setembro 22, 2010

Cartas ao dia seguinte


"A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata".
(Virginia Woolf)

O que se sabe é que ela guardou a última lembrança de existir no sótão, para que não desse com o peso de ser nas horas. Foi disso, nessa falta de luz que proliferaram as ausências, todas, e ali, sem dia, sem ar, só mesmo uma desistência de vida caberia. Ela aparecia vivendo assim, muito cedo, na estrada da manhã com a lacuna; por isso entretinha-se com vassouras e ferros de passar, fingindo-se atarefada com as exigências do seu dia. Inventava esse caminho de ter o que fazer até que não mais houvesse o que pensar, e não cansava dessa fuga. Quando depois do sol, escrevia cartas na varanda, para que no papel pudesse tornar-se personagem principal de alguma história. Eram as cartas do dia, importantíssimas, convinham a uma solidão. Escrevia-as com estreitura e desvios  de quem confessa pecados. Antes de deitar, deixava-as sobre o móvel da sala para pensar no dia seguinte que haviam sido destinadas a ela. Abria-as e conseguia sorrir absurdamente com as novidades narradas no papel, algo apreensiva, com ânsia de adolescente. Os parágrafos traziam a notícia feliz de uma dona de casa que, deixada ao mundo pelo marido após trinta anos de costumes e noites de dois, ainda dispunha do dia seguinte para um passo. E como era manhã no mundo assim, corria ao fogão, apressada em pôr panelas no fogo, pois logo haveria crianças a correr na varanda, a saltar por entre os arbustos do jardim, tudo de muito movimento ao meio-dia e vida ao sol. Mentira. Não havia criança para uma instalação de luz de dia diferente. Até o sol era só queda. A casa havia sido deixada ao que cala e seca, aos caminhos sem ida, e ela era mais impasse que mulher; por isso a importância da leitura em voz alta daquelas cartas, para que delas reverberasse um destino diferente, única saída aos ouvidos, já que no olhar não havia algo que vencesse as tristes distâncias do passado. E ela não ia mais que isso, dividida que estava entre os dois destinos possíveis do seu dia: história que não voltava, que não avançava, um ponteiro de relógio quebrado, um mundo sem ir. Somente o tempo, com as chaves de tudo, seguia no mais para lá dos cercados, tomando as curvas de depois muito. Ela fechava as cortinas, não queria luz nem horizonte, que o de qualquer jeito de sua vida era demais pesado para se levar sabendo. Agora, ela e aqueles objetos abandonados eram uma casa no meio do caminho empoeirado, sem filhos para uma aflição, sem par para um café, ninguém passava, nenhum viajante perdido; ali nada batia além da porta entreaberta, perpassada pelos dois ventos sobreviventes, confusos. Nada chegaria ali, nem mesmo com gritos de socorro. Todos haviam esquecido o endereço da dona de casa que trancafiou as possibilidades de ir com a vida após ser deixada sem amor ao próprio passo. Por isso, ao deitar o sol, ela escrevia sempre. E foi assim até o instante em que deixou de ouvir-se, e passou a esquecer-se de ser, mas não morreu quando chegou o dia, preferiu seguir com a solidão. Guardou-se eternamente dentro das missivas, e lá permaneceu ausente de tudo - em cima do móvel da sala. Com a chegada da noite, ela escrevia cartas ao dia seguinte.

Ricardo Fabião (Setembro - 2010)

setembro 19, 2010

Depois do escuro das coisas


Aquela criança era da parte mais oeste que se imaginava quando alguém dizia medo; e era moradora desse lugar que não constava no mapa, que nem mapa havia, nem mesmo desenhista, um quase existir, que não crescia e não diminuía, só havia com seu tamanho entre os quatro limites, e era o começo de tudo. E ninguém ali tinha coragem de aventurar um só pé mais oeste depois disso, porque haviam dito que indo para lá dormia o sol, e deveria ser mais quente que qualquer coisa mais reluzente de se conseguir ver. E por ser o lugar do seu descanso, um ninho aceso no meio das encostas, assim com tanto amarelo, o sol fatalmente sugaria as outras cores para dentro de si. Não cabia nem pensar nesse destino de uma cor só; melhor era ter medo, para ser mais do sossego que reside em não saber. Os habitantes desse receio, por isso, com o oeste do mais assustador de imaginar, gostavam de pintar o sol nas paredes, do modo mais intenso do seu arco diário, temendo que o astro pudesse morrer para sempre de tanto oeste que repetia no passo do céu e ser por isso esquecido. Ali, o sol era a presença maior, e sem esse entendimento não havia seguir. E todos cultivavam esse cuidado só de calcular que o medo pudesse ser maior que a noite, que já levava muito horário com o azul apagado. A menina, no entanto, mais curiosa que a razão de ser do mais oeste do mundo, resolveu seguir o sol para saber onde ele fingia que morria antes do escuro. E correu sem saber e muito, acompanhando o fio da luz caída, que de tanta natureza só sabia o destino inatingível de oeste. E porque era imensa a bola brilhante, assim deveria ser o ninho em que ela deitava a gerar o dia de outras vilas sem luz. Logo a grandeza seria notada. Mas a menina cansou de tanto que não achou sol naquela largura de noite, e dormiu por cima de uns escuros que encontrou no caminho. Até que veio do leste a primeira luz de sempre. E desse lugar alheio, a menina entendeu que todo leste, por mais imaginado que seja, tem um sol de nascença, e todo oeste, por mais lá indo longe de tudo, leva consigo o sol para o seu depois. E ela ficou feliz de perceber assim o sempre das coisas. Enfim, a distância do escuro do céu foi vencida. E foi por saber mais do oeste que a vila soube das horas que chegavam do leste, um ciclo, e que não havia cansaço em repetir-se. Depois, os habitantes marcaram o dia como tempo de viver, e passaram a ser assim, como se fossem livres. E porque ainda era início todos aprenderam. Então o sol passou a ser somente a bola curiosa que dizia os horários, com direito a uma morte de estrela no dia do seu último escuro. O que não se sabe, o caminho mais alheio, onde as luzes oscilam sem horas e datas, permanece dentro do homem, sem solução.

Ricardo Fabião (Setembro - 2010)

Texto para o desafio de Setembro - Fábrica de Letras
Tema: Livre

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