abril 30, 2010

O desvio

        
         Eles eram milhares, uns sobre os outros, justapostos pela falta de crença em dias a mais, em manhãs para um depois. De longe percebi como era pesado aquele escuro dentro dos seus olhos. As ruas estavam tomadas de desespero, os sorrisos tomados, as possibilidades... 
        Passei calado com uma poesia escondida sob a pele, lentamente para que ela não acordasse ali. Eles me viram mas não sabiam meu desvio. Não puderam entender que guardo mundos, que arrisco minhas noites em rima e verso. Isso é muita estrada para o nada que carregam por dentro. Tomei a primeira esquina e saí...     
        Adiante, retirei do bolso uma luz já meio apagada e colei-a no céu para virar lua acesa. Ficou metade viva apenas, amarrotada de tanto esquecimento, mas era ainda uma lua que se via. - Pronto, a humanidade tem meia luz para uma chance. Do outro bolso puxei um velho sonho e o deitei em algum lugar. Dormi dentro dele e apaguei as chaves que retornavam... mas lá fora deixei a lua para guiar outro desvio.

Ricardo Fabião (Abril - 2010)

abril 25, 2010

O primeiro desenho



O céu é de tão alto para muito mais
O sol é de tão intenso para mais luz
O céu gasta vãos com aviões e fumaça
O sol brinca de apagando e acendendo
O céu apanhou todos os azuis para ser
O sol engoliu luminárias e ficou aceso
O céu é pai das nuvens e das distâncias
O sol alimenta as manhãs e as estradas
O céu tem as paredes e os corredores
O sol está no abajur em cima do alto
O céu vai a todo lugar sem mexer o pé
O sol aquece tudo cá sem adormecer

O céu sobrevoa os desenhos do mundo
O sol vai mais baixo para pintar os dias
O céu gasta todo tempo sendo um vazio
O sol junta tudo e transforma em cores
O céu é de subir cada vez mais assim
O sol é de descer para encontrar chão
O céu tem tanta idade que nunca anda
O sol só vale o tempo de sua claridade
O céu não faz por esperar que aconteça
O sol descreve compromissos e horários
O céu é um arco por cima das cabeças
O sol é um fogo por dentro de tudo

O céu só há por haver sol
O sol por vagar nesse céu
O céu vai mais fora que as estrelas
O sol vem mais dentro que as células
Céu que por fora corpo
Sol que por dentro alma

Ricardo Fabião (Abril - 2010)

abril 22, 2010

A fechadura



Havia o estranho homem que morava lá embaixo, onde dá embrulhos no estômago imaginar como é alcançar o fundo. Quando este chegava mais longe olhando para cima era hora de parar, pois olhar muito alto doía de imaginar quão longe ia aquela altura, e também porque não cabia em seu oco de desfiladeiro conceber um sol mais perto da cabeça, um céu ao alcance da mão. A gente do alto, para aquele morador da profundeza, tinha que andar agachada para não dar com o chapéu nas nuvens. Melhor pois era caminhar resistente sobre um chão de terra deitada mesmo, que tem segurança para o passo. Viver em chão lá de cima deveria afundar de vez em quando, estando tudo por cair e derramar-se pelos cantos, e disso morrer gente por cima de gente. Ficar ali, na barriga do abismo era como o homem de baixo enxergava a altura certa de viver.

Muito lá em cima, porém, onde um dos lados do desfiladeiro sobe apressadamente para completar o seu gigantesco “U”, morava o estranho homem do alto. Este calculava que de tão fundo era olhar descendo aquele tamanho, que imaginava no pé da encosta o inferno, o fim das coisas concebidas de viver. Calculava que naquele fundo tudo estaria morto; haveria uma placa indicando ‘não há mais depois disso’. Para ele, solo seguro é o do meio, que fica entre o céu – que ninguém alcança, e o mundo lá de baixo – onde quem cai morre. Esse buraco assustador teria que permanecer inatingível, com léguas e léguas de olhar para dentro, isento de luz cheia. Viver embaixo seria igualar-se aos vegetais, aos seres que rastejam para conseguir comida, àquilo que cai sobre o chão por ramos sem medir consequência e conforto. Não há como ter entendimento de gente.

Esses dois estranhos não se encontravam, não dividiam olhares. Habitavam lados antagônicos do mesmo medo. Então não havia abismo. Havia um desenho feito por vento, água e tempo, e tudo muito de verde e azul sobre. E havia aqueles que viviam segundo suas necessidades, os de baixo, os de cima. Gente essa que não precisa de desfiladeiros, já que possui por maior distância e vazio o medo de avançar e aceitar lógica que foge ao seu passo. Eis o verdadeiro abismo da humanidade.

Ricardo Fabião (Abril - 2010)

Texto para o desafio de Abril - Fábrica de Letras
Tema: Abismo

abril 20, 2010

Janela para vazios





Para Margarete e Alômia

Quando ele se tornou vizinho começou a manhã.
Antes disso em uma noite cabia tudo que havia.
A família do lado veio com aparatos e quadrados,
E com tecnologia de ponta e plantas de plástico,
E tudo ansiavam de um viver fora e longe de si,
Cada qual seu destino de ilha: mãe, pai e filho.

Essa impossibilidade escondeu a chave dos três,
E com cadeado as palavras só diziam por dentro.
O vizinho quis sorrir de amigo aos daquele lado,
Mas sorriso é algo que os três de lá não puderam,
E não viram. Puseram muito silêncio por entre,
E assim aconteceu esse vazio entre as casas.

E o vizinho ficou de olhos ali por trás de tudo,
Com uma tristeza que só entendiam as estrelas.
A vida doía então absurdamente geométrica:
O pai quando caminhava descrevia triângulos;
Às vezes ia muito baixo, às vezes alto para lá,
E ninguém calculava os lados desse mundo.

A mãe tinha pés que desenhavam losangos;
E havia rugas contra as esquinas de sua manhã;
Por isso camuflava gritos com jóias e perucas.
Era mulher de muito arrumar, de pouco sorrir;
E ninguém acompanhava seu triste caminho.

O filho tinha círculos esverdeados no que era,
De onde avançava um vazio mudo como bola;
E rolava no chão que era só reto e não se via,
E não encaixava olhar nos três ângulos do pai,
E não acertava ser nos quatro pontos da mãe.

Assim o tamanho desse lar era um cubo fechado.
Com sinais vermelhos nos corredores e quartos,
E janelas que só mostravam tudo ao invés assim.
E no jardim as cores tinham vazios quantizados;
E o mundo era imaginado só de depois e acolá.

Mas o tal vizinho trabalhava com giz e apagador,
E gostava de sorrir da vida e sabia os segredos.
E foi convidado a rabiscar desenhos-de-ser-feliz.
E riscou no ar um sobrado com desmedido azul,
E zeloso girou os rumos onde todos pudessem ir:

Fez quarto com todas as formas para o menino;
E dois tantos da mesma providência para a mãe,
E as chaves para que o pai abrisse aqueles lados.
Desfez as linhas que não brilhavam nos olhares,
E desenhou curvas mais para cima nos sorrisos.

Com giz e segredos retornou ao ficar de vizinho.
E correram os três para a casa dentro do azul.
E tentaram eufóricos os desenhos de conviver.
E houve festa de enxergar o outro e até suportar,
Pois tinha mais azul ali do que no mundo todo...
Mas nem toda casa azul tem suavidade de céu:

O pai passou a receber visita que não se sabia;
E com caminhos demais a mãe deixou de voltar.
O menino a olhar círculos, triângulos e losangos,
Mas não compreendia a insistência dos silêncios.
E de tanto desencontro que um cinza-mudo veio.

E quando falavam só se ouvia rabisco enroscado;
E tanta mágoa se deu que a noite nem dormiu lá;
O sol perdeu a hora de acordar o resto do tempo.
Com isso o azul virou uma calha e molhou tudo,
E não teve sossego que ali arrumasse as cores. 

E da janela ao lado o vizinho calava tristeza só,
E era apertado como olhava a casa e o apagador.
E com essa tristeza rasgou em duas voltas assim,
E já no lugar era só o fundo do mundo que se via,
Costurado no pano que cobria o tamanho do céu.

No lugar da casa, onde restaram mudas de azul,
Riscou um abismo com larguras de um “v” vazio,
E fez-se o chão que ia mais longe do que não ver.
E foi assim que quis manter sua casa de vizinho: 
De cara com um silêncio de tamanha distância.

Nos dias em que mais doía a incerteza de gente,
Ele brincava com as estrelas de ser mais mudo,
De ser menos humano para ser mais do abismo,
Do fundo disso. Mas guardou consigo as cores,
Para pôr nas janelas quando quisesse outro dia.

Ricardo Fabião (Abril - 2010)

Texto para o desafio de Abril - Fábrica de letras
Tema: Abismo

Edgar Mueller é conhecido por fazer pinturas tridimensionais em ruas (3D Street Art).
O abismo acima é de sua autoria. 

Direitos reservados