupe, melhor assim, ficaremos livres dessa aberração. Por favor, esqueça que somos mãe e pai.
        E aconteceu: um trem, uma estação, um rosto virado de pai, uma boca torta de mãe, uma lama de primavera chuvosa, um rádio apertado nas mãos, um olhar a mais, um amor a menos, abortado, já sai, já foi, depois uma porta, um vagão, os trilhos e a manhã gelada. Os acenos espalhafatosos jogados por Zafina ricocheteavam na frieza do casal estacionado na estação, silenciosamente satisfeito por despachar um incômodo de duas décadas. Fizemos nossa parte, vamos para casa. Voltaram ao resto da manhã, uma cena muda, que era o início do vazio que guiaria suas vidas adiante.
        Era então um terço da viagem quando ele reparou nos olhos da irmã. Não nos conhecemos. Como é apenas olhar? Não responderás, eu sei. De que lugar vieste assim tão diferente? Segundo o que aprendeu, ela era perigosa, um castigo, aquela que jogou o nome da família no ralo, tanto que durante toda sua vida ele tratou de não entendê-la como irmã. Ela, alheia à inquietude daqueles questionamentos, só sabia a felicidade que era o chocolate em suas mãos. Não media a dor do passo que ia na direção contrária das coisas, por isso sorria para o desenho apressado das montanhas no lá fora, para o tamanho do céu, e escutava mais alto o mundo que só ela entendia. Tinha lindos olhos, o que haveria de errado com eles?
        Aquela jovem mantinha o rádio no colo como quem tem as chaves que abrem a alegria da vida inteira, seu único companheiro até ali. Ele pousou o olhar sobre essa cena, o que fizemos a ti, minha irmã? Zafina continuava de sorrisos, indiferente ao derretimento de sua vida, do chocolate, a sujar-lhe as mãos, o destino, deixada de qualquer jeito ao pé do instante seguinte; não era deste mundo, era feliz de não saber que seria infeliz se soubesse como era ser. Então algo revirou dentro dele, uma náusea, uma saudade de algo que não conhecera, coisas que iam e voltavam, talvez o engasgo a tomar outro caminho, tornando-se respiração livre, portões que se abriram, água jorrada depois de represada, inundação. Ela virou-se para ele, os olhares bateram-se demoradamente, um minuto eterno, e ela não disse, que não precisou, e ele ouviu tudo, paralisado entre contemplar e lamentar, por ela e por ele, pelo mundo, esse engasgo todo, pelo abismo e pela falta de acesso. Tudo ele diria se soubesse, mas palavras são instrumentos de uso complicado, e, recém-chegado de um longo silêncio, só coube na voz olhar, doer, olhar. E isso levou muito mais alma que morrer.
        Enxergar-se foi caminho que ele não soube administrar para um depois. Acostumara-se desde menino às meias verdades de sua família; de modo que uma verdade inteira foi clareza demais, desencadeou sensações controversas, interditou seus planos, teria que improvisar um desvio.
        Horas depois, a irmã dormia dentro do vagão gelado, com seu sonho de azul e calor, distante consigo só. Apenas uma incerteza de madrugada chamava por ele lá fora. Desceu na estação seguinte. Duas malas estavam ao seu lado quando o remorso o tomou para sempre. O trem partiu lentamente, fazendo curvas e buracos naquele resto de noite. Deixou ali o cinza-escuro do impasse e o homem da lágrima silenciosa.
        Zafina acordou. Levantou-se. Isso foi quando o movimento da janela mostrou-lhe como era calada e triste uma imagem de irmão deixada para trás. Sentou-se. Sorriu alheia, sem cálculos, sem destino. Ligou o rádio. Comeu outro chocolate perto da manhã.

Ricardo Fabião (Julho, 2007)

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