julho 27, 2009

Limite

num gesto desesperado
retirou da bolsa a última palavra
lançou-a contra as cercas da própria alma
...
escaparam dois gritos e um poema

Ricardo Fabião (Março, 2009)

A imagem acima foi extraída do endereço:
http://humorgrafe.blogspot.com
Chama-se "A fuga"; seu autor é Agim Sulaj

julho 26, 2009

Verso e prosa (música)


Músicas
dezenas de outras músicas
eu cantaria pra você
versos
milhares de palavras
em verso e prosa pra dizer
que tudo é tão incerto
amigos sempre perto
fica mais fácil
nascendo e morrendo,
nosso amor crescendo mágico
místico raiar do sol
pai da luz que brilha em você
natural
amor demais
um leva-e-traz de dor eterno
e nada pode desfazer
se tudo é complicado
amigos lado a lado
fica mais fácil
nascendo e morrendo
nosso amor crescendo
e isso não passará...

Nem que cessassem todos os telefonemas
e esquecêssemos todos os poemas
ficassem mudos todos os fonemas
mesmo que não fôssemos ao cinema
e se amar também não mais valesse a pena
ainda assim haveria um jeito
de expressar o meu carinho por você

Ricardo Fabião (1997)

"Música ao sol" é o título da imagem
utilizada acima, de minha autoria.

julho 25, 2009

Coisificação (conto)


Em certas ocasiões ter poucas conexões com o mundo pode ser algo satisfatório; primeiro não há quem direcione os passos, ou ainda quem ponha cercas ou censuras aos ímpetos e estalos do sujeito. Viver desancorado deve render alguns imprevistos; em qualquer lugar o fulano baixa, quando se quer vai, quando se desiste não se dá satisfação. Segundo, goza-se de liberdade para fixar preços, para negociar a própria alma da maneira mais compensatória e ir até o fim com isso. Era o que calculava Sidney, tentando justificar a escuridão na qual se metera. Logo estaria encarcerado, dividindo os dias com gente de pouca esperança, enfim, pegou a rua reservada para seu destino. De fato, a vida oferecera-lhe um emaranhado de relações complicadas desde o nascimento: pai e bebida, mãe e adultério, irmãos e abandono, daí não demorou até que o determinismo o nocauteasse; quando se levantou recolheu para o resto de vida apenas o que lhe parecia identidade.
Com esse olhar de menos, Sidney aprendeu o mundo: evitando o lado mais ao sol das coisas; preferia meter-se desconfiança adentro e calcular os cifrões que poderia extrair das pessoas e das situações. A quantia almejada, no entanto, não chegava. Não era falta de prática, já que desde a adolescência andava de planejar seus passos, de contabilizar apertos de mão, talvez procurasse em lugares indevidos, falta de sorte, destino. Havia dispensado a possibilidade de amigos e emoções, o que valiam? Sua meta era algo seco, buscar no futuro o que faltara no passado, por isso equacionou pessoas, atitudes e até uma educação básica, que concluiu graças aos sofisticados métodos de cola e algumas doses de ‘persuasão física’.
A partir disso, pensou, algo acenderia no caminho, mas como desconstruir sua relação com a escuridão? Foi calculando um pouco de luz que concorreu a uma vaga de auxiliar de necrópsia do Instituto Médico Legal. Para isso optou por um certo gabarito negociado, valor pago boa parte com alguns instantes de corpo ― o vendedor das provas propôs, gostava de homens infelizes, que sorriem pouco e que não recuam diante do combinado ― Sidney aceitou, cumpriu o trato e passou no concurso. Deu entrada naquilo que julgava ser destino diferente: dinheiro obtido com trabalho. E apostou noites e madrugadas nisso.
Entretanto, luz é força que evita encontros demorados com Sidney. Depois de quatro meses de relação intermitente era natural diminuir a intensidade, às vezes apagada, noutras acesa, até escurecer de vez. Era madrugada. Ele fumava escorado na distração de uma pilastra quando um corpo foi levado para a sala de autópsia. Rapaz, finalmente uma celebridade baixou aqui, venha ver, Sidney. Deixa o presunto em cima da mesa, neste momento ele vale tanto quanto um rato de esgoto. Não vou jogar metade do cigarro fora por um defunto, nem que seja famoso. Aproximou-se do corpo. Vamos ver de quem se trata. Sidney abriu o saco plástico, ora, quanta honra, é brilho demais para um fim de noite.
A surpresa era Cyro Power, estrela internacional do boxe, cinco milhões por luta, esquerda mais ágil da temporada, músculos de ferro, tudo agora deixado sobre a frieza do alumínio, indefeso, posando alheiamente para as últimas fotografias, de tristeza e inchaço conferidos, anotados no caderninho do auxiliar de necrópsia, você nem imagina como a direita do legista é rápida, campeão. Terminamos as fotos e as anotações, agora o banho.
Instantes depois, sozinho, diante do corpo do famoso pugilista, a duas horas da chegada do doutor, Sidney liberava seus pensamentos: quanto vale uma esquerda de boxeador famoso? Como fica minha vida se eu partir para coisa diferente? Poderia vender o homem inteiro, há colecionador para tudo, conheço um atravessador para repasse dos produtos, é sujeito que desconhece compaixão. Poderia fazer dinheiro com o pênis, com os pés, até com a direita acanhada do lutador. E o resto? O que faria com o resto? Ele é muito pesado, não poderia carregá-lo nas costas, não tenho carro, fugiria como? Chegaria até a rodoviária? Tive uma ideia, que ideia, rapaz? O médico chegou mais cedo, vamos trabalhar? Estava admirando o boxeador? Era dos melhores, não? Sim. Então bisturi aqui, agulha ali, linha, torneira, água, porém, num desvio de olhar do legista, ele puxou algo e jogou embaixo da mesa de autópsia, eu costuro, doutor, tudo bem, vou tomar água, já volto, Sidney conferiu o que havia jogado, meninges? Mas sendo de gente famosa elas devem ser valiosas, pronto, tudo limpo, você trabalhou bem, suas mãos são muito ágeis, daria um bom legista, obrigado, doutor, até mais, agora a gaveta gelada, adeus, Cyro.
Fora do instituto, ele ligou para o atravessador, tenho algo do boxeador famoso. Do Cyro Power? Venha agora, vamos fazer negócio, chego já. No caminho, ele relembrava a cena na sala de autópsia. Será que o doutor viu quando peguei as meninges? Pode ter disfarçado para evitar um confronto comigo; faria a denúncia depois. Creio que não, até me elogiou pelo trabalho, o doutor é muito amável, se tivesse visto teria me chamado e dito algo, agora é tarde, após a curva chegarei à casa do negociante. Pronto, agora eu bato. Entre, mostre-me. Membranas? Ninguém vai querer pagar por esse troço, pensei que traria a esquerda do campeão. Não faça isso comigo, arrisquei meu emprego por isto. Nada feito, rapaz, porém estou curioso, como conseguiu driblar as câmeras da sala? Câmeras? Não sabia que havia câmeras na sala. Não sabia? Você é de que mundo? Claro que há, agora saia e leve essas membranas com você; com sorte, conseguirá no caminho um cachorro que dê um jeito nelas, outra coisa, você tem sangue até nas sobrancelhas, mude ao menos a blusa para evitar suspeitas. Tem muito que aprender, não passa de um amador. Sou mesmo, mas pode ficar com isto, eu termino aqui.
O negociante pegou as membranas deixadas no chão, cheirou-as, examinou-as detalhadamente, meninges de Cyro Power devem valer uns duzentos. Foi o que conseguiu telefonando, enquanto Sidney era um resto de vida esquecida no ponto de ônibus. O celular tocou. O médico. Decidiu enfrentar. Sim, eu mesmo, como? As meninges do boxeador? Quem faria isso? E as câmeras registraram algo? Desligadas há dois meses? Sidney suspirou aliviado, que sorte, pela primeira vez. Enfim, a vida começou a pagar o que me deve. Isso mesmo, rapaz, minha preocupação é porque elas estavam muito infectadas, Cyro contraiu uma meningite rara e letal, de alto contágio, não devem ser tocadas, liguei para isso, fique tranquilo, sei que não foi você, obrigado, doutor.
Depois disso, a manhã prosseguiu com três sorrisos: o de Sidney, o do médico e o do atravessador.

Ricardo Fabião (Julho, 2009)

julho 19, 2009

Caminhos (poema)



Palavras nem sempre explicam o que escrevem
às vezes lemos uma para decifrarmos outra
há sim que diz que não,
partir que mais chegar indica,
caminho dividido em quase trilha
cada qual palavra lume diferente
guiando leitores além do olhar

Palavras nem sempre são palavras
às vezes são armadilhas,
buracos enormes,
são homens, crianças, cidades inteiras...
quem tiver uma palavra
entenda o rumo de seus trajes,
contemple suas nuances,
deixe-a respirar,
estar uma coisa e outra,
de morrer e de renascer
no mesmo sendo.

(Abril, 2009)

julho 17, 2009

12 de Junho (letra de música)


As canções de amor só querem dizer
muitas vezes o que eu não falo
se me sento a escutar você falar
ouça um tanto do que eu calo
sei falar dos problemas que não são meus
da bagunça da nossa sala
mas eu trago um silêncio maior que eu
o que eu sinto é o que me cala
amor que suprime a fala

eu quero gritar, expressar, explicar
muito mais apostar...
que a gente vai dar certo,
a gente já deu certo,
a gente está tão perto,
cada vez mais perto,
cada vez mais

eu pensei que amar fosse avançar demais
muito além do que eu poderia
aprendi com você o amor que estava em mim
e a dizer o que eu não dizia
as canções têm palavras que nunca usei
é por amar e calar que eu canto
e se não for pra cantar um dia sim direi
e se for pra sentir um tanto
e se for por amar muito

muitas vezes deixei dentro do violão
encolher o meu sentimento
hoje eu quero dizer eu amo você
deixar solto aos quatro ventos
o que antes morria dentro

Para Danielle, minha esposa.

Ricardo Fabião (Junho, 2005)

Geração (poema)



algo consta no vão das contas,
de todas, por conta do que levam às outras
um traçado adiante, o encaixe do tempo, uma,
posta num ponto em que depois dela,
uma antes dita vem repetida para novo dizer
e torna-se nova de multiplicadas idas,
para dizer outros tipos de contas,
sob os olhares que buscam pares no fio
da eternidade, de conta após conta,
para, formando o painel, no tempo
revelar-se um todo.
Assim algo de uma soma-se a outras
sobre a mesma linha novo desenho,
deixando o código para ser de muitas
contas que o futuro terá como um agora.
Uma que estando para outra ocorrida,
uma para semente do devir e de vinda,
cada qual de cerzir sua cara no tempo,
selada para servir a futuros encaixes,
contas múltiplas, semelhantes, opostas,
descritas no círculo do sempre,
sendo pois da última aquela que inicia
conta com conta com conta: colar.

Para João, em algum lugar.

Ricardo Fabião (Julho, 2009)

julho 09, 2009

Quadrado imperfeito (poema)

Há na palavra torta do texto
Dez portas de outras palavras
Quase mortas de quem vê-las
Quase vivas de não sê-las
Tão palavras de si mesmas
Mesmo soma de outros cantos
Vezes tantos de olhos prontos
Quando cruzam de outras montas
Buscam noutras frases pontos
Dentro textos que se partem
No afora de uma sorte
Como aporte de um agora
Indo mais palavras fora
De encaixar palavras dentro
Vão colher dez vãos de porta
Noutras partes vãs do quase
Tomar grãos de mais palavras
Sobre cortes de outra ponta
Sempre tontos de outras partes
Para que se faça o todo
De outros vãos de uma palavra
E não ser apenas uma
Ser estrada para muitas
Tudo porto de outras fontes
Não ser tudo de estar tanta
Nem viver palavra só

Ricardo Fabião (Julho, 2009)



Após publicar o poema, saí pela net
em busca de outros "quadrados imperfeitos"
e achei interessante este que está acima.
Chama-se "Quadrado imperfeito", e foi extraída da página:
http://www.flickr.com/photos/bandeirolascarioca/727996854/

Cópia da cópia (crônica)

O brasileiro gosta de copiar, todos sabem disso. Há muitos séculos que executamos com muita propriedade essa prática. E quando digo ‘propriedade’ não quero dizer que isso nos torna ases na arte da imitação. Não. Na verdade, minha intenção é afirmar exatamente o contrário, pois sendo a cópia uma atividade destituída de criatividade, ter propriedade para realizá-la ininterruptamente é atestar no mínimo falta de identidade. Reformulemos então a primeira frase do texto: brasileiro gosta de copiar, mas não sabe. Isso é ruim?
Platão dizia que o artista imitava as coisas dos homens, estes por sua vez, já eram uma imitação imperfeita dos deuses. Para o filósofo, esse tipo de atitude não servia aos verdadeiros interesses da República. Desse modo, o artista tornava-se imitador da imitação. E nós? Como Platão classificaria o povo brasileiro? Imitadores da imitação da imitação? Deu para entender?
Já copiamos os americanos, os japoneses, os ingleses, os franceses, os chineses, os marroquinos, e agora, diretamente dos estúdios da Rede Globo, os indianos. A cópia convence? Não. Afinal, a cultura indiana levou milênios para ser o que é. O brasileiro queria aprender tudo em cem capítulos de uma novela? Nada contra a narrativa de Glória Perez, nem mesmo contra os atores ou a emissora de televisão; ora, estão fazendo seu trabalho. E os telespectadores? Já sei, estão fazendo seu trabalho: copiando.
Todavia, algo neste processo é bastante louvável. Embora nosso povo seja uma esponja cultural, ele costuma copiar aquilo que lhe é conveniente. Um bom exemplo disso é que as meninas que agora dançam como se fossem indianas nos shoppings e colégios brasileiros não deixam de namorar quando bem querem, nem de escolherem seus pretendentes. Em miúdos, elas não copiam a subserviência daquelas mulheres aos homens, nem mesmo ousariam permitir que seus pais lhes arranjassem o marido. ‘Nem pensar. Isso é coisa da Índia, que fique por lá, onde já se viu?’ Os copiadores daqui revelam que sabem o que copiar. Se fôssemos excelentes copiadores, daqueles que incorporam todos os elementos do objeto copiado, teríamos sérios problemas sociais. Ainda bem que a coisa fica na cópia mal feita.
Não considero certo, não considero errado, somos brasileiros. Gente que aprendeu desde sempre a aceitar e a conviver com as coisas que vinham de fora. Sempre foram as melhores. Até o idioma estrangeiro que chegava dos navios tinha mais charme de ser pronunciado: cherrie, roast-beef, beautiful, chique, não? Afinal a palavra local era gasta no cotidiano, desvalorizava, e o brasileiro é inquieto, gosta do novo, do que sai quentinho do forno, da novidade. Triste constatação? Por quê? Quando imitamos, estamos aumentando nossa capacidade de driblar os problemas, não de esquecê-los, mas de melhor suportá-los. Será?
Se a vida é um grande teatro, surgem com a cópia novas oportunidades de trajes, de gestos e de falas. Estaremos sempre no meio do palco, vivendo um papel que não é nosso, gritando coisas que não estão em nossas almas, afinal estamos imitando a imitação da imitação. Alguém já cantou ‘sorri, vais fingindo a tua dor... e ao notar que tu sorris, todo mundo irá supor que és feliz’, talvez o disfarce funcione. Entender a vida dá um trabalho danado, e a fantasia é tão envolvente, tem uma musiquinha por trás, em algum canto...
Então terminarei o texto mudando minha intenção inicial: copiem, imitem, vistam personagens de outras culturas, dos confins da Sibéria, esqueçam essa história de identidade, mesmo que a cópia seja imperfeita. Parem de ler. Vão ver a televisão: virão ainda muitas novelas, estrearão outros filmes, tocarão novas músicas, aparecerão artistas mais interessantes, celebridades mais chocantes, agora digitem control C, depois control V, aguardem até que tudo seja copiado para suas mentes. Está feito. Reproduzam.

Ricardo Fabião (Maio, 2009)

julho 08, 2009

Vertigem (conto)


Saí de casa. Alcancei o jardim. Há um verão enorme aqui. Intenso, sem nuvens no céu. Sempre gostei deste azul, da forma como ele se espalha por entre os edifícios, a dançar diante das minhas narinas, das imagens que borda em minha alma, de como circula os viadutos, as pontes, coisas que fazem voltas, que brincam com meus olhos, lembranças de qualquer coisa. Aqui tudo acordou sob luz demais, agulha para meu olhos, ainda estou de noite alta, sentindo frio, cambaleando como um bêbado. Mas falava do azul, cor de fundo das coisas. Às vezes ele é um ponto pequeno, enquanto repousa na superfície dos objetos, noutras, ele é o mundo todo, invadindo discretamente as outras cores. Mas não sei bem como é ser azul, só sinto sua presença. No outro extremo está o vermelho, que é um ciclone nos meus pensamentos, via que dá noutra sorte; tem cheiro de ferrugem e desce por uma boca enorme, pinga sobre a calçada e faz bochechos com os meus passos. Vermelho me dá náuseas, sobretudo, agora, que sinto suas garras tatuando minha pele com dezenas de traços góticos, sinuosos, assustadores, transformando-me em homem encarnado, pintado com o que me escapa, quantos litros me restam? Minha vida até aqui foi assustadoramente vermelha. Não sei exatamente as tramas do vermelho, mas algo dói me matando, estou confuso. Por isso quis ver o jardim, para imprimir a marca dos meus últimos pés na grama, e gastar um tanto de olhar no desenho desajeitado das trepadeiras, como sobem, para onde vão assim? Aqui nada me cansa. Quando um dia eu cair, que seja perto das plantas, das petúnias, das orquídeas, murchar ao lado delas, de boca aberta, para que me escape a alma e perfure suas raízes, e reapareça juntamente com a leva de flores. Aqui eu consigo arrumar as cores harmoniosamente. Vermelho fica bem de verde, lilás combina com amarelo, azul espalha-se sobre as outras, já disse. Não lembro. Disse? No vão da minha vida a relação entre cores e coisas sempre deu em cinza absoluto. É de onde trago o tom nublado do sorriso e as curvas que evitam sol. Um dia houve uma possibilidade de desvio, uma muda de alegria que recebi de um amigo, mas tão vegetal era que algo deu errado no cultivo, não reguei adequadamente, não sei, sequei, secou, estou secando. Cheguei até aqui economizando um não sei quê de vida, mantendo minha ansiedade em compotas, fugi dela, brinquei pouco, respeitei regras demais, cedi espaços além do que deveria para receber tapinhas nas costas, bom rapaz. Então não sofri de amor, já tinha a vida para isso, não quis, não soube, vou cair junto com o mundo, onde estão meus passos? Casei-me cedo. Estava nos projetos, não sei. Havia dinheiro e idade nos vinte e dois, mas não havia quem me amasse, por que não pensar em outras coisas? No momento em que devo lembrar os melhores dias, só me aparecem os piores? Chegamos ao altar, eu, a educação, o mundo e minha família. Assim foi que aprendi rapidamente o casamento, suas regras de renúncia, sabia as lições, viver sempre fora de menos, sofrera, eu era um círculo, a família um retângulo, nunca me encaixei em abraço de mãe, em sorriso de pai, sobrava ali, faltava aqui, rolava, esposa para os dias de dinheiro, solidão para os dias de desejo. Agora, cansado dessas voltas, preciso de ar, já deixei o quadrado da sala, a monotonia do quarto, há um traço torto no polígono previsível da minha semana, peguei de atalho um dia difícil, onde termina? Acordei mais vermelho que o branco pesado do lençol. Não me dói tanto a carne, mas a vida latejando. Onde está o ar da manhã que tanto ar tem? Talvez me reste aventurar na incerteza das ruas, cumprimentar desconhecidos, pisar na lama deixada de lado, dar adeus para aviões distantes, outra hora, por enquanto um pouco de brisa me basta, o jardim e as cores, o andar vagaroso dos meus olhos. Devo cair discretamente encolhido, não fica bem deixado, aberto de qualquer jeito, permanecer distraído sobre as coisas, deitado só de pele, ainda que na manchete sem vida do dia seguinte, virando comida de curiosos, detalhes do último suspiro, fotografia colorida dizendo que segredos são feios ao sol, atirando contra o leitor a cara triste de quem esfria, riscada, vermelha, que me cubra a folhagem dos arbustos. Não faz diferença, não há tempo para cores, onde estão? Saí de casa querendo ar, mas o ar não vem, e as coisas continuam girando, estou murchando. Olho para trás, a varanda é um rabisco de criança, que apaga, que acende, não enxergo os traços amarelos, não tenho olhos para tanta luz, nem força, nem oxigênio, meu pulmão é um balão furado, rodopio, deslizo no jardim, a gritar sem som, a implorar, sem nada, buscando saída no ziguezague dos meus passos, tropeço nos sentidos, no sonho, na realidade, divago e volto, ainda é lá fora, e tudo é real. Dizem que o cérebro não aguenta dez minutos tentando um grão de ar, quanto passou? Vejo o triste homem refletido no vidro da porta. Quem é ele? Tem as minhas roupas. Será que sofre menos por ser reflexo? E pulmão furado tem conserto? Remenda? Cola com pele? Duas mãos que não chegam onde puxar uma faca, dá trabalho, é como coceira quando não se coça. E o oxigênio que não atende, como cessa isso? E as roseiras? Não há mais quem cuide delas. Roseiras? Não há roseiras aqui, só um cheiro insustentavelmente vermelho, mas é melhor pensar em coisas importantes, que o tempo está vazando, algo como pássaros, livres, inocentes... não há mais força, o motor estanca, apaga-se o azul, o vermelho, pronto, tombo sobre as mudas de margaridas, enquanto me fitam espécies que nunca soube classificar, inquisidoras, abrindo espaço para meu destino, talvez haja tempo para um divórcio, não, agora o cheiro de terra tenta o último contato com o cérebro, não há resposta, os fios se partem, a música começa em algum canto, não ouço. Meus olhos congelam a janela do quarto, a transparência discreta da cortina, a mulher, as luvas e o quase sorriso, silêncio.

Ricardo Fabião (setembro de 2006)

julho 06, 2009

Andréa Dória (crônica)


Começaria, se pudesse, usando uma linguagem diferente, mas “quais são as palavras que nunca são ditas?“ Para Renato Russo tudo era questionável. Coisas de quem não veio ao mundo por acaso. O fato de ter ficado em casa esperando a porta se abrir para uma nova etapa, também deve tê-lo feito pensar, filosofar, compor mais uma vez, sim, havia menos sangue em suas veias, mas de poesia ele certamente estava repleto, e estará sempre. Sua passagem pela terra, suas dores, seus prazeres foram degraus para o seu crescimento. Disso o poeta sabia. Pouca gente entendia... Febre. Mais uma delas - era assim que eu via, era como eu sentia. No início houve uma certa resistência da minha parte. Não queria acreditar que o roqueiro sabia realmente dizer as coisas. Deparei com uma legião de fãs dançando daquela maneira estranha, e deduzi que a música “somente” completava o ritual. Puro modismo - eu dizia. Naqueles anos de rock brasileiro era comum uma certa alienação. Errei. Pessoas menos mesquinhas acordaram antes de mim, e não sei se por imposição da época ou não, enxergaram Renato. Quem o alcançava, por ele se apaixonava. Leila Pinheiro abriu os meus olhos - por que não dizer todos os meus sentidos? - para o compositor. Aprendi com “Tempo Perdido” a “lembrar e a esquecer como foi o dia antes de dormir”. E segui com essa lição, já me sentindo mais urbano, como o restante da legião. Léo Jaime, sempre muito irreverente, conseguiu me surpreender com a interpretação de “Índios”. Acompanhado de violinos, trouxe “de volta todo o ouro” daquela obra. A gravação mais nítida que a do próprio autor, pôde me traduzir um pouco do que era capaz aquele moço “tímido e complicado”, como alguns disseram. A grandeza de sua alma (o “complicado”, talvez, seja-nos entender essa particularidade) se chocava com a pequenez que guia a maioria das pessoas. De tão sensível que era, conseguia se irritar com o mundo, e gritava e berrava. Apelava mesmo, “quase sem querer”. Renato Russo tinha olhos para o mundo. Ele não era daqui com certeza, nem do planalto central nem do Rio de janeiro. Sua voz invadia o nosso corpo em idioma universal. O brasileiro que se comunicou e entendeu o poeta, certamente usou uma linguagem silenciosa, de alma para alma. Nu, como esteve sempre, ele aguardava o instante em que “acaso lhe estendesse os braços, com abrigo e proteção”, mas ele “cansou de bater, e ninguém abriu”. Saiu de fininho, silenciosamente, tão sutilmente que a madrugada carioca nem percebeu. A notícia rompeu a manhã. Bem cedo já havia música de Renato Russo nas emissoras de rádio e televisão. Não vi grandes homenagens em seu nome. Não lhe deram um horário inteiro na Globo. Não tinha corpo de bombeiro levando corpo de roqueiro. O adeus foi discreto. Melhor assim. A paz de espírito que ele tanto buscava não combinava com esse tipo de sensacionalismo. “Mudaram as estações” - disse uma amiga sua de infância na televisão, a frase seguinte da música é muito bem colocada, e todos cantam insatisfeitos: “nada mudou...” É, ele sempre soube que nada era para sempre, porém o vazio em nosso peito idealista: uma verdade a menos neste planeta desgovernado. A minha ligação com Renato Russo é extra. Não me assusta o fato de vê-lo morto hoje, mas a tristeza de não ter trocado duas palavras com ele nesta. Não foram cinco de suas músicas nem um caderninho repleto de frases ditas e cantadas por ele. O elo entre nós não surgiu nos ginásios nem nos discos, é algo pulsando naqueles que acordam para a diferença - assim seria o nosso encontro - conversaríamos sobre a vida. A música da qual nos alimentamos, seria apenas uma lacuna. Em nosso sentimento de quem busca e acredita, a verdade é o que realmente soma. É isso. Quando o sol bate “na janela do quarto” temos a certeza, como ele, de que não somos apenas daqui. Provavelmente escravos servindo “a quem vence, o vencedor... só o amor conhece o que é verdade”. Paulo escreveu e pregou, e o país repetiu e aprendeu a melodia - era um grupo de rock falando de amor num ponto qualquer do dial. Amor mesmo! A legião de fãs, urbana e rural, achou diferente, mas cantou. “Quem me dera, ao menos uma vez, a mais bela tribo, com os mais belos índios... não ser atacada por ser inocente”. Renato, eu sei que a sua dor não provinha de doenças. A maldade do mundo, sim, isso lhe perseguia, e sua imunidade não resistiu. “Vamos dar um tempo, um dia a gente se vê...” Quem realmente escutou e entendeu o seu brado aqui na terra, sabe que mesmo sendo especial como foi a sua, a vida é uma simples passagem. Um parágrafo a mais no livro da eternidade. Rapaz, a saudade é inevitável. Saudade mesmo! Agora quero ouvir na sua voz, aquela canção bonita “de quem deixou a segurança do seu mundo por amor...”

Ricardo Fabião (outubro/1996)

(Esta crônica foi publicada no Jornal ‘A UNIÃO’ dias após a morte de Renato Russo)