outubro 04, 2009

O empinador de céus


Um verso tecido para registro do sol,
do sal, da imersão da vida em pedra,
do rio sempre sobre gente sendo só...
E tendo de ser sertão, de ver-se são,
segue nisso João entre sons e céus;
se versa um vão, tece um universo...

Basta só que uma palavra sua lance
sobre outra palavra a ponta do fio,
e essa que perceba o jogo avance,
que receba o lance da primeira alcance,
que esticada em verso bata em revoada,
e que lançada possa tal palavra seja,
que deixada em outra mais liberta esteja,
e que repasse o fato itinerante à rede,
e as palavras juntas sejam mil novelos,
e pelos versos rolem de gerar sentidos,
indo a mais palavras para mais lugares,
se lançadas sobre mais destinos possam,
de um tempo ao outro repassar o verbo,
que sentindo lancem ao seguinte a chave
que destrava a porta para sol adiante,
e que mais palavras desnoveladas sejam,
velejando em frases para cais distantes;
que suscitem mundos sobre tais novelos,
e as palavras livres saibam ser milhares;
que armada a tenda caibam mais palavras,
e que todas elas sendo tão das outras,
que carpindo cores, que empinando chaves,
que um sol João sozinho faz um verso,
com palavras soltas de tecer um mundo,
que com suas asas vão vencer vazios...
e que vezes tudo, vezes céu silêncio,
vezes só poema, todo universo.


Ricardo Fabião (Outubro, 2009)

"Tecendo a manhã" foi o meu primeiro contato com a poesia de João Cabral de Melo Neto...
A partir dessa experiência, tornou-se impossível não tê-lo comigo em tudo que eu enxergo e acredito poeticamente.
O poema "O empinador de céus", de minha autoria, dialoga com "Tecendo a manhã"; é de certo modo uma homenagem ao citado poeta.

Tecendo a Manhã
João Cabral de Melo Neto

"Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão".

outubro 03, 2009

Canções do mar



Vídeo do grupo português "Madredeus",
levando adiante o mesmo barco em que navegou Camões,
Eça de Queiroz, Fernando Pessoa... o saudosismo, o mar, a poesia.