julho 06, 2009

Andréa Dória (crônica)


Começaria, se pudesse, usando uma linguagem diferente, mas “quais são as palavras que nunca são ditas?“ Para Renato Russo tudo era questionável. Coisas de quem não veio ao mundo por acaso. O fato de ter ficado em casa esperando a porta se abrir para uma nova etapa, também deve tê-lo feito pensar, filosofar, compor mais uma vez, sim, havia menos sangue em suas veias, mas de poesia ele certamente estava repleto, e estará sempre. Sua passagem pela terra, suas dores, seus prazeres foram degraus para o seu crescimento. Disso o poeta sabia. Pouca gente entendia... Febre. Mais uma delas - era assim que eu via, era como eu sentia. No início houve uma certa resistência da minha parte. Não queria acreditar que o roqueiro sabia realmente dizer as coisas. Deparei com uma legião de fãs dançando daquela maneira estranha, e deduzi que a música “somente” completava o ritual. Puro modismo - eu dizia. Naqueles anos de rock brasileiro era comum uma certa alienação. Errei. Pessoas menos mesquinhas acordaram antes de mim, e não sei se por imposição da época ou não, enxergaram Renato. Quem o alcançava, por ele se apaixonava. Leila Pinheiro abriu os meus olhos - por que não dizer todos os meus sentidos? - para o compositor. Aprendi com “Tempo Perdido” a “lembrar e a esquecer como foi o dia antes de dormir”. E segui com essa lição, já me sentindo mais urbano, como o restante da legião. Léo Jaime, sempre muito irreverente, conseguiu me surpreender com a interpretação de “Índios”. Acompanhado de violinos, trouxe “de volta todo o ouro” daquela obra. A gravação mais nítida que a do próprio autor, pôde me traduzir um pouco do que era capaz aquele moço “tímido e complicado”, como alguns disseram. A grandeza de sua alma (o “complicado”, talvez, seja-nos entender essa particularidade) se chocava com a pequenez que guia a maioria das pessoas. De tão sensível que era, conseguia se irritar com o mundo, e gritava e berrava. Apelava mesmo, “quase sem querer”. Renato Russo tinha olhos para o mundo. Ele não era daqui com certeza, nem do planalto central nem do Rio de janeiro. Sua voz invadia o nosso corpo em idioma universal. O brasileiro que se comunicou e entendeu o poeta, certamente usou uma linguagem silenciosa, de alma para alma. Nu, como esteve sempre, ele aguardava o instante em que “acaso lhe estendesse os braços, com abrigo e proteção”, mas ele “cansou de bater, e ninguém abriu”. Saiu de fininho, silenciosamente, tão sutilmente que a madrugada carioca nem percebeu. A notícia rompeu a manhã. Bem cedo já havia música de Renato Russo nas emissoras de rádio e televisão. Não vi grandes homenagens em seu nome. Não lhe deram um horário inteiro na Globo. Não tinha corpo de bombeiro levando corpo de roqueiro. O adeus foi discreto. Melhor assim. A paz de espírito que ele tanto buscava não combinava com esse tipo de sensacionalismo. “Mudaram as estações” - disse uma amiga sua de infância na televisão, a frase seguinte da música é muito bem colocada, e todos cantam insatisfeitos: “nada mudou...” É, ele sempre soube que nada era para sempre, porém o vazio em nosso peito idealista: uma verdade a menos neste planeta desgovernado. A minha ligação com Renato Russo é extra. Não me assusta o fato de vê-lo morto hoje, mas a tristeza de não ter trocado duas palavras com ele nesta. Não foram cinco de suas músicas nem um caderninho repleto de frases ditas e cantadas por ele. O elo entre nós não surgiu nos ginásios nem nos discos, é algo pulsando naqueles que acordam para a diferença - assim seria o nosso encontro - conversaríamos sobre a vida. A música da qual nos alimentamos, seria apenas uma lacuna. Em nosso sentimento de quem busca e acredita, a verdade é o que realmente soma. É isso. Quando o sol bate “na janela do quarto” temos a certeza, como ele, de que não somos apenas daqui. Provavelmente escravos servindo “a quem vence, o vencedor... só o amor conhece o que é verdade”. Paulo escreveu e pregou, e o país repetiu e aprendeu a melodia - era um grupo de rock falando de amor num ponto qualquer do dial. Amor mesmo! A legião de fãs, urbana e rural, achou diferente, mas cantou. “Quem me dera, ao menos uma vez, a mais bela tribo, com os mais belos índios... não ser atacada por ser inocente”. Renato, eu sei que a sua dor não provinha de doenças. A maldade do mundo, sim, isso lhe perseguia, e sua imunidade não resistiu. “Vamos dar um tempo, um dia a gente se vê...” Quem realmente escutou e entendeu o seu brado aqui na terra, sabe que mesmo sendo especial como foi a sua, a vida é uma simples passagem. Um parágrafo a mais no livro da eternidade. Rapaz, a saudade é inevitável. Saudade mesmo! Agora quero ouvir na sua voz, aquela canção bonita “de quem deixou a segurança do seu mundo por amor...”

Ricardo Fabião (outubro/1996)

(Esta crônica foi publicada no Jornal ‘A UNIÃO’ dias após a morte de Renato Russo)

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