dezembro 31, 2009

Espelho cilíndrico


a realidade não pode traduzir
já que os sonhos vezes mil são minhas trilhas
os verbos não conseguem descrever
já que meus desejos mudam com os ventos
as virtudes não sabem legitimar
já que meus desvios têm múltiplas faces
os dias não alcançam decifrar
já que meus passos acendem e apagam no tempo

nem que eu escreva mil poemas
distribua meu desenho em mares de panfletos...
pouco terá alcançado o mais profundo de mim
porque um texto tem intenções demais
porque uma estrofe tem rimas banais
mesmo um poema, nem este é capaz
sobre nós mesmos tudo que se diz é gasto
caminho longo, horizonte vasto...

acima das minhas palavras estão meus olhares
o que eles trazem
além dos meus verbos gritam meus silêncios
o que está na alma
antes dos meus projetos trago minhas mãos
o que elas produzem
sobre meus anseios avançam minhas estradas
o que elas concluem

a meu respeito embora nunca apresentado
o instante calado é tanto quanto sou e vivo
é sobre mim por dentro e fora o real
o mais próximo das mentiras do espelho

dezembro 04, 2009

A agenda


Decidiu que iria ao dentista,
que aprenderia alemão,
que não faria outras dietas,
que teria um animal de estimação,
que veria os filmes da temporada,
que tomaria sorvetes coloridos,
que assistiria ao pôr-do-sol,
que distribuiria perdão aos inimigos,
que pagaria as dívidas,
que faria tudo de corpo inteiro,
que orações suplicaria
para cumprir todos seus planos.

Calculou que a vida é preciosa,
percebeu que há sempre uma saída,
que com outro olhar se vê outro mundo,
resolveu que retomaria velhos amigos,
revisitaria livros já lidos,
concluiu que tomaria outra estrada,
vislumbrou uma nova chance,
relembrou conselhos e carinhos,
pensou noites de música e festa,
imaginou beijos, abraços e crianças,
agendou tardes de sol para décadas
decidiu que viveria, se pudesse...

Mas não havia tempo
nem possibilidade de retorno,
logo mais viria o choque quadrado do chão,
um corpo vezes altura vezes velocidade...
então tudo seria desfeito, todas as datas.
Findaria o instante dos nove andares
sobre o silêncio caído, esquecido;
permaneceria uma incerteza de gente,
em lá e cá de desenho torto, contorcido,
nem mesmo um sonho inteiro para resgate.

Ali tudo calado em azul que se colheu caindo;
amores e amigos, braços e pernas misturados,
deixados ao apetite voraz do tempo,
ao lado do branco da agenda não cumprida.

Ricardo Fabião (Dezembro, 2009)

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