agosto 26, 2010

A fronteira


Para Ane, Jessiely, Keila, Renata;
mulheres que arriscam alma e palavras 
além de suas próprias fronteiras.


E com quatro dos símbolos aprendidos ele escreveu 'viver', e assim começou a história. Escreveu, que gostou, e soube como seguir. Agora cada um daqueles símbolos abria uma estranha passagem, o que ele tomou para si como ofício, para riscar nas coisas e arriscar-se mais. E desejou juntar todos eles, os vinte e seis símbolos, para chegar a todas as coisas do mundo, e com isso escrever tudo que se ouve, que se vê e sente, e com zelo especial, tudo que se cala. Foi a professora, com algum tipo de luz nas mãos – como faz o sol, ao rasgar diariamente os caminhos e as cores aos seres –, que os desenhou no quadro, com giz e magia; e não só isso foi aberto ali, o que se escreve e a estrada depois: algo que ele não sabia onde era estendeu-se muito mais mundo adentro, que ele só alcançaria de juntar e dizer todas as letras. E foi sem cansar disso até muitos dias. Juntava então nos dedos as letras e as escrevia no ar. Escrevia, escrevia, ininterruptamente. Onde estava o mundo, lá punha seu dedo a escrever em cima das coisas, com exclamações nas ladeiras, interrogações no horizonte. Quando o ar estava cheio dos seus escritos, ele os apagava até que se refizesse o vazio para abrigar mais palavras. Até aí era a descoberta, o menino. Certa vez, no desvio do caminho, quis saber como era juntar humanos e sentimentos na mesma frase, e pôs 'Lúcia' em cima, no topo da paisagem, e 'meu amor' embaixo, no azul quase chão; depois riscou reticências para que isso ficasse ao tempo. E contemplou a possibilidade e a fundura daquelas palavras. E tão logo percebeu que alguém poderia ler o pedaço rabiscado do vazio, que com mão demais apagou além do que deveria, e deixou um buraco no céu onde antes estava 'amor'. E assustou-se. Sem aquele pedaço de ar faltava-lhe algum caminho até ser completamente. Mas não houve jeito: agora estava lá, em todos os lugares aonde ia, no que sentia e almejava, o tal amor apagado às pressas, doendo onde não estava, um furo no céu, um oco suspenso no olhar, que seguia junto vida adiante, desconhecedor das horas. E foi nessa margem pouco visitada que ele ancorou o passo; cresceu. Eis o adulto, o destino. Todos os dias punha escadas e escrevia no vão do amor arrancado, tentando chegar com palavras ao tamanho necessário para cobrir a falta, algo que aliviasse o incômodo de ter um buraco onde antes desenhado estava o primeiro amor. Quis remendar com linha e agulha, com adesivo e cola, mas nada fechava naquele lugar. Ainda fingiu que era janela, mas tinha de fato medidas de lacuna, de ausência, e não coube uma cortina. Depois ele soube que ali estava a fronteira de tudo. Um dia encontraram apenas a escada e o silêncio. No mundo de cá, aos de sensibilidade, restou o que ele havia escrito. Dizem que virou poeta.

Ricardo Fabião (Agosto - 2010)

agosto 11, 2010

Estranheza

Pode o autor ter predileção por alguns de seus textos?
Se me for dado tal direito, eis abaixo um deles.



A Victória, minha filha,
pela diferença que nos uniu
em tudo eternamente.

         Zafina sofria de esquisitice, de estranheza completa, um desajuste brabo, tão assim sem remédio que nem sete rezas em noite de lua cheia deram jeito; recomendaram em vão. E como não havia nome para o mal, nem tolerância à diferença, ela tornou-se a aluada da cidade, a desandada, uma tristeza. Como resposta, a garota apenas olhava, sorria inocentemente, mas adentrava o pensamento dos curiosos, invadia falsas verdades, desvendava intenções ainda na alma.
         Estranho. Assustador. E não havia quem pudesse com o peso daquele olhar, tanto que desde o nascimento negaram-lhe qualquer possibilidade de afeto. E ela, algo assim calada, parada diante das paredes, olhava-as demoradamente, quase aos sorrisos, como se naquele vazio encontrasse uma saída para o seu descompasso. E foi por medo, por temer a escuridão encontrada na alma das pessoas, que decidiu não mais falar.
         Havia começado as letras mas nada escreveu em cinco anos de chance. Sua única produção estudantil foi o desenho em que rabiscou uma família feliz: uma mãe que ama a filha, um pai, um irmão, e todos no mesmo amor com um sol lá em cima para todo sempre. Mas dinheiro gasto exige algo em troca, evolução, e tiraram-na do colégio: num dia estava lá, no outro, trancada em seu quarto.
        A natureza tem dessas invenções, alguém tinha de ser Zafina e a pequena foi justamente nascer assim. A família estranhou. O que é isso? Bem, aparece uma em cem milhões, o médico do posto de saúde foi categórico, mas dá para aguentar, não morde, não contagia, e não mata, apenas é esquisita. De que jeito, doutor? Segundo minha experiência, ela não se irrita, não deseja o mal, possui todas as virtudes; tudo que faz e gosta e sabe é olhar, muito lá dentro, no viés da alma, nas curvas, e descobre suas imperfeições e relevos; é difícil de aceitar, suponho, mas ela possui também habilidade para amar incondicionalmente; isso talvez amenize o pesar da moléstia. Ameniza nada, estamos convencidos, ela é realmente estranha, somos uma família tradicional, não podemos com tamanha aberração. Como alguém pode apenas olhar, amar e lidar com a verdade? É muito pouco para ser humano legítimo, não sobrevive, não dá certo no caminho, sou mãe preocupada. E a sociedade?
        Decidiram então manter Zafina em casa, sob eterna vigília, quarto separado, remédio controlado, alarme para entrar e sair, o amor é perigoso, ninguém sabe que rumo toma; os talheres foram marcados, a lavagem de sua roupa feita em outro tanque, a doença é rara, sabe-se pouco sobre contágio e tratamento, somos uma família que não arrisca desvios de conduta, há um brasão sobre nossas cabeças, a mãe repetia, mas veja, ninguém é desumano, aqui ela é bem tratada, há um rádio para distrair, sufoco, Zafina cresceu. A serenidade permaneceu, o olhar firme, perfurador, o sorriso e a clarividência, e isso incomodava os mais próximos, que eram, no mínimo, distantes. Um abismo para os dois lados, e o tempo foi junto a cair.
        Ela tinha vinte e três quando o irmão visitou seu quarto numa certa manhã. Ele todo sorriso, quer ver como é o mundo? Zafina toda esperança e feliz, com palavras ditas para dentro, só de olhares, vou ver como é o sol do longe, conhecer o mar, talvez um vestido novo, tomar sorvete, pensamentos. Sim, você vai ser livre, o irmão foi convincente, tinha de ser, havia projetos na cabeça, grandes segredos, um circo, uma atração assim “o olhar que tudo vê”, sucesso, dinheiro, é só esperar. Você trabalha para mim, eu cavo sua liberdade. Combinado. Mãe, eu levo Zafina para morar comigo, lugar distante, não voltaremos, a razão ele omitiu, não se preocupe, melhor assim, ficaremos livres dessa aberração. Por favor, esqueça que somos mãe e pai.
        E aconteceu: um trem, uma estação, um rosto virado de pai, uma boca torta de mãe, uma lama de primavera chuvosa, um rádio apertado nas mãos, um olhar a mais, um amor a menos, abortado, já sai, já foi, depois uma porta, um vagão, os trilhos e a manhã gelada. Os acenos espalhafatosos jogados por Zafina ricocheteavam na frieza do casal estacionado na estação, silenciosamente satisfeito por despachar um incômodo de duas décadas. Fizemos nossa parte, vamos para casa. Voltaram ao resto da manhã, uma cena muda, que era o início do vazio que guiaria suas vidas adiante.
        Era então um terço da viagem quando ele reparou nos olhos da irmã. Não nos conhecemos. Como é apenas olhar? Não responderás, eu sei. De que lugar vieste assim tão diferente? Segundo o que aprendeu, ela era perigosa, um castigo, aquela que jogou o nome da família no ralo, tanto que durante toda sua vida ele tratou de não entendê-la como irmã. Ela, alheia à inquietude daqueles questionamentos, só sabia a felicidade que era o chocolate em suas mãos. Não media a dor do passo que ia na direção contrária das coisas, por isso sorria para o desenho apressado das montanhas no lá fora, para o tamanho do céu, e escutava mais alto o mundo que só ela entendia. Tinha lindos olhos, o que haveria de errado com eles?
        Aquela jovem mantinha o rádio no colo como quem tem as chaves que abrem a alegria da vida inteira, seu único companheiro até ali. Ele pousou o olhar sobre essa cena, o que fizemos a ti, minha irmã? Zafina continuava de sorrisos, indiferente ao derretimento de sua vida, do chocolate, a sujar-lhe as mãos, o destino, deixada de qualquer jeito ao pé do instante seguinte; não era deste mundo, era feliz de não saber que seria infeliz se soubesse como era ser. Então algo revirou dentro dele, uma náusea, uma saudade de algo que não conhecera, coisas que iam e voltavam, talvez o engasgo a tomar outro caminho, tornando-se respiração livre, portões que se abriram, água jorrada depois de represada, inundação. Ela virou-se para ele, os olhares bateram-se demoradamente, um minuto eterno, e ela não disse, que não precisou, e ele ouviu tudo, paralisado entre contemplar e lamentar, por ela e por ele, pelo mundo, esse engasgo todo, pelo abismo e pela falta de acesso. Tudo ele diria se soubesse, mas palavras são instrumentos de uso complicado, e, recém-chegado de um longo silêncio, só coube na voz olhar, doer, olhar. E isso levou muito mais alma que morrer.
        Enxergar-se foi caminho que ele não soube administrar para um depois. Acostumara-se desde menino às meias verdades de sua família; de modo que uma verdade inteira foi clareza demais, desencadeou sensações controversas, interditou seus planos, teria que improvisar um desvio.
        Horas depois, a irmã dormia dentro do vagão gelado, com seu sonho de azul e calor, distante consigo só. Apenas uma incerteza de madrugada chamava por ele lá fora. Desceu na estação seguinte. Duas malas estavam ao seu lado quando o remorso o tomou para sempre. O trem partiu lentamente, fazendo curvas e buracos naquele resto de noite. Deixou ali o cinza-escuro do impasse e o homem da lágrima silenciosa.
        Zafina acordou. Levantou-se. Isso foi quando o movimento da janela mostrou-lhe como era calada e triste uma imagem de irmão deixada para trás. Sentou-se. Sorriu alheia, sem cálculos, sem destino. Ligou o rádio. Comeu outro chocolate perto da manhã.

Ricardo Fabião (Julho, 2007)

agosto 02, 2010

A estrela que não está lá


Antes não havia desejo, só o brilho. O desejo ela inventou quando quis ser luz de outros lugares, que brilhar de fogo por dentro era coisa muito só e sem razão. E como não havia escada para descer do alto do céu, nem avião que passasse naquele lugar depois de tudo, ela, a estrela distante, decidiu descer por meio de sua própria luz, que era muito rápida e acendia mais longe do que todas as coisas que iam. E foi com esse desejo que se deu sua viagem no nada, a primeira ida e a última. E com sede de mundo ela desceu pelos raios luminosos. Então começou a contagem acelerada dos anos-luz, estrada de vida e de morte, onde, quanto mais luz se deixa aos do caminho, menos se guarda para si; um deslizar para o próprio aniquilamento, um esvair-se que ela realizou com calor e intensidade. Seu destino era então encontrar um olho que desse com sua luz, alguém que lhe atestasse a existência, que a entendesse por estrela, e que depois uma estrada que não fosse solidão se estendesse aos dois, uma longa viagem. Entretanto, curiosamente, de tanta distância que alcança uma luz, alheia ao tempo que leva disso, torna-se impossível manter-se inteira na fonte, porque no cálculo espaço vezes tempo isso lá atrás já foi, passou, apagou-se, esfriou eternamente. E foi assim tão longe quando chocou-se com o primeiro olhar humano, e tanta queima levou de si, que a estrela já não era de fato um corpo na base, mas apenas uma trajetória iluminada, uma memória acesa, uma decoração de noite sem lua. E não houve mais contato com o lugar do alto do céu de onde saiu, nenhuma mensagem do mundo de antes, que era só brilho; não voltou, pois, para envelhecer consigo. Morreu a caminho de outro olho mais distante; não chegou. Mantinha-se agora no alto do nada mais azul distante como pontinho luminoso; contudo, já não estava lá. Havia utilizado ingenuamente todas as lâmpadas do seu estoque para clarear a escuridão dos olhares do caminho. E isso não foi suficiente.

Ricardo Fabião (Julho - 2010)

Texto para o desafio de Julho - Fábrica de Letras
Tema: "Uma longa viagem..."

Imagem: "Lost Star"
Página: http://paolodomeniconi.blogspot.com/

Direitos reservados