outubro 29, 2010

Por uma diferença inteira



Para Oscar Wilde,
que não usufruiu uma diferença inteira.


No instante desconectado ele era apenas o menino que não sabia narrar a história de ser menino como se deve ser. Faltava-lhe o código. Cansava então disso sozinho, dentro do ar pesado, parado, com sua bola de pensamento mudo a mover-se lentamente na tarde. O pouco barulho do seu passo era de não acordar o mundo como ele é, nem de permitir o pensamento como ele voa, porque pensar é ter muito tamanho fora, ficar grande demais, solto no susto de viver; restava-lhe então calar e pôr disfarces sobre a transparência da alma. E naquele instante desconectado ele percebeu muito cedo a diferença; uma diferença ainda no grão. Constatou: ser menino é de um cuidado tão assim que só o medo de não ser na medida certa traduz a dimensão. O mundo dita o formato, e nâo tê-lo é menos viver. Mas o menino do pensamento mudo não acatava de tanto quase; ouvia e cansava nisso com sua tarde suspensa, oca de tanto descaminho. Como me encaixo no jeito que sou, e amo como não posso? Enquanto não respondia a isso chegava a noite, e ter apenas oito anos é de um medo já no começo de gente, que com o tempo só avança mais fundo, e afundar é muito escuro quando não há chão. Corria para o quarto com o coração fora das horas, com aquela diferença de menino que sente estranhamente, algo que só cresceria para muito distante – ele fora do ciclo. Pôs-se à frente do espelho, despido, transparente até enxergar-se todo, e desejou não saber como seria uma diferença completa, assumida. Deitou. Ficou de sossego só, consigo, na penumbra parada entre tomar conhecimento e aceitar-se. Complicado demais - um motor de mundo não se vence com dúvidas. Puxou o lençol e tomou todo o resto para servir de sonho, que o dia seguinte era novamente um percebimento do desvio, e assim o sempre. Não havia régua que o medisse, não havia chão em que aprumasse sua transparência disfarçada, seu código era outro, seus brasões, sua ânsia, seus suores; seu sangue seria derramado por outro sacrifício quando chegasse a hora; e aí o menino: eu vou com isso? Todos dentro da bola hermética precisam atestar que menino é sempre menino como meninos devem ser. É o tratado social; mas a diferença é uma bola ainda maior, e ele rolava nisso de não caber exatamente no formato, um desviado. Tudo assim percebido doía baixinho no início do sono, sob aquele lençol transparente que não cobria. Ao dormir, desenhava a vida para depois: um dia de cada vez para vivê-lo instante por instante intensamente; sorrir consigo e muito, de si, do mundo e das convenções; então comer frutos com mãos diferentes, tomar o ar por outras necessidades, e crescer, crescer, crescer mais, para caber cada vez menos dentro do tamanho vazio das regras, e ser homem inteiro por isso, de transparência e desejos hasteados. Esse ensaio encaixava bem no desenho, entretanto, depois dos cálculos reais, ele constatava que era dor demais para um menino que já sabia como incomoda doer de silêncio. Numa certa tarde, com mais panos sobre a transparência, desistiu de si. Pediu que parassem a bola hermética que ali passava no sempre, superlotada, com o mundo dentro, no caminho que deve ser; entrou e foi bem recebido por todos – levem-me convosco. Na saída, viu lá fora, a sorrir de tudo, a sombra de si mesmo, que largava finalmente a bola do pensamento mudo para arriscar palavras no passo contrário. E por estar assim uma diferença inteira constituída de forças antagônicas, há quem encontre nisso mais de dois finais na história.

Ricardo Fabião (Outubro -2010)

Texto para o desafio de novembro - Fábrica de Letras
Tema: Transparência

A imagem "O menino e a boneca" é da autoria de Graça Martins;

outubro 02, 2010

O segredo da tarde sem luz



Tudo começa com a chuva de algum dezembro, assim inesperada para o tamanho do dia. Aos que dividem o instante isso desce além das necessidades, pois não excede alguns baldes a sede das plantas, nem comportam mais que dez minutos de água caída as ruas e as praças. O que molha depois disso impõe ilhas ao dia, desmonta projetos humanos. E como há desvios nisso, imaginemos uma casa no meio de tudo, e dentro uma cara de menino impossibilitado na janela da sala; depois, lá fora, com um amarelo de vestido sob a tarde, a menina da história, que corre com a mãe até alcançarem o primeiro portão aberto, e logo uma varanda, que serve de abrigo até que não haja água demais no céu para seus trajes de sair. Calculemos agora a intenção do destino: o menino corre até a cozinha, mãe, há intrusos em nossa casa. Da janela, porém, eles logo compreendem menina e mãe, pessoas que vêm com a chuva, que logo retomam seu caminho, não há problema em acontecer numa varanda de empréstimo. Lamentavelmente, é natureza da chuva não corresponder às horas e aos desejos, e o tempo avança ali. Então fica bem oferecer uma fatia de bolo à menina com quase oito e à senhora com algo depois de quarenta, que não representam perigo. Elas entram, boa tarde, então as mulheres se reconhecem de algo antes, e nisso elas se inserem como se fossem velhas amigas. Os dois menores, silenciosos, de olhos na diferença, buscam outra linguagem, a da desconfiança, da confirmação de posse do território, o ajuste de forças que sempre determina o instante seguinte. Sentam-se e comem de olhos no impasse. Quando o assunto das mães torna-se muito adulto é melhor dizer às crianças que sejam crianças em outro lugar. Sejam. Elas procuram lugar, procuram, procuram, e, de tanto que são crianças, identificam quintal e chuva como a melhor das possibilidades, sejamos então felizes. Assim, com meias roupas, as de baixo, sem cálculos disso, eles entram no mundo molhado da tarde sem luz; deixam-se aos saltos, aos impulsos, imaginam piscinas nas poças lamacentas, arriscam abraços, ensaiam olhares, percebem-se, correm, sorriem, caem, misturam-se aos cheiros do chão. Ele a beija na face, sem entendimento, sem medidas de fazer, entretanto, considera mais estranho todo o resto, o impedimento, pois logo ecoam os gritos das mulheres, um, dois, três, muitos; ele toma palmadas e ela é arrastada pelas ruas com o vestido amarelo na mão. A família da garota, gente que responde bem aos ditames da década de 50, deixa o bairro no dia seguinte, certa de que esquecer completamente é caminho possível. Depois disso, como sabemos, o tempo transforma crianças em adultos, desvios em segredos. Hoje, eles não se conhecem, não lembram mais o fato; afinal é apenas uma tarde no meio de todo esquecimento necessário ao vivente. Todavia, não sabem dizer ao certo por que gostam tanto do cheiro sem luz da chuva - algo que futuro nenhum pode transformar em pretérito; conjuga-se sem verbo, alheio à consciência, em eterno presente. Não passa.

Ricardo Fabião (outubro, 2010)

Texto para o desafio de Outubro - Fábrica de Letras
Tema: O cheiro da chuva

setembro 22, 2010

Cartas ao dia seguinte


"A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata".
(Virginia Woolf)

O que se sabe é que ela guardou a última lembrança de existir no sótão, para que não desse com o peso de ser nas horas. Foi disso, nessa falta de luz que proliferaram as ausências, todas, e ali, sem dia, sem ar, só mesmo uma desistência de vida caberia. Ela aparecia vivendo assim, muito cedo, na estrada da manhã com a lacuna; por isso entretinha-se com vassouras e ferros de passar, fingindo-se atarefada com as exigências do seu dia. Inventava esse caminho de ter o que fazer até que não mais houvesse o que pensar, e não cansava dessa fuga. Quando depois do sol, escrevia cartas na varanda, para que no papel pudesse tornar-se personagem principal de alguma história. Eram as cartas do dia, importantíssimas, convinham a uma solidão. Escrevia-as com estreitura e desvios  de quem confessa pecados. Antes de deitar, deixava-as sobre o móvel da sala para pensar no dia seguinte que haviam sido destinadas a ela. Abria-as e conseguia sorrir absurdamente com as novidades narradas no papel, algo apreensiva, com ânsia de adolescente. Os parágrafos traziam a notícia feliz de uma dona de casa que, deixada ao mundo pelo marido após trinta anos de costumes e noites de dois, ainda dispunha do dia seguinte para um passo. E como era manhã no mundo assim, corria ao fogão, apressada em pôr panelas no fogo, pois logo haveria crianças a correr na varanda, a saltar por entre os arbustos do jardim, tudo de muito movimento ao meio-dia e vida ao sol. Mentira. Não havia criança para uma instalação de luz de dia diferente. Até o sol era só queda. A casa havia sido deixada ao que cala e seca, aos caminhos sem ida, e ela era mais impasse que mulher; por isso a importância da leitura em voz alta daquelas cartas, para que delas reverberasse um destino diferente, única saída aos ouvidos, já que no olhar não havia algo que vencesse as tristes distâncias do passado. E ela não ia mais que isso, dividida que estava entre os dois destinos possíveis do seu dia: história que não voltava, que não avançava, um ponteiro de relógio quebrado, um mundo sem ir. Somente o tempo, com as chaves de tudo, seguia no mais para lá dos cercados, tomando as curvas de depois muito. Ela fechava as cortinas, não queria luz nem horizonte, que o de qualquer jeito de sua vida era demais pesado para se levar sabendo. Agora, ela e aqueles objetos abandonados eram uma casa no meio do caminho empoeirado, sem filhos para uma aflição, sem par para um café, ninguém passava, nenhum viajante perdido; ali nada batia além da porta entreaberta, perpassada pelos dois ventos sobreviventes, confusos. Nada chegaria ali, nem mesmo com gritos de socorro. Todos haviam esquecido o endereço da dona de casa que trancafiou as possibilidades de ir com a vida após ser deixada sem amor ao próprio passo. Por isso, ao deitar o sol, ela escrevia sempre. E foi assim até o instante em que deixou de ouvir-se, e passou a esquecer-se de ser, mas não morreu quando chegou o dia, preferiu seguir com a solidão. Guardou-se eternamente dentro das missivas, e lá permaneceu ausente de tudo - em cima do móvel da sala. Com a chegada da noite, ela escrevia cartas ao dia seguinte.

Ricardo Fabião (Setembro - 2010)

setembro 19, 2010

Depois do escuro das coisas


Aquela criança era da parte mais oeste que se imaginava quando alguém dizia medo; e era moradora desse lugar que não constava no mapa, que nem mapa havia, nem mesmo desenhista, um quase existir, que não crescia e não diminuía, só havia com seu tamanho entre os quatro limites, e era o começo de tudo. E ninguém ali tinha coragem de aventurar um só pé mais oeste depois disso, porque haviam dito que indo para lá dormia o sol, e deveria ser mais quente que qualquer coisa mais reluzente de se conseguir ver. E por ser o lugar do seu descanso, um ninho aceso no meio das encostas, assim com tanto amarelo, o sol fatalmente sugaria as outras cores para dentro de si. Não cabia nem pensar nesse destino de uma cor só; melhor era ter medo, para ser mais do sossego que reside em não saber. Os habitantes desse receio, por isso, com o oeste do mais assustador de imaginar, gostavam de pintar o sol nas paredes, do modo mais intenso do seu arco diário, temendo que o astro pudesse morrer para sempre de tanto oeste que repetia no passo do céu e ser por isso esquecido. Ali, o sol era a presença maior, e sem esse entendimento não havia seguir. E todos cultivavam esse cuidado só de calcular que o medo pudesse ser maior que a noite, que já levava muito horário com o azul apagado. A menina, no entanto, mais curiosa que a razão de ser do mais oeste do mundo, resolveu seguir o sol para saber onde ele fingia que morria antes do escuro. E correu sem saber e muito, acompanhando o fio da luz caída, que de tanta natureza só sabia o destino inatingível de oeste. E porque era imensa a bola brilhante, assim deveria ser o ninho em que ela deitava a gerar o dia de outras vilas sem luz. Logo a grandeza seria notada. Mas a menina cansou de tanto que não achou sol naquela largura de noite, e dormiu por cima de uns escuros que encontrou no caminho. Até que veio do leste a primeira luz de sempre. E desse lugar alheio, a menina entendeu que todo leste, por mais imaginado que seja, tem um sol de nascença, e todo oeste, por mais lá indo longe de tudo, leva consigo o sol para o seu depois. E ela ficou feliz de perceber assim o sempre das coisas. Enfim, a distância do escuro do céu foi vencida. E foi por saber mais do oeste que a vila soube das horas que chegavam do leste, um ciclo, e que não havia cansaço em repetir-se. Depois, os habitantes marcaram o dia como tempo de viver, e passaram a ser assim, como se fossem livres. E porque ainda era início todos aprenderam. Então o sol passou a ser somente a bola curiosa que dizia os horários, com direito a uma morte de estrela no dia do seu último escuro. O que não se sabe, o caminho mais alheio, onde as luzes oscilam sem horas e datas, permanece dentro do homem, sem solução.

Ricardo Fabião (Setembro - 2010)

Texto para o desafio de Setembro - Fábrica de Letras
Tema: Livre

agosto 26, 2010

A fronteira


Para Ane, Jessiely, Keila, Renata;
mulheres que arriscam alma e palavras 
além de suas próprias fronteiras.


E com quatro dos símbolos aprendidos ele escreveu 'viver', e assim começou a história. Escreveu, que gostou, e soube como seguir. Agora cada um daqueles símbolos abria uma estranha passagem, o que ele tomou para si como ofício, para riscar nas coisas e arriscar-se mais. E desejou juntar todos eles, os vinte e seis símbolos, para chegar a todas as coisas do mundo, e com isso escrever tudo que se ouve, que se vê e sente, e com zelo especial, tudo que se cala. Foi a professora, com algum tipo de luz nas mãos – como faz o sol, ao rasgar diariamente os caminhos e as cores aos seres –, que os desenhou no quadro, com giz e magia; e não só isso foi aberto ali, o que se escreve e a estrada depois: algo que ele não sabia onde era estendeu-se muito mais mundo adentro, que ele só alcançaria de juntar e dizer todas as letras. E foi sem cansar disso até muitos dias. Juntava então nos dedos as letras e as escrevia no ar. Escrevia, escrevia, ininterruptamente. Onde estava o mundo, lá punha seu dedo a escrever em cima das coisas, com exclamações nas ladeiras, interrogações no horizonte. Quando o ar estava cheio dos seus escritos, ele os apagava até que se refizesse o vazio para abrigar mais palavras. Até aí era a descoberta, o menino. Certa vez, no desvio do caminho, quis saber como era juntar humanos e sentimentos na mesma frase, e pôs 'Lúcia' em cima, no topo da paisagem, e 'meu amor' embaixo, no azul quase chão; depois riscou reticências para que isso ficasse ao tempo. E contemplou a possibilidade e a fundura daquelas palavras. E tão logo percebeu que alguém poderia ler o pedaço rabiscado do vazio, que com mão demais apagou além do que deveria, e deixou um buraco no céu onde antes estava 'amor'. E assustou-se. Sem aquele pedaço de ar faltava-lhe algum caminho até ser completamente. Mas não houve jeito: agora estava lá, em todos os lugares aonde ia, no que sentia e almejava, o tal amor apagado às pressas, doendo onde não estava, um furo no céu, um oco suspenso no olhar, que seguia junto vida adiante, desconhecedor das horas. E foi nessa margem pouco visitada que ele ancorou o passo; cresceu. Eis o adulto, o destino. Todos os dias punha escadas e escrevia no vão do amor arrancado, tentando chegar com palavras ao tamanho necessário para cobrir a falta, algo que aliviasse o incômodo de ter um buraco onde antes desenhado estava o primeiro amor. Quis remendar com linha e agulha, com adesivo e cola, mas nada fechava naquele lugar. Ainda fingiu que era janela, mas tinha de fato medidas de lacuna, de ausência, e não coube uma cortina. Depois ele soube que ali estava a fronteira de tudo. Um dia encontraram apenas a escada e o silêncio. No mundo de cá, aos de sensibilidade, restou o que ele havia escrito. Dizem que virou poeta.

Ricardo Fabião (Agosto - 2010)

agosto 11, 2010

Estranheza

Pode o autor ter predileção por alguns de seus textos?
Se me for dado tal direito, eis abaixo um deles.



A Victória, minha filha,
pela diferença que nos uniu
em tudo eternamente.

         Zafina sofria de esquisitice, de estranheza completa, um desajuste brabo, tão assim sem remédio que nem sete rezas em noite de lua cheia deram jeito; recomendaram em vão. E como não havia nome para o mal, nem tolerância à diferença, ela tornou-se a aluada da cidade, a desandada, uma tristeza. Como resposta, a garota apenas olhava, sorria inocentemente, mas adentrava o pensamento dos curiosos, invadia falsas verdades, desvendava intenções ainda na alma.
         Estranho. Assustador. E não havia quem pudesse com o peso daquele olhar, tanto que desde o nascimento negaram-lhe qualquer possibilidade de afeto. E ela, algo assim calada, parada diante das paredes, olhava-as demoradamente, quase aos sorrisos, como se naquele vazio encontrasse uma saída para o seu descompasso. E foi por medo, por temer a escuridão encontrada na alma das pessoas, que decidiu não mais falar.
         Havia começado as letras mas nada escreveu em cinco anos de chance. Sua única produção estudantil foi o desenho em que rabiscou uma família feliz: uma mãe que ama a filha, um pai, um irmão, e todos no mesmo amor com um sol lá em cima para todo sempre. Mas dinheiro gasto exige algo em troca, evolução, e tiraram-na do colégio: num dia estava lá, no outro, trancada em seu quarto.
        A natureza tem dessas invenções, alguém tinha de ser Zafina e a pequena foi justamente nascer assim. A família estranhou. O que é isso? Bem, aparece uma em cem milhões, o médico do posto de saúde foi categórico, mas dá para aguentar, não morde, não contagia, e não mata, apenas é esquisita. De que jeito, doutor? Segundo minha experiência, ela não se irrita, não deseja o mal, possui todas as virtudes; tudo que faz e gosta e sabe é olhar, muito lá dentro, no viés da alma, nas curvas, e descobre suas imperfeições e relevos; é difícil de aceitar, suponho, mas ela possui também habilidade para amar incondicionalmente; isso talvez amenize o pesar da moléstia. Ameniza nada, estamos convencidos, ela é realmente estranha, somos uma família tradicional, não podemos com tamanha aberração. Como alguém pode apenas olhar, amar e lidar com a verdade? É muito pouco para ser humano legítimo, não sobrevive, não dá certo no caminho, sou mãe preocupada. E a sociedade?
        Decidiram então manter Zafina em casa, sob eterna vigília, quarto separado, remédio controlado, alarme para entrar e sair, o amor é perigoso, ninguém sabe que rumo toma; os talheres foram marcados, a lavagem de sua roupa feita em outro tanque, a doença é rara, sabe-se pouco sobre contágio e tratamento, somos uma família que não arrisca desvios de conduta, há um brasão sobre nossas cabeças, a mãe repetia, mas veja, ninguém é desumano, aqui ela é bem tratada, há um rádio para distrair, sufoco, Zafina cresceu. A serenidade permaneceu, o olhar firme, perfurador, o sorriso e a clarividência, e isso incomodava os mais próximos, que eram, no mínimo, distantes. Um abismo para os dois lados, e o tempo foi junto a cair.
        Ela tinha vinte e três quando o irmão visitou seu quarto numa certa manhã. Ele todo sorriso, quer ver como é o mundo? Zafina toda esperança e feliz, com palavras ditas para dentro, só de olhares, vou ver como é o sol do longe, conhecer o mar, talvez um vestido novo, tomar sorvete, pensamentos. Sim, você vai ser livre, o irmão foi convincente, tinha de ser, havia projetos na cabeça, grandes segredos, um circo, uma atração assim “o olhar que tudo vê”, sucesso, dinheiro, é só esperar. Você trabalha para mim, eu cavo sua liberdade. Combinado. Mãe, eu levo Zafina para morar comigo, lugar distante, não voltaremos, a razão ele omitiu, não se preocupe, melhor assim, ficaremos livres dessa aberração. Por favor, esqueça que somos mãe e pai.
        E aconteceu: um trem, uma estação, um rosto virado de pai, uma boca torta de mãe, uma lama de primavera chuvosa, um rádio apertado nas mãos, um olhar a mais, um amor a menos, abortado, já sai, já foi, depois uma porta, um vagão, os trilhos e a manhã gelada. Os acenos espalhafatosos jogados por Zafina ricocheteavam na frieza do casal estacionado na estação, silenciosamente satisfeito por despachar um incômodo de duas décadas. Fizemos nossa parte, vamos para casa. Voltaram ao resto da manhã, uma cena muda, que era o início do vazio que guiaria suas vidas adiante.
        Era então um terço da viagem quando ele reparou nos olhos da irmã. Não nos conhecemos. Como é apenas olhar? Não responderás, eu sei. De que lugar vieste assim tão diferente? Segundo o que aprendeu, ela era perigosa, um castigo, aquela que jogou o nome da família no ralo, tanto que durante toda sua vida ele tratou de não entendê-la como irmã. Ela, alheia à inquietude daqueles questionamentos, só sabia a felicidade que era o chocolate em suas mãos. Não media a dor do passo que ia na direção contrária das coisas, por isso sorria para o desenho apressado das montanhas no lá fora, para o tamanho do céu, e escutava mais alto o mundo que só ela entendia. Tinha lindos olhos, o que haveria de errado com eles?
        Aquela jovem mantinha o rádio no colo como quem tem as chaves que abrem a alegria da vida inteira, seu único companheiro até ali. Ele pousou o olhar sobre essa cena, o que fizemos a ti, minha irmã? Zafina continuava de sorrisos, indiferente ao derretimento de sua vida, do chocolate, a sujar-lhe as mãos, o destino, deixada de qualquer jeito ao pé do instante seguinte; não era deste mundo, era feliz de não saber que seria infeliz se soubesse como era ser. Então algo revirou dentro dele, uma náusea, uma saudade de algo que não conhecera, coisas que iam e voltavam, talvez o engasgo a tomar outro caminho, tornando-se respiração livre, portões que se abriram, água jorrada depois de represada, inundação. Ela virou-se para ele, os olhares bateram-se demoradamente, um minuto eterno, e ela não disse, que não precisou, e ele ouviu tudo, paralisado entre contemplar e lamentar, por ela e por ele, pelo mundo, esse engasgo todo, pelo abismo e pela falta de acesso. Tudo ele diria se soubesse, mas palavras são instrumentos de uso complicado, e, recém-chegado de um longo silêncio, só coube na voz olhar, doer, olhar. E isso levou muito mais alma que morrer.
        Enxergar-se foi caminho que ele não soube administrar para um depois. Acostumara-se desde menino às meias verdades de sua família; de modo que uma verdade inteira foi clareza demais, desencadeou sensações controversas, interditou seus planos, teria que improvisar um desvio.
        Horas depois, a irmã dormia dentro do vagão gelado, com seu sonho de azul e calor, distante consigo só. Apenas uma incerteza de madrugada chamava por ele lá fora. Desceu na estação seguinte. Duas malas estavam ao seu lado quando o remorso o tomou para sempre. O trem partiu lentamente, fazendo curvas e buracos naquele resto de noite. Deixou ali o cinza-escuro do impasse e o homem da lágrima silenciosa.
        Zafina acordou. Levantou-se. Isso foi quando o movimento da janela mostrou-lhe como era calada e triste uma imagem de irmão deixada para trás. Sentou-se. Sorriu alheia, sem cálculos, sem destino. Ligou o rádio. Comeu outro chocolate perto da manhã.

Ricardo Fabião (Julho, 2007)

agosto 02, 2010

A estrela que não está lá


Antes não havia desejo, só o brilho. O desejo ela inventou quando quis ser luz de outros lugares, que brilhar de fogo por dentro era coisa muito só e sem razão. E como não havia escada para descer do alto do céu, nem avião que passasse naquele lugar depois de tudo, ela, a estrela distante, decidiu descer por meio de sua própria luz, que era muito rápida e acendia mais longe do que todas as coisas que iam. E foi com esse desejo que se deu sua viagem no nada, a primeira ida e a última. E com sede de mundo ela desceu pelos raios luminosos. Então começou a contagem acelerada dos anos-luz, estrada de vida e de morte, onde, quanto mais luz se deixa aos do caminho, menos se guarda para si; um deslizar para o próprio aniquilamento, um esvair-se que ela realizou com calor e intensidade. Seu destino era então encontrar um olho que desse com sua luz, alguém que lhe atestasse a existência, que a entendesse por estrela, e que depois uma estrada que não fosse solidão se estendesse aos dois, uma longa viagem. Entretanto, curiosamente, de tanta distância que alcança uma luz, alheia ao tempo que leva disso, torna-se impossível manter-se inteira na fonte, porque no cálculo espaço vezes tempo isso lá atrás já foi, passou, apagou-se, esfriou eternamente. E foi assim tão longe quando chocou-se com o primeiro olhar humano, e tanta queima levou de si, que a estrela já não era de fato um corpo na base, mas apenas uma trajetória iluminada, uma memória acesa, uma decoração de noite sem lua. E não houve mais contato com o lugar do alto do céu de onde saiu, nenhuma mensagem do mundo de antes, que era só brilho; não voltou, pois, para envelhecer consigo. Morreu a caminho de outro olho mais distante; não chegou. Mantinha-se agora no alto do nada mais azul distante como pontinho luminoso; contudo, já não estava lá. Havia utilizado ingenuamente todas as lâmpadas do seu estoque para clarear a escuridão dos olhares do caminho. E isso não foi suficiente.

Ricardo Fabião (Julho - 2010)

Texto para o desafio de Julho - Fábrica de Letras
Tema: "Uma longa viagem..."

Imagem: "Lost Star"
Página: http://paolodomeniconi.blogspot.com/

julho 29, 2010

Controle



Aos poetas e pensadores:
Aluisio Martins, Fred Caju e Jairo Cerqueira, 
pela inquietação de ser, viver.

Nós corríamos no meio do mundo. Plenos. Minha mãe sempre à frente, com algum cabelo solto e sorrisos, levando-nos a correr, correr, sem cansaço, com alma e delírio, para que bebêssemos mais da vida a essência toda. Éramos os pequenos reis do instante, da distração, meus três irmãos ligeiros e eu, olhos em tudo, entregues ao acaso, porque era gratuito e era nosso único jeito de existir com alegria, correndo no meio de tudo. Então correr não iniciava, não findava; para nós era como imaginávamos uma família naquilo existindo. Nossa mãe era daquele jeito que corria alheia e sorria, e isso tinha ajuste para nós, nosso código de enxergar. E não importava o modo como as pessoas nos enquadravam em suas censuras: ‘essas crianças suadas, eufóricas, sorridentes, soltas’. Era só essa coisa que nos deixava felizes, com demência, com paixão. Todos diziam disso que não colava no mundo uma brincadeira assim de correr pelas ruas, de mãe com filhos, de qualquer jeito, ao ar. Viver, preconizam, exige seriedade e susto, isso é assim; tão desse modo que se repete desde que inventaram o mundo. Mas corríamos como se não ouvíssemos e fôssemos mais que o planeta todo a gritar, e éramos, pois tínhamos uma mãe com um sorriso para os dias, com um vestido ao vento e com amor para nosso sempre de criança, e nisso havia o brilho dos nossos olhos, e vivíamos, bastante. E eu como era o mais novo daquela distração de existir, o que menos sabia os caminhos, mais a mim deixavam o ofício de guiar as brincadeiras; só para sermos mais do devaneio e da falta, para gastar sorrisos ao fim do dia sem saber. É verdade que não avançávamos lugares nem pódios sociais, apenas corríamos; e incomodávamos porque retirávamos das ruas outro gás, irrespirável para muitos. E conseguíamos sorrir com o sol, só por ser manhã, loucura. Talvez. Então vieram as regras do mundo, em marcha, com amarras e seringas, e guardaram minha mãe dentro de uma casa de repouso para que não mais corresse sem razão pelas horas, feliz e alheia, que não pode; e foi lá onde ela nunca repousou do coração que só tem euforia. E naqueles que ficaram meninos e sozinhos, acolhidos em lares encomendados, não houve palavra que remendasse a tristeza. Não sei ao certo o que dizer do resto que foi para cada um continuar nisso, viver, porque no caminho dos dias, o mundo, feito dessa tristeza normalizada, em geral, só diz que é disciplina e sociedade, mas é controle mesmo... E não há medida pronta nas regras do dia que nos restitua correr daquele jeito - alheios, felizes, soltos, plenos de distração.

Ricardo Fabião (Julho - 2010)

Texto para o desafio de Fevereiro - Fábrica de Letras
Tema: "Loucura"

julho 20, 2010

Quando passar o sol que não passa


Para José Saramago

Ele não virá para hoje à noite,
Para nem mais uma palavra sua voz depois;
Só um tanto de lacuna no que silencia ficamos cá.
Talvez ele esteja guardado dentro do sol que passou,
Mantido sob o eterno calor do fogo de suas frases,
E de tanto sol que é, que foi, ficou, assim, à luz, suspenso...
Não mais anoitecerá conosco para só ir.
Talvez esteja aqui a dizer e não sintamos,
Ou certamente na revelação dos segredos, não ouvimos,
Que a descompasso da alma é ruidoso, não vemos,
Que o muro do mundo é alto, não vamos.

Hoje mais do que antes somos cegos,
Estamos de solidão em guarda, 
Um corpo solto dentro da roupa que não cabe,
Pois ele não virá para a distância da noite.
Então mais noite haverá que nos escureça ser,
Sem o tamanho do seu sol de manhã sempre,
E sem que se colha um mar para tão profundo existir.
Ergamos, pois, a tenda para que o escuro não entre,
Que doer assim nos mantém mais órfãos do que fôramos.
Cuidemos dos barcos e dos ventos,
Que sem o calor de suas palavras, 
Talvez faça mais frio viver,
E torne-se mais longe chegar...

Não, ele não nunca mais virá para hoje à noite;
Só escurece indo...
Mas desconfio de que haja um só lugar
Que não tenha ficado mais sol
Após sua passagem.

Ricardo Fabião (Junho - 2010)

Na imagem: José Saramago em 1996
Fotografado por Sebastião Salgado

julho 10, 2010

Vida a dois


Para tentar dois em um - dois
Para confirmar um por dois - um
Para três quartos do amor - um
Para oito quintos de crise - dois
Para três tempos insistindo - um
Para um tanto de impasse - dois
Para cinco sextos de sofrer - um
Para um sexto do outro - silêncio
Para duas vezes ao dia - engasgo
Para um trago de dor - memória
Para dois tantos de tudo - um
Para o que resta de pouco - outro
Para sete nonos de aposta - um
Para o restante evitado - outro
Para noites de comemoração - um
Para resposta aos amigos - dois
Para onze décimos de farpas - dois
Para retornos interditados - dois
Para olhares incompatíveis - dois
Para novas possibilidades - poucos
Para oito oitavos de vazio - talvez
Para viver o resto dos dias - dois
Para um caminho avançando - um
Para um caminho ficando - outro
Para histórias partilhadas - um
Para tempos que não se atam - dois
Para depois da intolerância - dois
Para fim de um por um só - depois
Para um responder aos dois - tempo

Para tudo depois - o que é dos dois
Quando talvez dois diluídos em um
Ou para dois sendo um sem outro
Quando, para dois destinos, dois

Ricardo Fabião (dezembro, 2009)

julho 01, 2010

O repasse


Disparou a palavra 'amor' contra o carcereiro. Com urgência. Foi quase sussurrada, ao ouvido; aproximou-se e disse assim, no último instante. Depois da palavra e do fio deixado pelo cheiro do uniforme na lentidão do corredor, o prisioneiro recebeu sua injeção de adeus, e não mais houve dele um som o corpo suado ali; ficou só a palidez encerada sobre a maca e o vazio impune da seringa. Contudo, aquele carcereiro, de armas e poderes, convicto, defensor dos seus brasões de homem, até morrer por isso faria, recebeu aquela última palavra e olhar, um repasse de chave, e ficou intrigado, e sentiu apertos de uma estranha saudade a poucos metros do corpo inerte do criminoso. O detento havia acertado as esquinas daquele que não se conhecia, e levou dele mais sangue ao silênciar do que seria com um tiro; doeu o instante todo, invadiu mais lá. Depois ficou a reverberar nas horas de sempre o sentido da palavra que jamais se abriu por completo; a chave não poderia ser usada, não foi. Nunca. Por que o preso não esbravejou? Por que não maldisse aquele instante? Fúria de homem para homem é mais fácil de tamanho, está no entendimento da força. Mas não foi assim; ficou aquele olhar gritando para trás, na fundura do corredor que avançava, e o carcereiro acompanhou com semelhante ânsia até engasgar. O que valia aquela última palavra multiplicada pela profundidade daqueles olhos a dizer? O que pretendia aquele ‘amor’ mencionado ali, onde, estando já à morte, seria só uma palavra? Era mais que isso. Aquela coisa deixada ao ouvido abriu lacunas, tornou o chão um terreno movediço. Se o preso quis posteridade conseguiu; se em sussurro jurou amor, deixou ao carcereiro um corte na respiração, impossibilitado agora de conseguir sossego com o que exigia de si, conhecer-se, uma porção mais pesada que o inteiro. Recebeu na alma aquela vibração sonora, de poucas sílabas, que desmontaria em breve suas moléculas mais resistentes, homem guardador de tristezas e pouca luz. Cavou, pois, fundo, o amor disparado em vez de balas, às vésperas do silêncio todo, do corredor para um nada enorme, nem céu por testemunha, apenas um sangrar. Foi com essa dor a esperança deixada na palavra, a última, com urgência de permanecer, algo que suplica pela segunda chance. Por esse repasse, o morto nunca deixou de estar e de seguir junto; a palavra ao ouvido só silenciou anos depois, juntamente com o homem firme, de armas vencidas, que nunca entendeu o sentido todo daquele disparo, mas abrigou-o em seu ser com memória e zelo, eternizado em sua versão original: ‘amor’.

Ricardo Fabião (Julho - 2010)

Texto para o desafio de Julho - Fábrica de Letras
Tema: "Disparou..."

junho 25, 2010

Estrada para um depois


A intenção dela, mesmo sendo à primeira vista, era estender aquele quase amor para servir de estrada aos dois, ainda que fosse uma trilha breve e estreita, guiada pela leveza dos primeiros olhares. Sorriu, e com a medida certa pediu a ele que acreditasse na possibilidade de um amor guardar caminhos para dois que se encontram na primeira vez. Ela gostava de arriscar, e disso poderia inventar um sentimento que avançasse mais do que deveria, assim, com tardes para um passeio no parque e noites para o cinema que passa os filmes mais românticos do mundo. E tanto amor ela possuía que aos dois bastava apenas que avançassem os dias. E falou, e sugeriu tudo, que quando conseguia amar rapidamente falava sem respirar palavras, sem dar-lhes o fio adequado, feito menina, ausente de controles, só tremores e suores, um acreditar. E por esse sentir quase sagrado ela olhava na direção de amar muito mais depois daquela noite, disposta a montar rituais e dogmas para sua crença de paixão eterna. E ele calado, era de uma luz quase apagada, pois não alcançava aquela diferença que ela tinha de almejar e ser. Ele queria estrada para um ser apenas, e não esperava levar amor para suas futuras manhãs, era deveras pesado. Não gostava de conversa, só a solidão tinha lucro certo para sua tristeza conformada. Contudo, disse 'sim' ao sacrifício de viver ao lado de alguém que acreditava na possibilidade de uma estrada estender-se para dois com duas verdades antagônicas. Então ela começou a gastar o amor para alimentar sua ânsia de mais seguir; e com ele gastava para compensar os buracos provocados pela falta de tudo. E assim foi. Ainda no primeiro mês da relação, em pleno período de apostas, de motor e ebulição, ele decidiu que queria aquele sentimento para si; não de modo a dividi-lo posteriormente. Desejava apoderar-se dele, impor-lhe cadeados. Não mais suportava a forma como ela acreditava nos dois, com a carne em tremores, para sempre. Precisava daquela luz para ver-se completamente; algo faltava no espelho - era só uma parte dele que estava. Veio o tempo, mais esforço investido. Eram seis meses de sentimento utilizado só por ela, escassez de possiblidades da estrada para dois; e ele sempre a evitar esse lugar, nunca na intenção de cúmplice - duas paralelas sob o mesmo instante. Ela de tanta luz e caminhos para lá, e ele de tanto interesse invertido e caminhos para si, que não se enxergavam, que não se descobriam. Então outros meses vieram, e toda reserva de amor que ela possuía foi gasta, esvaziou, balão furado, fim da linha. Como então seguir por dois sem uma medida larga de acreditar? E foi no dia escolhido por ela para sugerir mais estrada e mais amor para os dois, que ele não quis mais ouvir, e contra a parede exigiu dela o tesouro guardado, todo o sentimento, as chaves de ser feliz, mas ela não soube transferir como ele desejava, talvez estivesse na alma, um acreditar de dentro. Ele roubaria aquele amor para negociá-lo, para degustar sob sua escuridão, até que se fizesse luz. Tomou nas mãos a faca com a qual procurou bruscamente o tesouro, no peito, com loucura, onde ela guardava as últimas batidas daquela crença de ser. Tudo profundamente indo, lâmina e intenção. E foi tamanho o susto dele ao deparar-se com o desenho da jovem caída sem vida aos seus pés: onde deveria estar o coração havia um buraco; estava vazio...

Ricardo Fabião (Junho - 2010)

Texto para o desafio de Junho - Fábrica de Letras
Tema: Estava vazio...

junho 16, 2010

Ciclo do esquecimento


Ele simplesmente percebeu que era um hamster. Não foi nada que ingeriu, nem mágica ou pesadelo; era mesmo realidade, beliscada, sentida, a mais cruel e assustadora de acontecer, algo de repente, sem a mínima possibilidade de despertar e de não ser mais. Naquela manhã foi isso, um percebimento do tamanho que pode desviar o destino: acordou dentro da gaiola e descobriu-se outro ser, peludo, dentuço, estranho. E não gostou do cheiro que trazia consigo, nem da cor. Conferiu-se pequeno e gordo. E tinha patas que não condiziam com os caminhos desejados. Não apenas isso, achou-se perdidamente estúpido; afinal, o que pode esperar da vida um rato preso? Revoltado, não comeu a ração, não fez a ginástica na rodinha vermelha e tampouco aproximou-se dos novos brinquedos que chegaram naquele dia. Considerou-os alienadores, destituídos de propósitos edificantes. Caminhou pela gaiola, analisando atentamente os detalhes daquela vida de menos, de vitrina, como é possível ser feliz por tão pouco? Divertir-se a roeduras, girar dentro de uma roda estúpida, subir escadinhas, amontoar-se uns sobre os outros como se fossem roupa suja, quero mais disso que sou. Eu sei agora, despertei e vi muito mais. E ele viu que estava só. E soube da tristeza que era não ver, e doeu pelos outros. Por isso impressionou-se com o grau de alheamento daqueles ratos; como podem ser tão limitados, tão previsíveis? Engasgou de tanto limite. Que verbo vem depois de perceber-se? Procurou um lugar próximo à casinha amarela, no segundo piso da gaiola, que era de luxo, ampla, com vários cômodos, mas há fezes por todos os lados, desabafou impaciente. Deitou-se de barriga para cima, e examinou detalhadamente sua estranheza. Um outro hamster vendo-o realizar aquele movimento desconhecido, decidiu imitá-lo; e não demorado, estavam todos eles de barriga para cima, ausentes de razão, satisfeitos, despreocupados, uma cena de ratos. Essa mania de repetição é insuportável, irritou-se nosso protagonista, afastando-se rapidamente dos demais. Depois vieram as horas. Essa sua conflitante descoberta durou muitos dias, tanto assim à descida de si, que ele não pôde dormir como rato que era, nem como outro que desejava ser. Estava na fronteira da aceitação, um estrangeiro. A lucidez, calculava, só ela o conduziria à liberdade; acordado poderia reorganizar o mundo e suas tristes histórias; abrir as gaiolas para mais sol, fazer calar o discurso das rodinhas, redesenhar as narrativas dos pequenos, dos dominados. E quis muito, com excesso e devaneio. Então ele dormiu cansado de querer isso. E os outros ao seu lado, agora acordados, sabiam, ele é muito jovem, pensa que pode interpor desvios à estrada do mundo. Coisa de quem acende, de quem apaga. Logo acordará faminto como um legítimo hamster, e não dispensará uma boa ração. Depois ele deixa de perceber e vive até o fim do pouco que lhe cabe.

Ricardo Fabião (Junho 2010)

junho 07, 2010

O último colhedor de azuis

Márcio Bernardo levou consigo a mágica de colher azuis e de distribuí-los. 
Foi um grande amigo meu; hoje só viaja. 
Desejo-lhe todo azul de que precisa para o que segue depois do muro. 
A ele ofereço este pequeno conto.


Ele era aquele que decidiu colher os azuis do mundo. Com essa diferença de ser e de arriscar, ele foi por toda vida, e foi o último. E como não houve companhia para este sentir, teve de cumprir sozinho a estranha sina da cor que não sai. O primeiro azul que apanhou estava no sorriso de sua mãe. Era um azul muito por baixo da cor da boca, mas já era o início de sua coleção. E gostou tanto dessa tonalidade que quis para si sorrir sempre, imaginando que tudo que sorri é feito de azul. E foi essa alegria sem medida que o levou aos azuis de outros recantos. A partir do segundo azul, que era o da bola de gude, ele enxergou as estrelas guardadas dentro do vidro redondo, e concluiu que os azuis mais vibrantes dormem nos lugares em que um pé não vai. Guardou então esse cálculo para no futuro somá-lo a tudo, quando saísse a buscar infinitos, sem desconfiar de que essa fundura de azul já estava consigo. No primeiro passeio depois do dia, engarrafou um pouco do céu, que é o azul dos quatro lados; em seguida, o mar, com suas variantes de azul-verde e de azul-cinza; colheu-o cautelosamente com um conta-gotas, pois tem muita água e não cabe levar de tão pesado. Antes haviam dito que o mar não era azul verdadeiro, mas ele constatou que de tanta distância indo, no mais depois, haveria de ser azul só. Recolhidos então aqueles mais abrangentes e de serviço a todos, os outros azuis eram dos olhos, de como eles extraem o mundo para si, de como podem ser generosos ou mesquinhos. E nesse avançar encontrou tipos muito estranhos de azuis; alguns que eram mais disfarce do que cor; outros desciam tanto que desazulavam-se em imensos escuros e medos. Enquanto  isso, os amigos, aqueles que com ele dividiam os azuis do mundo, sabiam que viver de procurar somente azul poderia ser perigoso, pois astúcia e esperteza são tonalidades que simulam azuis para atrair colhedores ingênuos. E disseram do perigo de ir muito lá e da descoloração do tempo, já que o azul tem um tempo de vida determinado pela profundidade de quem vê. Contudo, nosso colhedor, sempre tão resoluto, azulou, azulou, que não cansou da cor e dos planos disso mais. E rumou até o mais viver. Os amores da estrada ele vestiu de azul, o sofrimento, com a mesma intensidade, e aí as intenções e as memórias. E foi isso. No último dia, esse incansável apanhador de cor, em desejo de azul do infinito, quis provocar a alegria mais acesa de um sentir-se, e inebriado com a quantidade de luzes que disso vinha, não apenas da região azulada, mas do cruzamento de todas as suas variantes com lilases, com laranjas e olivas, não calculou a profundidade do passo: e isso foi só despedida... mergulhou. Na mão, o conta-gotas vazio, na estrada interditada alguns tantos sonhos, um corpo no chão, sem ir. Caiu pois do outro lado do muro, do último, sob um silêncio inteiro, de cortar os fios, de alegria ali parada, sem cor que lhe pudesse socorrer. A única possibilidade feliz dessa tristeza foi o encaixe completo dos azuis que faltavam à sua coleção, que agora tinha azuis daqui e azuis de lá. O resto da história é toda de desencaixe: os de cá, de olhos caídos de falta, sem as lições do sorriso e da generosidade, e o abandono dos azuis do mundo, que ainda estão à espera de outro colhedor, e ele foi o último.

Ricardo Fabião (Junho 2010)

(a imagem acima é de Marcelo Bresciani)

maio 31, 2010

Ponte sobre vazios


Para Wilson, meu pai.         

          Ele pensou que havia escolhido o melhor lugar da sala, mas sentou-se justamente onde o olho do desconhecido buscava foco. Desse modo, não houve como evitar o choque entre aqueles caminhos interditados, entre os olhares que não se sabiam ver. Os dois traziam consigo a marca da solidão, o impedimento de ser, por isso não havia palavra ou instante que os ligasse. Ficariam a remoer seus silêncios até que alguém os resgatasse dali.
       O mais velho havia testemunhado um mundo de homens silenciosos, de pouco trato com os sentimentos, e tinha certeza, não morreria de outra causa; essa voz desenhada para baixo daria, dentro de pouco tempo, o último nó em sua respiração. Com as mulheres ele ainda soubera resmungar umas ordens e reclamações. Com os homens, no entanto, ocorrera só o olhar partido ao meio: um olho que via, o outro que desviava para não dar no sentimento.
       O rapaz, como já lhe sabemos a solidão, teve de espelho um mundo semelhante. Tanto silêncio aprendeu que passou a ter receio das palavras. Era como se elas fossem  artigos muito preciosos, e ele não tivesse permissão para manuseá-los. Tinha medo de quebrá-las em pedaços, de repassá-las de modo equivocado àqueles que delas precisassem. E não haveria como reparar os estragos. Preferiu, então, a companhia dos animais do cercado, já que ali seus grunhidos e sussurros eram facilmente decifrados, e poderia exercitar livremente o seu silêncio, sem aquela sensação de queda e de vazio.
      Depois, quando sentados à mesa para o almoço, os meios olhares daqueles desconhecidos repetiram-se, e os silêncios mais incomodaram. Desceram com a comida; mas não totalmente. Uma parte ficou à boca; à espera de uma frase ousada, escapada dos ímpetos, mas nem isso teve força naquela tarde.
      Essa impossibilidade da palavra levava-os a tentar os pensamentos. Certamente lá dentro haveria abrigo e sossego. Puro engano: ali eles continuavam como crianças. E crianças costumam indagar o porquê das coisas; por isso a pergunta sobre o ofício do silêncio não calava. Coçavam os olhos, ajeitavam a gola da camisa, como se assim o incômodo pudesse descer e ser esquecido, mas não passava, e levava consigo a tarde inteira.
      Como se não bastasse o engasgo desse caminho que não ia, o mais velho estava especialmente irritado por ficar tantas horas longe de casa. Necessitava do seu lugar; de ruminar seus silêncios; ficava de transformá-los em velhos conhecidos. Era como rumava com suas manhãs adiante. Assim não demorou a implorar que levassem-no de volta. Na saída, sua esposa pediu a ele que fosse falar com o filho.
      Ele aproximou-se do rapaz, estendendo-lhe a mão. Naquele simples gesto iam todas as palavras não mencionadas; todos os sentimentos evitados, o medo de ser homem e de ser por isso sozinho, a estupidez, a ignorância, todos os pedidos de perdão, e aquele quase olhar, superficial lá fora, mas profundo por dentro, de quem não possui as medidas adequadas, mas sabe amar alheiamente. O rapaz devolveu o gesto de mesmo silêncio, de mesma dor e quase olhar, e não soube ser mais que isso. Selaram com esse instante o respeito aos próprios limites, cientes de que entendiam-se sem palavras e justificativas. Uma ponte sobre vazios.
      Depois ficou o sol a deitar seu último horário sobre o relevo da tarde. Maior que isso, porém, era aquele insustentável nó que eles traziam consigo desde a infância. E essa era a única estrada que eles sabiam.

Ricardo Fabião (maio 2010)

Texto para o desafio de Junho - Fábrica de Letras
Tema: "Estava vazio..."

maio 29, 2010

Fotografia


perder ouvidos no mundo,
vestir de coisas os olhos,
tocar o fundo da alma,
tragar as frases caladas,
mexer com idas e vindas,
verter em dados os dias,
descer aos poços do nexo,
trilhar os becos da fala,
dizer mil planos do nada,
sugar as cores de tudo,
ouvir os verbos do cheiro,
queimar na língua o enredo,
roçar as vozes do tempo,
absorver estranhezas,
saborear reticências,
comensurar silêncios,
desvirtuar o sentido,
descabelar o tecido,
redesenhar o já dito,
desviar,
desvelar,
desnivelar,
Ler.

Ricardo Fabião

maio 22, 2010

Retorno

       
     
      Ela tratou, primeiro, de ir buscar sua vida por baixo da textura do dia, pois para cantar não lhe bastavam cordas vocais e respiração; necessitava, sobretudo, de algo que viesse colocar-se como fundo do olhar, para que de fato houvesse música e sentimento. Nunca cantava só a palavra; varria o mundo de dentro para interpretar o sentido de viver; algo que ateasse fogo na voz, um jorro de sensações, a paixão de ser por isso.
      Contudo, nem sempre se pode filtrar o que é puxado de uma escuridão, sobretudo, quando se trata da própria alma. E nisso vieram alguns sentimentos calados até o lá fora da noite; algumas dezenas de verdades ditas em avesso, outros terríveis enganos, abafados, e aquela saudade, a pior de todas: a saudade de não ter sido.
      Ao cantar, percebeu que só iria adiante se antes retornasse e curasse aquele machucado de vida deixado para trás, um caminho quebrado. E sob os cálculos dessa impossibilidade, mais silêncio caiu sobre tudo. 
      Ela sabia. Não havia música lá fora que chegasse tão dentro para um alívio; precisaria de todas as canções, milhões delas, e que juntas suplicassem todas as chances e  retornos, e que ficassem tomando o chão da madrugada, de muitas. E ainda que houvesse essa ajuda, não havia garantias de que conseguiria colar no ponto certo a vida que se partira profundamente. Foi o que interpretou naquele tango e tremor: o remorso de ter-se ausentado de si mesma, de ter negligenciado tão sagrada paixão.
      A música terminou e ela era mais uma vez sozinha e lá fora; e todo aquele sentimento visitado voltou para o lugar de dentro, camuflado. Estava instituído: no ponto em que se mantinha aquela saudade nada a resgataria. Por mais que ela insistisse em seus retornos, jamais saberia a porta certa de abrir, o jeito assim de rever.
      Permaneceria, pois, aquela dor calada, uma porção vazia, servindo de chão para o pouco dela que seguia naquele tanto que voltava.

Ricardo Fabião (maio - 2010)

Texto para o desafio de maio - Fábrica de Letras
Tema: paixão
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      A intenção primeira era fazer uma homenagem a Carlos Gardel, um dos autores da canção interpretada abaixo. A personagem original do conto era um cantor de tangos, mas apareceu Penelope Cruz, suscitando um fundo diferente ao que eu havia projetado. O vídeo faz parte do filme "Volver", de Pedro Almodóvar, cineasta espanhol.

    


maio 18, 2010

"Blog de Ouro"


Recebi este selo da Renata, do blogue "O passar dos dias". Devo então, responder algumas perguntas, e indicar outros 10 (dez) blogues para recebimento do mesmo.

Primeiramente as perguntas e respostas:

1 - Por que acho que mereci o prêmio?

Às vezes uma palavra dos escritos brinca com o leitor. Eles costumam fazer isso muito secretamente, cada leitor com seu punhado de palavras colhidas, e a seu modo, sem a participação do autor. Nessas fugas, eles terminam por criar intimidade e respeito mútuo. Talvez eu tenha escrito algumas dessas palavras; ou seja, aqui possivelmente tenham havido encontros siginificativos, verdadeiros, certamente mundos foram criados, e provavelmente eternizados. São apenas suposições. A melhor resposta detêm as palavras e os leitores.

2- Na minha opinião, qual post do blog é o que mais merece receber este selo?

Gosto de todos sob diferentes circunstâncias; mas tenho um carinho especial por "Afluente", de um modo mais poético, e "Janela para vazios", de modo mais estrutural; estes são poemas. Quanto aos contos, gosto especialmente de "Estranheza". Mas isso é mera opinião de autor. 

3 - Do blog que me indicou, o que mais me agrada? Ele mereceu este prêmio? 

Além de ser uma escritora talentosa, Renata é uma pessoa sensível e generosa. Pode parecer estranho essa afirmação partir de alguém que não a conhece pessoalmente, mas o que está em seus escritos é tão verdadeiro e profundo, que ao lermos, podemos colher junto sua essência; de modo que não há apenas palavras em suas frases, ali encontramos o seu mundo, do qual, com meu olhar de colega e admirador, sou frequentador assíduo. 

Abaixo, os blogues que indico:


sem mais...
Ricardo Fabião

maio 16, 2010

O zelador de morangos

          
          Não adiantou educá-la como se a vida fosse apenas um quadrado, como se o fio que costura uma personalidade obedecesse a padrões e tesouras. Desde muito cedo passaram-lhe a ideia de um mundo programado, estudado, mas Elisa não quis esse desenho para o caminho. Havia muita vida para queimar, e um quadrado não acenderia tanto fogo.
         A mãe era aquela a quem a perfeição vestiu com todas as medidas: sabia as regras de mesa, de sala, de quarto, e sempre que punha os pés fora de casa demonstrava como era seu esse papel de mulher em 1953. O pai era o senhor com óculos de grau para os quatro lados do controle e da continuidade; o mundo estava ali para que pudesses servir de passarela; e sobre esta ele desfilaria com sua família, triunfante de ter conseguido ser em vida a cópia fiel do seu pai.
        Juntos, naquele instante de Campinas, eles eram a família que dava certo levar adiante: nenhuma mácula no passado, nenhuma possibilidade de desvio no futuro. Mas Elisa sabia que muitas estradas abrem-se em “Y”. Assim enxergava a dela; e por mais que seus pais não quisessem, ela pegaria o lado oposto da história, e ainda contaria tudo de maneira diferente aos que a vissem passar. Uma trajetória de mais esquinas.
         Começou dias antes, ali, sob calor dos seus limites. Ela apenas olhou, e aquele moço, a quem todos chamavam ‘o crioulo, filho de seu José da quitanda’, ofereceu-lhe um tomate. Ora, o que vale um tomate quando aos quatorze tudo que se quer é ter mais mãos para chegar aos pontos certos? Pode tudo; ela compreendeu seu gesto. E ele foi tão silencioso, e apenas sorridente, que ela percebeu como era suave sua verdade, diferente do passo arrogante dos seus amigos do colégio. Decidiu então pousar os sonhos naquela fresta de felicidade que se abria na esquina. Quanto às cores que separavam aqueles mundos, ela passaria a borracha que estava em seu estojo. Tudo muito simples, próximo e possível, como deduzem os apaixonados.
         Ela mudou o caminho de casa por essa esperança de amor. Agora, com três ruas de acréscimo, na volta da manhã, demorava dez minutos a mais para colher o olhar do rapazote. Ele aproximava-se lentamente, mas trazia tantos olhos em troca, que ofuscava o movimento ao redor dela; de modo que eles ficavam órfãos de chão e de horas. Às vezes ele trazia consigo uma goiaba, um pêssego, uma maçã; estendia-lhe a mão, e ela apanhava também um pouco do carinho guardado na timidez do seu sorriso. No dia, enfim, dos três morangos presenteados, o rapaz juntou também coragem e revelou Antônio por seu nome. Depois, partilhando um pouco do que sabia, falou do cultivo dos morangos, desde a semeadura até a colheita, e do zelo que tinha por eles. Aguardava-lhes o aparecimento do broto, o surgimento das flores, enfim, a chuva vermelha dos frutos sobre os setembros e dezembros do campo. Ela apanhou tudo isso e correu para casa.
         Depois do jantar, naquele dia do nome dele, ela foi para o seu quarto, e no caderno pôs em códigos a paixão que aprendeu na quitanda. Uma letra “A” na primeira folha, para que fosse a porta, e na última o seu “E”, porque fecharia a história aos demais; depois, os corações pintados de vermelho, desenhou-os no alto de todas as páginas. Só ela saberia a multiplicação disso vezes porta, vezes intensidade, vezes o mundo depois; só ela confiaria o destino todo a um sentimento recheado de diferenças e morangos. Dormiu calculando que Antônio era o ponto final dos seus desejos; e com essa impressão vieram outras noites e frutas.
         Logo o senhor de óculos descobriu, impugnou, esbravejou, e teve início de ataque cardíaco, mas houve aquela pílula para a solução de tudo; a senhora da perfeição, fazendo jus às suas medidas, calou-se, consolou a adolescente; recolheu as cascas das frutas dentro do guarda-roupa da jovem e pôs tudo no lixo; e não poupou os corações pintados de vermelho.
         E todo aquele sonho pousado na fresta, e a porta, e as letras, e a história de ser diferente, ela mesma apagou quando conheceu Jonas, meses depois. E casou três anos mais tarde com as medidas trazidas por este moço: boa família, branco de pele e um futuro que já estava no caminho; e ele não pegava em fruta, muito menos em verdura, coisa de cozinha e de mulher. Elisa aprendeu a perfeição da mãe, mas algo nunca coube nesta contenção: sua incontrolável paixão por morangos.

Ricardo Fabião (maio - 2010)

Texto para o desafio de maio - Fábrica de Letras
Tema: paixão.

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