julho 29, 2010

Controle



Aos poetas e pensadores:
Aluisio Martins, Fred Caju e Jairo Cerqueira, 
pela inquietação de ser, viver.

Nós corríamos no meio do mundo. Plenos. Minha mãe sempre à frente, com algum cabelo solto e sorrisos, levando-nos a correr, correr, sem cansaço, com alma e delírio, para que bebêssemos mais da vida a essência toda. Éramos os pequenos reis do instante, da distração, meus três irmãos ligeiros e eu, olhos em tudo, entregues ao acaso, porque era gratuito e era nosso único jeito de existir com alegria, correndo no meio de tudo. Então correr não iniciava, não findava; para nós era como imaginávamos uma família naquilo existindo. Nossa mãe era daquele jeito que corria alheia e sorria, e isso tinha ajuste para nós, nosso código de enxergar. E não importava o modo como as pessoas nos enquadravam em suas censuras: ‘essas crianças suadas, eufóricas, sorridentes, soltas’. Era só essa coisa que nos deixava felizes, com demência, com paixão. Todos diziam disso que não colava no mundo uma brincadeira assim de correr pelas ruas, de mãe com filhos, de qualquer jeito, ao ar. Viver, preconizam, exige seriedade e susto, isso é assim; tão desse modo que se repete desde que inventaram o mundo. Mas corríamos como se não ouvíssemos e fôssemos mais que o planeta todo a gritar, e éramos, pois tínhamos uma mãe com um sorriso para os dias, com um vestido ao vento e com amor para nosso sempre de criança, e nisso havia o brilho dos nossos olhos, e vivíamos, bastante. E eu como era o mais novo daquela distração de existir, o que menos sabia os caminhos, mais a mim deixavam o ofício de guiar as brincadeiras; só para sermos mais do devaneio e da falta, para gastar sorrisos ao fim do dia sem saber. É verdade que não avançávamos lugares nem pódios sociais, apenas corríamos; e incomodávamos porque retirávamos das ruas outro gás, irrespirável para muitos. E conseguíamos sorrir com o sol, só por ser manhã, loucura. Talvez. Então vieram as regras do mundo, em marcha, com amarras e seringas, e guardaram minha mãe dentro de uma casa de repouso para que não mais corresse sem razão pelas horas, feliz e alheia, que não pode; e foi lá onde ela nunca repousou do coração que só tem euforia. E naqueles que ficaram meninos e sozinhos, acolhidos em lares encomendados, não houve palavra que remendasse a tristeza. Não sei ao certo o que dizer do resto que foi para cada um continuar nisso, viver, porque no caminho dos dias, o mundo, feito dessa tristeza normalizada, em geral, só diz que é disciplina e sociedade, mas é controle mesmo... E não há medida pronta nas regras do dia que nos restitua correr daquele jeito - alheios, felizes, soltos, plenos de distração.

Ricardo Fabião (Julho - 2010)

Texto para o desafio de Fevereiro - Fábrica de Letras
Tema: "Loucura"

julho 20, 2010

Quando passar o sol que não passa


Para José Saramago

Ele não virá para hoje à noite,
Para nem mais uma palavra sua voz depois;
Só um tanto de lacuna no que silencia ficamos cá.
Talvez ele esteja guardado dentro do sol que passou,
Mantido sob o eterno calor do fogo de suas frases,
E de tanto sol que é, que foi, ficou, assim, à luz, suspenso...
Não mais anoitecerá conosco para só ir.
Talvez esteja aqui a dizer e não sintamos,
Ou certamente na revelação dos segredos, não ouvimos,
Que a descompasso da alma é ruidoso, não vemos,
Que o muro do mundo é alto, não vamos.

Hoje mais do que antes somos cegos,
Estamos de solidão em guarda, 
Um corpo solto dentro da roupa que não cabe,
Pois ele não virá para a distância da noite.
Então mais noite haverá que nos escureça ser,
Sem o tamanho do seu sol de manhã sempre,
E sem que se colha um mar para tão profundo existir.
Ergamos, pois, a tenda para que o escuro não entre,
Que doer assim nos mantém mais órfãos do que fôramos.
Cuidemos dos barcos e dos ventos,
Que sem o calor de suas palavras, 
Talvez faça mais frio viver,
E torne-se mais longe chegar...

Não, ele não nunca mais virá para hoje à noite;
Só escurece indo...
Mas desconfio de que haja um só lugar
Que não tenha ficado mais sol
Após sua passagem.

Ricardo Fabião (Junho - 2010)

Na imagem: José Saramago em 1996
Fotografado por Sebastião Salgado

julho 10, 2010

Vida a dois


Para tentar dois em um - dois
Para confirmar um por dois - um
Para três quartos do amor - um
Para oito quintos de crise - dois
Para três tempos insistindo - um
Para um tanto de impasse - dois
Para cinco sextos de sofrer - um
Para um sexto do outro - silêncio
Para duas vezes ao dia - engasgo
Para um trago de dor - memória
Para dois tantos de tudo - um
Para o que resta de pouco - outro
Para sete nonos de aposta - um
Para o restante evitado - outro
Para noites de comemoração - um
Para resposta aos amigos - dois
Para onze décimos de farpas - dois
Para retornos interditados - dois
Para olhares incompatíveis - dois
Para novas possibilidades - poucos
Para oito oitavos de vazio - talvez
Para viver o resto dos dias - dois
Para um caminho avançando - um
Para um caminho ficando - outro
Para histórias partilhadas - um
Para tempos que não se atam - dois
Para depois da intolerância - dois
Para fim de um por um só - depois
Para um responder aos dois - tempo

Para tudo depois - o que é dos dois
Quando talvez dois diluídos em um
Ou para dois sendo um sem outro
Quando, para dois destinos, dois

Ricardo Fabião (dezembro, 2009)

julho 01, 2010

O repasse


Disparou a palavra 'amor' contra o carcereiro. Com urgência. Foi quase sussurrada, ao ouvido; aproximou-se e disse assim, no último instante. Depois da palavra e do fio deixado pelo cheiro do uniforme na lentidão do corredor, o prisioneiro recebeu sua injeção de adeus, e não mais houve dele um som o corpo suado ali; ficou só a palidez encerada sobre a maca e o vazio impune da seringa. Contudo, aquele carcereiro, de armas e poderes, convicto, defensor dos seus brasões de homem, até morrer por isso faria, recebeu aquela última palavra e olhar, um repasse de chave, e ficou intrigado, e sentiu apertos de uma estranha saudade a poucos metros do corpo inerte do criminoso. O detento havia acertado as esquinas daquele que não se conhecia, e levou dele mais sangue ao silênciar do que seria com um tiro; doeu o instante todo, invadiu mais lá. Depois ficou a reverberar nas horas de sempre o sentido da palavra que jamais se abriu por completo; a chave não poderia ser usada, não foi. Nunca. Por que o preso não esbravejou? Por que não maldisse aquele instante? Fúria de homem para homem é mais fácil de tamanho, está no entendimento da força. Mas não foi assim; ficou aquele olhar gritando para trás, na fundura do corredor que avançava, e o carcereiro acompanhou com semelhante ânsia até engasgar. O que valia aquela última palavra multiplicada pela profundidade daqueles olhos a dizer? O que pretendia aquele ‘amor’ mencionado ali, onde, estando já à morte, seria só uma palavra? Era mais que isso. Aquela coisa deixada ao ouvido abriu lacunas, tornou o chão um terreno movediço. Se o preso quis posteridade conseguiu; se em sussurro jurou amor, deixou ao carcereiro um corte na respiração, impossibilitado agora de conseguir sossego com o que exigia de si, conhecer-se, uma porção mais pesada que o inteiro. Recebeu na alma aquela vibração sonora, de poucas sílabas, que desmontaria em breve suas moléculas mais resistentes, homem guardador de tristezas e pouca luz. Cavou, pois, fundo, o amor disparado em vez de balas, às vésperas do silêncio todo, do corredor para um nada enorme, nem céu por testemunha, apenas um sangrar. Foi com essa dor a esperança deixada na palavra, a última, com urgência de permanecer, algo que suplica pela segunda chance. Por esse repasse, o morto nunca deixou de estar e de seguir junto; a palavra ao ouvido só silenciou anos depois, juntamente com o homem firme, de armas vencidas, que nunca entendeu o sentido todo daquele disparo, mas abrigou-o em seu ser com memória e zelo, eternizado em sua versão original: ‘amor’.

Ricardo Fabião (Julho - 2010)

Texto para o desafio de Julho - Fábrica de Letras
Tema: "Disparou..."