agosto 02, 2010

A estrela que não está lá


Antes não havia desejo, só o brilho. O desejo ela inventou quando quis ser luz de outros lugares, que brilhar de fogo por dentro era coisa muito só e sem razão. E como não havia escada para descer do alto do céu, nem avião que passasse naquele lugar depois de tudo, ela, a estrela distante, decidiu descer por meio de sua própria luz, que era muito rápida e acendia mais longe do que todas as coisas que iam. E foi com esse desejo que se deu sua viagem no nada, a primeira ida e a última. E com sede de mundo ela desceu pelos raios luminosos. Então começou a contagem acelerada dos anos-luz, estrada de vida e de morte, onde, quanto mais luz se deixa aos do caminho, menos se guarda para si; um deslizar para o próprio aniquilamento, um esvair-se que ela realizou com calor e intensidade. Seu destino era então encontrar um olho que desse com sua luz, alguém que lhe atestasse a existência, que a entendesse por estrela, e que depois uma estrada que não fosse solidão se estendesse aos dois, uma longa viagem. Entretanto, curiosamente, de tanta distância que alcança uma luz, alheia ao tempo que leva disso, torna-se impossível manter-se inteira na fonte, porque no cálculo espaço vezes tempo isso lá atrás já foi, passou, apagou-se, esfriou eternamente. E foi assim tão longe quando chocou-se com o primeiro olhar humano, e tanta queima levou de si, que a estrela já não era de fato um corpo na base, mas apenas uma trajetória iluminada, uma memória acesa, uma decoração de noite sem lua. E não houve mais contato com o lugar do alto do céu de onde saiu, nenhuma mensagem do mundo de antes, que era só brilho; não voltou, pois, para envelhecer consigo. Morreu a caminho de outro olho mais distante; não chegou. Mantinha-se agora no alto do nada mais azul distante como pontinho luminoso; contudo, já não estava lá. Havia utilizado ingenuamente todas as lâmpadas do seu estoque para clarear a escuridão dos olhares do caminho. E isso não foi suficiente.

Ricardo Fabião (Julho - 2010)

Texto para o desafio de Julho - Fábrica de Letras
Tema: "Uma longa viagem..."

Imagem: "Lost Star"
Página: http://paolodomeniconi.blogspot.com/

17 comentários:

  1. Talvez não tenha conseguido salvar-se ao utilizar todas as estrelas da sua vida, mas fez a mais longa, e bela viagem de descoberta do seu existir.
    Valeu a pena? Claro que sim! Sempre. No fundo tudo é efémero e é melhor viver uma aventura do que nunca viver.
    Parabéns pela história. Parabéns pela qualidade linguística e literária.

    :)

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  2. Deixa-se de existir enquanto corpo, ficando apenas o encantamento da trajetória. Linda história!

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  3. Fico muito grato em ter a sua presença entre os seguidores do meu blog. Estarei acompanhando cada postagem sua a partir de agora, pois seu blog já está na minha página principal.

    Boas curvas para você! kkkkkkkkkk....

    Abraços!

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  4. Que lindo, Ricardo. E triste, também. Como as estrelas sabem ser, dependendo dos olhos que as enxergam.

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  5. Bonita história... como diz a Natália vale sempre a pena viver... bjs

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  6. Uma viagem super interessante. Gostei.
    Sempre temos nosas formas de viajar. Carregamos nossas malas de belos e bons fluidos.
    Uma longa e bela viagem. além de ser um pouquinho Longa não é mesmo. Nossas viagem de diversas maneiras. Também estou participando. Interação de amigos juntos nessa longa viagem.
    http://sandrarandrade7.blogspot.com/
    Um grande abraço,
    sandra

    O mundo tem suas diversas maneiras de viajarmos.
    Vamos nessa..
    Carinhosamente,
    Sandra

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  7. Como sempre, uma história linda. Beijinhos

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  8. "... destino era então encontrar um olho que desse com sua luz, alguém que lhe atestasse a existência, que lhe entendesse por estrela, e que depois uma estrada que não fosse solidão se estendesse aos dois, uma longa viagem..." (a linguagem que vc usou lembrou-me Asas do Desejo, meu fillme favorito)
    derrapo sempre nas curvas das tuas palavras. Gosto desses deslises e perigos... Você brinca, meu caro.
    Há que publicar livros e se já o fez, por favor, diga-me onde adquiri-los.
    grande abraço

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  9. Ricardo, belas palavras aqui empregadas e em também no gentil comentário que acabo de receber no InterTextual. Espero novas palavras aqui e lá. Em suma: espero por você nos dois lugares.
    Um abraço forte.
    Marcio.

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  10. Ricardo... gostei muito daqui :)
    Tô te seguindo, tá?!
    Bjão e um ótimo sábado prá ti :)

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  11. Tenho lido os seus textos desde que descobri a Fábrica.Fico sempre emocionada.Que bem que você escreve!Os seus textos não são de amador, mas de talentoso escritor. Claro que aproveitei para ler outras postagens suas.Parabéns!

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  12. Ler este texto me fez lembrar as borboletas. Depois que as lagartas criam asas elas só duram 24 horas (dizem). Triste, mas é um belo existir.
    Abraços.

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  13. Não é um escritor qualquer... sabe o que escreve e como escreve... gostei muito.
    Vou passar a segui-lo, posso?!

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  14. Exactamente como tudo o que é bom na vida parece assemelhar-se à velocidade da luz que de tão rápido que é parece que já foi...

    bj

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  15. realmente luminoso esse texto.

    preciso vir mais aqui.

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  16. A busca pela razão de ser... onde só o que importa é a propia busca, e não a razão de ser ...

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  17. Amei o texto , muito rico em sentimento....parabéns.

    Sandra Matos

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