outubro 02, 2010

O segredo da tarde sem luz



Tudo começa com a chuva de algum dezembro, assim inesperada para o tamanho do dia. Aos que dividem o instante isso desce além das necessidades, pois não excede alguns baldes a sede das plantas, nem comportam mais que dez minutos de água caída as ruas e as praças. O que molha depois disso impõe ilhas ao dia, desmonta projetos humanos. E como há desvios nisso, imaginemos uma casa no meio de tudo, e dentro uma cara de menino impossibilitado na janela da sala; depois, lá fora, com um amarelo de vestido sob a tarde, a menina da história, que corre com a mãe até alcançarem o primeiro portão aberto, e logo uma varanda, que serve de abrigo até que não haja água demais no céu para seus trajes de sair. Calculemos agora a intenção do destino: o menino corre até a cozinha, mãe, há intrusos em nossa casa. Da janela, porém, eles logo compreendem menina e mãe, pessoas que vêm com a chuva, que logo retomam seu caminho, não há problema em acontecer numa varanda de empréstimo. Lamentavelmente, é natureza da chuva não corresponder às horas e aos desejos, e o tempo avança ali. Então fica bem oferecer uma fatia de bolo à menina com quase oito e à senhora com algo depois de quarenta, que não representam perigo. Elas entram, boa tarde, então as mulheres se reconhecem de algo antes, e nisso elas se inserem como se fossem velhas amigas. Os dois menores, silenciosos, de olhos na diferença, buscam outra linguagem, a da desconfiança, da confirmação de posse do território, o ajuste de forças que sempre determina o instante seguinte. Sentam-se e comem de olhos no impasse. Quando o assunto das mães torna-se muito adulto é melhor dizer às crianças que sejam crianças em outro lugar. Sejam. Elas procuram lugar, procuram, procuram, e, de tanto que são crianças, identificam quintal e chuva como a melhor das possibilidades, sejamos então felizes. Assim, com meias roupas, as de baixo, sem cálculos disso, eles entram no mundo molhado da tarde sem luz; deixam-se aos saltos, aos impulsos, imaginam piscinas nas poças lamacentas, arriscam abraços, ensaiam olhares, percebem-se, correm, sorriem, caem, misturam-se aos cheiros do chão. Ele a beija na face, sem entendimento, sem medidas de fazer, entretanto, considera mais estranho todo o resto, o impedimento, pois logo ecoam os gritos das mulheres, um, dois, três, muitos; ele toma palmadas e ela é arrastada pelas ruas com o vestido amarelo na mão. A família da garota, gente que responde bem aos ditames da década de 50, deixa o bairro no dia seguinte, certa de que esquecer completamente é caminho possível. Depois disso, como sabemos, o tempo transforma crianças em adultos, desvios em segredos. Hoje, eles não se conhecem, não lembram mais o fato; afinal é apenas uma tarde no meio de todo esquecimento necessário ao vivente. Todavia, não sabem dizer ao certo por que gostam tanto do cheiro sem luz da chuva - algo que futuro nenhum pode transformar em pretérito; conjuga-se sem verbo, alheio à consciência, em eterno presente. Não passa.

Ricardo Fabião (outubro, 2010)

Texto para o desafio de Outubro - Fábrica de Letras
Tema: O cheiro da chuva

17 comentários:

  1. Singela a história, meu caro... Gosto da singeleza... Gostei do texto...
    Grande abraço...

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  2. As coisas simples nas suas mãos ganham uma proporção imedivel!

    PARABÉNS pelo texto!

    bjoxxxxxxxxxxxxx

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  3. O TEXTO É SIMPLES E PROFUNDO. O TIPO DE LINGUAGEM É MUITO DIFERENTE DO QUE É HABITUAL MAS MUITO ATRAENTE E SEDUTOR...FOI MUITO BOM TER-ME DESCOBERTO. FICAMOS AMBOS A GANHAR COM ISSO...
    NÃO SEI PORQUÊ MAS VISUALIZEI TUDO COMO SE FOSSE A CENA DE UM FILME...

    ENCANTADA COM A LEITURA

    ESPERO VOLTAR

    BOM DOMINGO

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  4. Só pelo título o texto já conquista. E palavra a palavra, cativa. Ótima produção, Ricardo.
    Grande abraço!

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  5. O tempo transforma crianças em adultos, bem verdade. E esse tempo passa tão tão rápido! beijocas

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  6. Ricardo passei para conhecer seu blog ele é not°10, show, espetacular com excelente conteúdo você fez um ótimo trabalho desejo muito sucesso em sua caminhada e objetivo no seu Hiper blog e que DEUS ilumine seus caminhos e da sua família
    Um grande abraço e tudo de bom

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  7. Incrível como os acontecimentos aparentemente sem importância nos marcam para sempre, mesmo que apenas consigamos recordar um cheiro especial. Adorei esta história.
    Beijinhos

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  8. Linda história, ótima tua participação! Gostei!abraços,tudo de bom,chica

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  9. Muito bom. Bela participção. Cada um de nós tem seu jeitinho todo especial de ser e postar. Sempre são bem vindas as novas ideias.
    Estamos ai tbém.
    http://sandrarandrade7.blogspot.com/2010/10/coletiva-da-fabrica-das-letras-o-cheiro.html
    Carinhosamente,
    Sandra

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  10. Realmente, de uma banal impossibilidade de seguir em meia à chuva, você faz algo extremamente poético (a começar pelo belíssimo título, como bem apontou o Fred). Muito bom!

    Abraço!

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  11. "A família da garota deixa o bairro no dia seguinte, certa de que esquecer completamente é caminho possível. Depois disso, como sabemos, o tempo transforma crianças em adultos, desvios em segredos."
    "(...) algo que futuro nenhum pode transformar em pretérito; conjuga-se eternamente no presente. Não passa."
    Caro escritor, você tem um estilo único, narrativa simples (o mais difícil na escrita), com reflexões profundas. Universalisa o mesmo que escreve e nos torna todos leitores de nossas próprias vidas. Em suma, completo. Por que tardas em lançar um livro. Não falo de coisa pequena ou autofinanciada, busque a Fronteira, as maiores. Tuas alturas literárias já deviam estampar mais vitrines e encantar mais pessoas.
    gde abraço

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  12. Tal como os teus meninos também nós transportamos memórias difusas que podem muito bem ser cheiro ou outro elemento. Não sabermos ao certo a sua origem, sabemos apenas que não nos separamos delas.

    beijo

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  13. Interessante a linguagem sutil, pensei ate que vc fosse o garotinho... Abraço

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  14. Por aqui, derrapando em suas curvas...

    Beijos e ótima semana!

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  15. Que lindo Texto Ricardo. Amei!O sentimento ora expresso é de paixão. A vida é feita de paixões, agora me encontro apaixonada pela vida, minha vida! Paixão por mim mesma, que descubro passo a passo, como uma dança.
    E aprendendo a me conhecer por dentro, compreendo que cada qual tem sua viagem interior a desbravar, para então verdadeiramente APAIXONAR-SE!
    Avalio e pondero meus sonhos, meus planos e daquilo que já não me faz guarida, lanço como papel amassado pela janela.

    Sente as palavras minhas? Somos assim, uns expressam-se por palavras, outros pelas melodias, há os que se lêem pelo olhar, também aqueles que das pinturas emanam emoções puras e verdadeiras. Não somos todos iguais, e nesta diferença, por ora encontramos expressões que refletem o nosso sentir. Que venha a chuva e molhe todo meu corpo e lave alma, mente. Que venham novas expectativas novo 'ousar'.
    Empresto aqui palavras tão bem talhadas: “Sou quem eu sou, mesmo não querendo ser. E assim caminham os loucos nas terras dos anjos” (Carlos Cidade em letra).
    “Vou seguir os passos que a ternura lhe mostrou, Vou seguir, e do lado de quem quiser estar já estou” (Carlos Cidade em letra.Faço destas palavras o melodiar do meu trilhar.
    Com carinho,
    Sílvia

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  16. Ricardo, o cenário mental que montei com este teu texto... uma cena tão simples toma proporções monumentais na ponta de uma caneta (teclado, neste caso).

    Abraço

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  17. Sempre me emociono por aqui! E em meio a essas crianças a brincar e dançar com o presente, sem pudores, sinto ainda mais encanto!
    Beijos Ricardo

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