setembro 19, 2010

Depois do escuro das coisas


Aquela criança era da parte mais oeste que se imaginava quando alguém dizia medo; e era moradora desse lugar que não constava no mapa, que nem mapa havia, nem mesmo desenhista, um quase existir, que não crescia e não diminuía, só havia com seu tamanho entre os quatro limites, e era o começo de tudo. E ninguém ali tinha coragem de aventurar um só pé mais oeste depois disso, porque haviam dito que indo para lá dormia o sol, e deveria ser mais quente que qualquer coisa mais reluzente de se conseguir ver. E por ser o lugar do seu descanso, um ninho aceso no meio das encostas, assim com tanto amarelo, o sol fatalmente sugaria as outras cores para dentro de si. Não cabia nem pensar nesse destino de uma cor só; melhor era ter medo, para ser mais do sossego que reside em não saber. Os habitantes desse receio, por isso, com o oeste do mais assustador de imaginar, gostavam de pintar o sol nas paredes, do modo mais intenso do seu arco diário, temendo que o astro pudesse morrer para sempre de tanto oeste que repetia no passo do céu e ser por isso esquecido. Ali, o sol era a presença maior, e sem esse entendimento não havia seguir. E todos cultivavam esse cuidado só de calcular que o medo pudesse ser maior que a noite, que já levava muito horário com o azul apagado. A menina, no entanto, mais curiosa que a razão de ser do mais oeste do mundo, resolveu seguir o sol para saber onde ele fingia que morria antes do escuro. E correu sem saber e muito, acompanhando o fio da luz caída, que de tanta natureza só sabia o destino inatingível de oeste. E porque era imensa a bola brilhante, assim deveria ser o ninho em que ela deitava a gerar o dia de outras vilas sem luz. Logo a grandeza seria notada. Mas a menina cansou de tanto que não achou sol naquela largura de noite, e dormiu por cima de uns escuros que encontrou no caminho. Até que veio do leste a primeira luz de sempre. E desse lugar alheio, a menina entendeu que todo leste, por mais imaginado que seja, tem um sol de nascença, e todo oeste, por mais lá indo longe de tudo, leva consigo o sol para o seu depois. E ela ficou feliz de perceber assim o sempre das coisas. Enfim, a distância do escuro do céu foi vencida. E foi por saber mais do oeste que a vila soube das horas que chegavam do leste, um ciclo, e que não havia cansaço em repetir-se. Depois, os habitantes marcaram o dia como tempo de viver, e passaram a ser assim, como se fossem livres. E porque ainda era início todos aprenderam. Então o sol passou a ser somente a bola curiosa que dizia os horários, com direito a uma morte de estrela no dia do seu último escuro. O que não se sabe, o caminho mais alheio, onde as luzes oscilam sem horas e datas, permanece dentro do homem, sem solução.

Ricardo Fabião (Setembro - 2010)

Texto para o desafio de Setembro - Fábrica de Letras
Tema: Livre

12 comentários:

  1. Fazia tempo que não havia uma atualização por aqui. Felizmente voltou com o pé direito! Grande abraço, Ricardo!
    Caju.

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  2. Um bom conto, meu caro. Criatividade interessante... Boa metáfora. Gostei!
    Grande abraço,

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  3. Um lindo conto de denso sentido, um olhar interessante para os "não se sabe" do homem. Gostei muito e gostei demais da menina que venceu o medo por ser mais curiosa do que medrosa e foi descobrir o ninho do sol, onde ele fingia que morria antes do escuro. Encantador... um conto delicioso de se ler.
    Parabéns.
    Beijokas.

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  4. Lindo! A curiosidade e coragem libertam, descobrem, desvendam, criam.

    Boa semana.

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  5. Já tinha saudades dos seus textos sempre cheios de significado e beleza.
    A procura e a descoberta, permanecem sempre em nós.
    Felizes os que alcançam o Sol.

    Beijinhos

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  6. beleza
    estou sempre atento à poesia de sua prosa
    abraços

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  7. Os seus textos são sempre belos, profundos, artísticos.Trata a palavra com o à vontade de um artista com um estilo rico e muito pessoal.Parabéns.

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  8. Coisa mais linda esse texto Ricardo...Esse sol que nasce e morre a todo instante como a gente mesmo...essa menina curiosa a descobrir...Beijos

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  9. Os seus contos têm o sol em todas as suas palavras.
    É sempre um prazer enorme ler o que escreve.

    Bj

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  10. Lindo, Ricardo!!!!!

    A vida, incerta, segue vigiada pelo tempo... Por entre a luz e a escuridão.

    Beijo,
    Ane

    P.S.: Obrigada pelo comentário! Tu és tão sensível quanto eu, querido, pois consegues transformar tua sensibilidade numa prosa poética encantadora! É um pecado não teres tempo para nos presentear com tuas sempre belas palavras!

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  11. Ao ler o seu conto lembrei-me da "alegoria da caverna"... Temos sempre medo do que não conhecemos e quando temos a verdade à nossa frente a nossa mente não quer acreditar no que vê. Habituou-se às fantasias criadas por ela (que são realidades para quem não vê além das sombras da caverna)...

    Gostei muito. Parabéns

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  12. Ricardo Querido, coisa boa é ve-lo voltar a interagir e contar 'contos' para nós. Obrigada pelo aprendizado. Poste mais por favor!
    E, também obrigada pelo lindo retalho lá na minha Casa. Sabe eu também andei ausente por um pouco. E, até no Mínimo parei de postar por puro desãnimo. Será que por estarmos tão perto das eleições as pessoas preferem assobiar, olhar para cima e só navegarem em brincadeira, ironias para não enfrentarem a seriedade do contexto atual? Veja lá na Minha Casa todas as Postagem no Mínimo. Comentários? 2 ou 3 no máximo. Mas quando alguém faz uma piadinha engraçada ou coloca uma foto e pede para que você diga algo sobre, são 15 ou mais comentários. E, o
    Flávio Pitichini do blog Artenasveias, fez uma linda postagem informando o quanto se está emburrecendo...Ele diz assim:
    "Estou de saco cheio de carne podre nas prateleiras
    Neste mercado da vida tem produtos perecendo
    E não há inspetor suficiente para controlar o caos
    A putrefação tomou conta da humana poesia

    Tenho pena dos feridos da gangrena do ódio
    Tenho lástima dos que vão à missa sem pecados
    Não tenho compaixão pelos infames que amam só de pau duro.
    Cuspo na cara do poema que fede a palavras vazias

    Acabou senhores! O Poeta está sujo e imundo como todos.
    A pestilência tomou conta das saudades e no seu lugar ficou um copo quebrado com gotas de sangue
    Agora é o tempo das desertas miradas e nas miragens só aparecem anjos mutilados de amor
    Acabou senhores! A poesia está corrompida pelas almas obsessas e vomita cacos de vidro no jardim da suas casas, coloquem seus coturnos!
    FDP – 21 – 09 - 10 "
    E, quando eu coloquei sobre meu desãnimo em postar conteúdo e 'perceber' que no atual contexto as pessoas preferem 'brincar', ele me postou (está lá na minha Casa- Preciso de um tempo...), para eu não parar não, mas continuar...E, por e-mail ele me explicou o porquê, que é bem parecido com seu retalho para mim deixado. Obrigada querido amigo. amei suas palavras. E, não demore muito para nos encantar com seus Contos!
    com amor e carinho,
    Sílvia

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