agosto 11, 2010

Estranheza

Pode o autor ter predileção por alguns de seus textos?
Se me for dado tal direito, eis abaixo um deles.



A Victória, minha filha,
pela diferença que nos uniu
em tudo eternamente.

         Zafina sofria de esquisitice, de estranheza completa, um desajuste brabo, tão assim sem remédio que nem sete rezas em noite de lua cheia deram jeito; recomendaram em vão. E como não havia nome para o mal, nem tolerância à diferença, ela tornou-se a aluada da cidade, a desandada, uma tristeza. Como resposta, a garota apenas olhava, sorria inocentemente, mas adentrava o pensamento dos curiosos, invadia falsas verdades, desvendava intenções ainda na alma.
         Estranho. Assustador. E não havia quem pudesse com o peso daquele olhar, tanto que desde o nascimento negaram-lhe qualquer possibilidade de afeto. E ela, algo assim calada, parada diante das paredes, olhava-as demoradamente, quase aos sorrisos, como se naquele vazio encontrasse uma saída para o seu descompasso. E foi por medo, por temer a escuridão encontrada na alma das pessoas, que decidiu não mais falar.
         Havia começado as letras mas nada escreveu em cinco anos de chance. Sua única produção estudantil foi o desenho em que rabiscou uma família feliz: uma mãe que ama a filha, um pai, um irmão, e todos no mesmo amor com um sol lá em cima para todo sempre. Mas dinheiro gasto exige algo em troca, evolução, e tiraram-na do colégio: num dia estava lá, no outro, trancada em seu quarto.
        A natureza tem dessas invenções, alguém tinha de ser Zafina e a pequena foi justamente nascer assim. A família estranhou. O que é isso? Bem, aparece uma em cem milhões, o médico do posto de saúde foi categórico, mas dá para aguentar, não morde, não contagia, e não mata, apenas é esquisita. De que jeito, doutor? Segundo minha experiência, ela não se irrita, não deseja o mal, possui todas as virtudes; tudo que faz e gosta e sabe é olhar, muito lá dentro, no viés da alma, nas curvas, e descobre suas imperfeições e relevos; é difícil de aceitar, suponho, mas ela possui também habilidade para amar incondicionalmente; isso talvez amenize o pesar da moléstia. Ameniza nada, estamos convencidos, ela é realmente estranha, somos uma família tradicional, não podemos com tamanha aberração. Como alguém pode apenas olhar, amar e lidar com a verdade? É muito pouco para ser humano legítimo, não sobrevive, não dá certo no caminho, sou mãe preocupada. E a sociedade?
        Decidiram então manter Zafina em casa, sob eterna vigília, quarto separado, remédio controlado, alarme para entrar e sair, o amor é perigoso, ninguém sabe que rumo toma; os talheres foram marcados, a lavagem de sua roupa feita em outro tanque, a doença é rara, sabe-se pouco sobre contágio e tratamento, somos uma família que não arrisca desvios de conduta, há um brasão sobre nossas cabeças, a mãe repetia, mas veja, ninguém é desumano, aqui ela é bem tratada, há um rádio para distrair, sufoco, Zafina cresceu. A serenidade permaneceu, o olhar firme, perfurador, o sorriso e a clarividência, e isso incomodava os mais próximos, que eram, no mínimo, distantes. Um abismo para os dois lados, e o tempo foi junto a cair.
        Ela tinha vinte e três quando o irmão visitou seu quarto numa certa manhã. Ele todo sorriso, quer ver como é o mundo? Zafina toda esperança e feliz, com palavras ditas para dentro, só de olhares, vou ver como é o sol do longe, conhecer o mar, talvez um vestido novo, tomar sorvete, pensamentos. Sim, você vai ser livre, o irmão foi convincente, tinha de ser, havia projetos na cabeça, grandes segredos, um circo, uma atração assim “o olhar que tudo vê”, sucesso, dinheiro, é só esperar. Você trabalha para mim, eu cavo sua liberdade. Combinado. Mãe, eu levo Zafina para morar comigo, lugar distante, não voltaremos, a razão ele omitiu, não se preocupe, melhor assim, ficaremos livres dessa aberração. Por favor, esqueça que somos mãe e pai.
        E aconteceu: um trem, uma estação, um rosto virado de pai, uma boca torta de mãe, uma lama de primavera chuvosa, um rádio apertado nas mãos, um olhar a mais, um amor a menos, abortado, já sai, já foi, depois uma porta, um vagão, os trilhos e a manhã gelada. Os acenos espalhafatosos jogados por Zafina ricocheteavam na frieza do casal estacionado na estação, silenciosamente satisfeito por despachar um incômodo de duas décadas. Fizemos nossa parte, vamos para casa. Voltaram ao resto da manhã, uma cena muda, que era o início do vazio que guiaria suas vidas adiante.
        Era então um terço da viagem quando ele reparou nos olhos da irmã. Não nos conhecemos. Como é apenas olhar? Não responderás, eu sei. De que lugar vieste assim tão diferente? Segundo o que aprendeu, ela era perigosa, um castigo, aquela que jogou o nome da família no ralo, tanto que durante toda sua vida ele tratou de não entendê-la como irmã. Ela, alheia à inquietude daqueles questionamentos, só sabia a felicidade que era o chocolate em suas mãos. Não media a dor do passo que ia na direção contrária das coisas, por isso sorria para o desenho apressado das montanhas no lá fora, para o tamanho do céu, e escutava mais alto o mundo que só ela entendia. Tinha lindos olhos, o que haveria de errado com eles?
        Aquela jovem mantinha o rádio no colo como quem tem as chaves que abrem a alegria da vida inteira, seu único companheiro até ali. Ele pousou o olhar sobre essa cena, o que fizemos a ti, minha irmã? Zafina continuava de sorrisos, indiferente ao derretimento de sua vida, do chocolate, a sujar-lhe as mãos, o destino, deixada de qualquer jeito ao pé do instante seguinte; não era deste mundo, era feliz de não saber que seria infeliz se soubesse como era ser. Então algo revirou dentro dele, uma náusea, uma saudade de algo que não conhecera, coisas que iam e voltavam, talvez o engasgo a tomar outro caminho, tornando-se respiração livre, portões que se abriram, água jorrada depois de represada, inundação. Ela virou-se para ele, os olhares bateram-se demoradamente, um minuto eterno, e ela não disse, que não precisou, e ele ouviu tudo, paralisado entre contemplar e lamentar, por ela e por ele, pelo mundo, esse engasgo todo, pelo abismo e pela falta de acesso. Tudo ele diria se soubesse, mas palavras são instrumentos de uso complicado, e, recém-chegado de um longo silêncio, só coube na voz olhar, doer, olhar. E isso levou muito mais alma que morrer.
        Enxergar-se foi caminho que ele não soube administrar para um depois. Acostumara-se desde menino às meias verdades de sua família; de modo que uma verdade inteira foi clareza demais, desencadeou sensações controversas, interditou seus planos, teria que improvisar um desvio.
        Horas depois, a irmã dormia dentro do vagão gelado, com seu sonho de azul e calor, distante consigo só. Apenas uma incerteza de madrugada chamava por ele lá fora. Desceu na estação seguinte. Duas malas estavam ao seu lado quando o remorso o tomou para sempre. O trem partiu lentamente, fazendo curvas e buracos naquele resto de noite. Deixou ali o cinza-escuro do impasse e o homem da lágrima silenciosa.
        Zafina acordou. Levantou-se. Isso foi quando o movimento da janela mostrou-lhe como era calada e triste uma imagem de irmão deixada para trás. Sentou-se. Sorriu alheia, sem cálculos, sem destino. Ligou o rádio. Comeu outro chocolate perto da manhã.

Ricardo Fabião (Julho, 2007)

17 comentários:

  1. Bem, a julgar pela qualidade, sensibilidade e cuidado desse texto, tão denso em suas elipses poéticas, a sua predileção parece justificada.

    Abraço.

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  2. Meu caro, fiquei com a impressão de já o ter lido nalgum momento destas minhas visitas a seu blog. De qualquer forma, um belo texto: linear e leve, que nos traz certa comoção.
    Grande abraço,

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  3. Ricardo, bem vindo ao minhavozmeucaminho. Obrigado por manter aberto o olhar, livre e atento. Que o experimentar nos guie, a ti e a mim, sempre.

    Bem, sobre o texto só posso dizer que, além de tirar o fôlego me fez chorar.
    Sinto que as famílias são uma bênção, mas nem sempre somos entendidos, passamos por estranhos, meias verdades, meias mentiras e se tornam maldições, mas nos libertamos, sempre.
    Abraço forte, te sigoa partir de agora e retorno, aos poucos, a te ler.

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  4. Ricardo, comigo também occore isso. Tenho textos que são meus xodós...rs
    As vezes, ao lê-los, custa-me a crer ser eu a autora...rs


    Quanto ao seu texto, é cortante a forma como se desenrola o enredo, e as palavras vão perfurando nossa alma, diante de tanta melacolia...

    Beijos meus"

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  5. Família, meu amigo; faca de dois gumes amolada pela pedra da conveniência. Seu texto me deixou triste e me fez recordar que situações como essas são rotineiras, porém opacas aos nossos olhos dirigidos. Mas concluí a leitura com a alegria de quem pode ter acesso aos seus escritos.
    Obrigado por me privilegiar com sua obra, Ricardo.
    Um abraço.

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  6. Sinceramente, obrigada. Tem coisas que não acontecem por acaso, eu hoje precisava ler você, precisava exatamente desse texto.

    Que bom é saber que existe tamanha sensibilidade em alguém. Cada imagem, cada corte, cada sensação desse texto me trouxe clara uma atmosfera na qual estou inserida.

    Muito, muito obrigada mesmo por ter sido capaz de escrever algo tão genial, sutil e verídico.

    Beijos,

    Jessie.

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  7. Ricardo, teu texto é muito bem realizado. Um ser como Zafina é um espelho que reflete toda a falta de amor e egoísmo de que é capaz um ser humano. "Enxergar-se foi um caminho que ele não soube administrar para depois".

    bj

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  8. Não é de ser surpreender que seja um dos seus favoritos!
    Abraços, Ricardo!
    Caju

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  9. Ricardo,

    Há mt não lia algo tão comovente.
    Parabéns

    Bjinho

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  10. Que maravilha ler este texto pela manhã...
    Infelizmente... é uma realidade dolorosa. E você transporta-a para uma escrita, poética e quase profética.
    Maravilhoso sua forma de escrever.

    SC

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  11. Só uma palavra me sai depois de toda essa reflexão..

    'Vida'..

    Me lembrei de uma música de Maria Rita..

    enfim, gostei.

    Abraços..
    Poetíssima#

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  12. Por onde anda voce, moço?

    Beijos e saudades!

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  13. Quando eu crescer eu quero escrever igualzinho a vc rsrsrsrsrs...Muito bom o seu texto! Leve, singelo e, ao mesmo tempo, poético e profundo. Como vc consegue essa fusão?! Coisa de artista neh?!

    Parabéns amigo...

    abraços...

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  14. Um texto único feito num momento de pura inspiração.
    Não admira ser o eleito.

    Beijinhos

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  15. Ricardo lindo Texto. E sua dedicatória explendida. Estou lendo por pura curiosidade:
    Marie Von Ebner - Eschenbach - 1830-1916.
    E, fico a imaginar ela com a gente hoje nos ensinando sobre sua coragem, ousadia num tempo onde mulher era para 'uso'.Agumas frases dela (que até precisou usar nome de homem para que seus çivros fossem escritos).
    Infância e Dado biográficos - Marie Von Ebner -Eschenbach:
    já está em idade avançada, quando ela começou a escrever durante uma visita a Roma, em sua infância. Ela descreve seu entorno, as condições sociais e políticos na lenta liberalização Áustria, a atmosfera em casa, que foi marcado pelo Iluminismo e seus ideais humanos. O livro é escrito a partir da perspectiva da menina. Lembra que vou ser estritamente realizado (ou seja, não ajustada também) com o conhecimento da sua idade. As memórias começam com a morte da mãe biológica, como resultado de seu nascimento e termina com a morte de sua avó, enquanto o final da infância (com a idade de 14 anos). Além de sua gente importante (geralmente feminino) e os "terríveis, querido papa bom" (Franz von Dubsky), eventos e experiências é particularmente despertou seu desejo inicial de se tornar um poeta no foco de suas narrativas. A biblioteca da avó falecida herdado é um santuário da menina - ela enterra-se em "Os habitantes da estante e ler principalmente em alemão, não no idioma francês de sua infância.
    Ebner-Eschenbach está trabalhando dois anos (1903-1905) para a infância ". Ela está no auge de seu sucesso, mas teve de enfrentar em 1890 uma série de contratempos: a morte de seu marido, Moritz von Ebner-Eschenbach e as vidas de seus amigos Betty Paoli e Ida Fleischl-Marxow. O texto aparece em 1905, primeiro em quatro parcelas no "Deutsche Rundschau" e de 1906 em diversas edições. Na frente feminista, o livro é considerado como uma expressão de uma luta inicial para individualização do sexo feminino, a criação artística ea criação de um espaço privado.
    E. Nasceu em Castelo Zdislawitz em Kromeriz na Morávia, parte de pai, ela é uma velha nobreza católica da Boêmia, de uma mãe-saxão família protestante. Sua mãe morreu logo após seu nascimento e sua madrasta primeiro, eles perdem por sete anos. Segundo a madrasta, a Condessa Xaverine Kolowrat Krakowsky, promove Maries talento literário. Aos 18 anos, ela se casou com seu primo Moritz von Ebner-Eschenbach, que é também o seu apoio desejo literário. Bruck mudou-se para o Mosteiro (perto de Znojmo). 1856 m. atrai v. E.-E. definitivamente para Viena. Primeiro, eles tentaram, sem sucesso como escritor de teatro. Não foi até 1876 com a cópia antes da novela curta "Bozena", no "Deutsche Rundschau" começa a aparecer, o seu sucesso - numerosos romances, contos e aforismos, e justificar a sua reputação como um dos mais bem sucedidos escritores de língua alemã. Ela está agora se concentrando em seus poemas narrativos, que se referem à qualidade e à participação social, mas também uma expressão de consciência política afiado. Desde 1890, ela também descobre as suas próprias histórias com o diálogo eo estilo dramático está listada em Berlim, com grande sucesso. Após a morte de seu marido 1898 ela está tendo a Itália a 1905, várias viagens. 1899, ela foi a primeira mulher, a Medalha austríaca de Artes e Ciências e em 1900 um doutoramento honoris causa conferido dignidade da Universidade de Viena.
    Com amor e carinho,
    Sílvia
    PS.:Domingo fiz um novo Texto "Meus Segredos" e, se desejar, gostaria de que lá fosse para me deixar um retalho sobre.

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