abril 22, 2010

A fechadura



Havia o estranho homem que morava lá embaixo, onde dá embrulhos no estômago imaginar como é alcançar o fundo. Quando este chegava mais longe olhando para cima era hora de parar, pois olhar muito alto doía de imaginar quão longe ia aquela altura, e também porque não cabia em seu oco de desfiladeiro conceber um sol mais perto da cabeça, um céu ao alcance da mão. A gente do alto, para aquele morador da profundeza, tinha que andar agachada para não dar com o chapéu nas nuvens. Melhor pois era caminhar resistente sobre um chão de terra deitada mesmo, que tem segurança para o passo. Viver em chão lá de cima deveria afundar de vez em quando, estando tudo por cair e derramar-se pelos cantos, e disso morrer gente por cima de gente. Ficar ali, na barriga do abismo era como o homem de baixo enxergava a altura certa de viver.

Muito lá em cima, porém, onde um dos lados do desfiladeiro sobe apressadamente para completar o seu gigantesco “U”, morava o estranho homem do alto. Este calculava que de tão fundo era olhar descendo aquele tamanho, que imaginava no pé da encosta o inferno, o fim das coisas concebidas de viver. Calculava que naquele fundo tudo estaria morto; haveria uma placa indicando ‘não há mais depois disso’. Para ele, solo seguro é o do meio, que fica entre o céu – que ninguém alcança, e o mundo lá de baixo – onde quem cai morre. Esse buraco assustador teria que permanecer inatingível, com léguas e léguas de olhar para dentro, isento de luz cheia. Viver embaixo seria igualar-se aos vegetais, aos seres que rastejam para conseguir comida, àquilo que cai sobre o chão por ramos sem medir consequência e conforto. Não há como ter entendimento de gente.

Esses dois estranhos não se encontravam, não dividiam olhares. Habitavam lados antagônicos do mesmo medo. Então não havia abismo. Havia um desenho feito por vento, água e tempo, e tudo muito de verde e azul sobre. E havia aqueles que viviam segundo suas necessidades, os de baixo, os de cima. Gente essa que não precisa de desfiladeiros, já que possui por maior distância e vazio o medo de avançar e aceitar lógica que foge ao seu passo. Eis o verdadeiro abismo da humanidade.

Ricardo Fabião (Abril - 2010)

Texto para o desafio de Abril - Fábrica de Letras
Tema: Abismo

4 comentários:

  1. Ricardo, a poesia tem muito poucos leitores, ainda mais no nosso país, no qual o índice de leitura é baixíssimo. Escrever e ler poesia é um privilégio para poucos. A expressão poética é o ponto mais alto da sensibilidade do artista e você faz isso muito bem, brinca com as palavras com uma paixão alucinante, envolvendo diversas manifestações da sua alma. Um grande beijo. Adriana

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  2. Ricardo, este seu texto transporta-me para as diferenças sociais.

    Muito bom!

    bjs

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  3. MZ, fico feliz em ter aqui alguém com tanta poesia e sensibilidade.

    De fato, não há abismo maior que a falta de respeito às diferenças.
    Afinal, o que seria da humanidade se todos enxergassem a realidade com "os mesmos olhos"?
    - Um grande e intransponível nada.

    Beijos.
    Ricardo.

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  4. Adriana, amiga de tantos caminhos...
    Fico feliz em ver-te por aqui.

    Beijos.
    Ricardo.

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