Mostrando postagens com marcador Curvas da palavra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Curvas da palavra. Mostrar todas as postagens

novembro 01, 2012

De quanta cor há o que vejo?




DEPOIS DA LUZ...

De quantas estradas precisam meus olhos até o limite?
O que alcançam por sobre a imagem,
no verso dos objetos, a mergulhar nos vermelhos,
a tocar levemente os amarelos e cinzas da tarde?
Essas bolas curiosas, o que dirão, depois, já sem luz,
sobre como é fundo o leito das cores,
sobre como é vão o fio que desenha o sentido do dia?

Com o cair da nitidez, 
Estando já à porta as sensações de ocaso,
quando de cansaço ruírem os meus contrastes,
que tonalidades dirão o depois das coisas?
Por quantos raios descerá uma manhã?
Que matizes estarão lá,
após o desbotamento de tudo?

Sigo com mil olhares até a última chance de ir
Por entre os tantos azuis que forem possíveis
E que não me seja apagado o que ver
Enquanto houver tão latente o que querer

Ricardo Fabião (novembro, 2012)


Imagem captada, por mim, de um certo jardim, em Garanhuns-PE.

julho 08, 2011

Olhares e silêncios



             O segredo daquele mundo limitado era mantido pelo nosso pai, que punha chaves em tudo o que éramos, para que não enxergássemos livremente o que havia. Sob essa presença austera e distante nada crescia, só calava; vivíamos em eterna suspensão de ser, sensação amplificada pelo som mudo das coisas de fora ― o cercado largado embaixo do sol, o mato seco e o cheiro dos quatro lados da nossa casa. Dentro, no pensamento, éramos apenas crianças do tipo que nada podem saber. E como não nos era dada a faculdade dos desejos e dos argumentos, recolhíamo-nos em silêncios e acasos, a esperar o para sempre dos dias. Nesse impasse, não havia olhares nossos que pudessem com os dele, nem mesmo palavras. No caminho, tudo se partia em lados incomunicáveis.
            Alguém dissera, quando o segredo ainda era por dois ou três partilhado, com palavras sussurradas, para que assim fosse demonstrada a gravidade do dito, e soasse apenas uma vez, que nosso genitor era pai também de outros que não conhecíamos; e que moravam noutras terras para lá do dia mais longe. Para nós, então, eles passaram a ser os outros, a quem possivelmente o silêncio oferecera, desde o nascimento, a mesma impossibilidade de ser plenamente. Esses desconhecidos tinham direito a abraços de chegada de um pai? Recebiam olhares de afeto, algo que lhes pudesse indicar algum sentimento paternal? Ou eram apenas crianças, assustadas, acostumadas a olhar e silenciar?
            Então o segredo ali conosco era só a interdição das palavras, pois longe delas havia quem gozasse, em falso cálculo, de anonimato – um pai no seu silêncio. O medo, sim, era fato instituído, insustentável, alargava e tolhia os sentimentos, dava voltas em nossas percepções de família, de amor, de mundo. Sabíamos e não podíamos saber. Nossa mãe, pelos cantos, algo esquecida na sala e na cozinha, com intenções de conduzir e aliviar o crescimento de seis filhos, calava mais naquilo que não se via. Se ela vivia sem revelar sofrimento era no jeito que se entregava à vida, acostumada com a partilha desigual dos caminhos que estão no desenho do mundo. Por isso, de olhos levados para além das janelas, ela só sabia aceitar.
           Nosso pai, por outro lado, tinha as permissões do caminho; saía com a madrugada, horário que julgava ser viável para o sustento dos seus segredos. Quando acordávamos, éramos mais olhos por sobre as coisas e mais medo por dentro na alma. Era medo mesmo, de gente sem dono, não amenizemos aqui a dimensão disso; medo de que aquele homem calado não retornasse. Ele não traria sorrisos, dias depois, quando chegasse imenso à nossa porta, pesado, a pedir por água e comida; não afagaria nossas faltas, tampouco demonstraria alegria por estar entre nós. Contudo, ele era o mensageiro do mundo de todo canto; era quem dispunha dos olhos para o nosso depois; fundara naquele silêncio o chão por onde, bem ou mal, deslizaríamos nossa existência. E foi assim que crescemos todos, ou, pretensamente isso, fingindo que aquela tristeza era somente um segredo.
            Quando nosso pai morreu, havia aquela esposa ao seu lado, dizendo-se realizada em quase tudo, pois aprendera a calcular a vida sob o jugo de uma matemática absurdamente cruel. Conseguia dizer-se plena, e ainda do pouco ofertado sentir falta. Estava ali, no recolhimento de sua condição, desde sempre, a colher silêncios, sem poder comentar sobre as noites de lamento e solidão; suspirava só. Nós, os filhos, com exemplos a serem seguidos, outros tantos a serem deixados lá no tempo em que tudo era medo, ensimesmamo-nos. Conhecedores, já, da lacuna, tomamos o pé da vida e fomos.
            Essa história, que pouco se conta de tanta palavra calada que é, desenhou as curvas da estrada, as quais percorremos hoje com desconsertado silêncio; e esse trajeto só foi possível porque em algum momento recebemos a permissão daqueles olhos de brilho faiscante, acendendo e apagando na memória. Desses olhares herdamos imensos abismos, os quais, devido à profundidade, impuseram limites, mas que, de tanto vazio, inspiraram ânsias de amplidão em nossos pés.
 
Ricardo Fabião (Julho, 2011)

Texto para o desafio de Julho - Fábrica de Letras
Tema: Segredo

A imagem acima é de Constança Lucas; disponível na página: http://constancalucas.blog.uol.com.br/arch2007-10-01_2007-10-31.html

junho 26, 2011

Um minuto para nunca mais


"Nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos,
nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra".
(Friedrich Nietzsche)
        
          Uma cumplicidade de afeto guiava Marcos e Heloísa, presumidamente lúcidos, dentro daquele instante na cidade. Ela seguia confiante, com o seu coração acelerado, que era um motor movido pela promessa de futuro a dois e filhos; e ele, com a convicção de que investira acertadamente naquela possibilidade de sentimento compartilhado, buscava e permitia; e sentia-se feliz por estar ali. Além dessa crença em histórias felizes e mundo melhor, que é algo de dentro e do pensamento, queimava um leve sol sobre as calçadas, agradável nos últimos raios. E supondo que tudo é ajustado, os dois acreditavam.
         Desde criança, vivera Heloísa sob a custódia de uma existência dentro das medidas, em que só cabiam os ensinamentos estabelecidos já em família: amor e respeito, duas grandezas complementares, cujas forças teriam potência para enfrentar a brutalidade dos dias. Aprendeu de tal forma essa lição que deitou-a como caminho, e rumou. E cresceu. Agora, completava vinte e oito de vida, radiante, a julgar-se ainda menina, de tanta paixão, nos braços de Marcos. Era como se enxergava, entusiasmada com a própria respiração, certa de que viveria mais oitenta anos ao lado dele. Essa era a história que sabia contar sobre ser e viver.
          Quando se conheceram, dois anos antes, ela narrou essa alegria para Marcos, e, ele ouvindo, deixou-se contagiar, e disse ‘sim’, e casaram-se. Depois, amontoando-se os dias, consolidou-se o tal projeto de amor: estrada de tempo vezes espaço vezes profundidade à qual se entregaram e na qual fincaram o passo. E seguiam crédulos, movidos pela promessa de mais cumplicidade, naquele que era um dia especial. Ela havia saído mais cedo do trabalho para um sorvete de aniversário. Foi o que sugeriu como presente ao marido: apenas vê-lo e ouvi-lo, enquanto uma montanha gelada de chocolate seria devorada. Era nisso que residia sua eterna ânsia: um amor tranquilo para tomar como chão. 
         Terminado o sorvete, e estando mais suaves os raios solares, deixaram a sorveteria, e se aventuraram na incerteza das ruas. Agora, inspirados pelo movimento colorido dos carros e das pessoas, entretinham-se com planos de viagem ao exterior, de um cachorro dentro de casa para desfazer alguns silêncios, plantinhas floridas na varanda, essas e outras maneiras de sorrir com a vida. E assim avançaram os minutos e as esquinas, ao passo que os sorrisos e os olhares se tornaram todo o instante. Ela respirava profundamente para absorver a plenitude daquele pôr de sol, calculando que nada, em lugar nenhum, poderia experimentar tão perfeita sensação de completude. 
          Entretanto, ainda que parecesse improvável aos dois, apareceu ali, subitamente, aquele de harmonia quebrada, um ser moldado no desespero, de esperança há muito deixada no esquecimento. O desconhecido esbarrou sua trajetória errante no casal. E essa junção de energias, pela diversidade de suas intenções, mudou o pé e a estrada: nenhum deles avançou depois daquele encontro. E foi tudo muito rápido, o revólver na mão do homem, os insultos sibilados, as falas desencontradas, a carteira que ele exigiu, o relógio, os aparelhos celulares, tudo colocado em seu bolso, dentro do casaco, com mãos trêmulas e respiração descompassada, de qualquer jeito. E não houve reação contrária; no entanto, ouviu-se o disparo. Foi uma bala que, saindo do tambor da pistola do assaltante, procurou lugar acima do maxilar de Marcos, e fez caminho adentro em algum cinza de sua cabeça.
           Ele tombou sem chance de um instante seguinte de consciência, pesado, sobre a incerteza silenciosa da calçada. Heloísa, em resposta, com força desconhecida, empurrou aquele que lhes invadiu a tarde, alheia de suas ações, aflita, descompensada. O homem caiu. Apenas ela ficou de pé. Apanhou a arma que estava à sua frente, e a segurou tremulamente. Agora, punha-se em vantagem. Só teria de decidir. Tinha pavor à ideia, porém alvejou a perna daquele que já se levantava na tentativa. E voltou-se para o marido, que buscava respiração nos minutos demorados: Marcos, Marcos, gritava, e nada vinha como resposta.
         No outro ângulo do fato, o desconhecido se arrastava na calçada, com ânsia de outras ruas. Ela então pensou em vetá-lo para sempre, mas lembrou-se de que não acreditava na violência, tampouco nos discursos de força bruta como medida de defesa. Quis e não quis. Olhou para Marcos; queria ouvir uma palavra que orientasse suas ações, mas encontrou um olhar parado. E cresceu ainda mais o seu amor, e, paradoxalmente, o oposto dele. Gritou. Odiou. E conferiu o fim da tarde ao seu redor: nada seria como antes. Seu marido, que, nos projetos de mundo perfeito, seria a mão para a frieza das noites, contorcia-se agora na tentativa de unir ar e pulmões, e não chegava lá. Por que o homem atirou? Por quê? Onde recomeça a história depois de um final infeliz? Se Marcos não sobrevivesse, o que faria com tantos projetos pensados a dois? E aquelas tantas viagens a serem realizadas? E os filhos que ainda seriam gerados? Não havia respostas ajustadas naquela situação.
         Subitamente, algo irrompeu dentro dela. Apanhou o revólver. Enfim, decidiu. Por tudo que perdeu e perderia adiante, pela esquina que não sairia da memória, pelos sentimentos que certamente a sufocariam a partir dali, por todos esses cálculos realizados às pressas, inexatos, inconclusos, afastou-se do marido, e se aproximou do assaltante, que tentava se levantar. Respirou sofregamente, olhou em volta; que força e beleza teria o sol depois daquela tarde? Ergueu levemente o braço, e escolheu um ponto da cabeça do homem. Ouviu-se então o segundo disparo.
         No dia seguinte, nas manchetes impressas e digitais, sob as imagens de uma Heloísa assassina, constavam notas de repúdio, algumas de felicitação. Era a história da moça bem-criada, estudante de Fisioterapia, que atirou em homem desarmado. O assaltante, vítima segundo parte da população, não teve chances de defesa ― era um chefe de família, matara apenas quatro ao longo da vida. Sequestrava pessoas e explodia bancos para sobreviver, um desamparado.
        Quanto às informações sobre Marcos, noticiou-se em tímidas linhas que morrera a caminho do hospital, sem poder explicar o motivo de sua demora para aqueles que aguardavam suas instruções na festa-surpresa preparada para Heloísa. Mas, curiosamente, tal fato interessou muito pouco a muitos.

Ricardo Fabião (Junho, 2011)

Texto para o desafio de Junho - Fábrica de Letras

junho 06, 2011

Aos porões o sempre



        Que se diga inicialmente que havia tristeza e silêncio nas horas do homem da história. Quanto à descrição do quarto sem luz em que o encontramos, que se enfatize a impossibilidade da porta e das janelas - era o mundo do homem só. Sobre as dores que o cercavam, saibam, não havia sono que o libertasse de si nem remédio para as feridas que colhera no tempo. Em seguida, mencione-se que, a metros dali, dormia a coordenadora da casa de repouso em que morria lentamente o referido homem da tristeza. Essa senhora, ao saber da escuridão e dos porões que guardavam as tristes memórias do mundo de antes do senhor do quarto, decidiu convidar à história quem dela faria melhor uso – a moça da vingança. 
        Assim, apareceu nessa tristeza contada a mulher que tinha mais passado no seu presente, e carregava em sorrisos de metade os eternos traumas e as ausências. Ela começou a visitar o homem do silêncio na semana seguinte, fingindo ser aquela que usava afeto e sensibilidade como motivadores de sua repentina chegada. Asilos são lugares que conseguem somar amistosamente desconhecidos – gente que precisa com gente que se doa. E abrindo-se todo o caminho, como se fosse acaso, os dois se conheceram. E sendo vingar-se o seu único propósito na história, sentiu-se traída por si mesma, quando só conseguiu, diante daquele homem velho e decrépito, pronunciar "olá". Como lutar com monstros indefesos? 
        Sem ter respostas ali, procurou um banheiro. Diante do espelho, decidiu silenciosamente: mudanças. Com segundos planos, ela estendeu ao homem da solidão parada a estrada das mil possibilidades. No primeiro sorriso ele já acreditou. E foi tanta visita aos sentimentos que ele voltou a dormir. Também nos dias de sol ele arriscou alegrar-se; e com mais medidas de tudo voltou a amar. A moça da intenção velada, com idade de filha, devolveu, curiosamente, o oposto do que recebeu em dobro. Daquele ser semipresente reinventou um homem, deu-lhe vida. Então o amor passou a ser o tamanho do quarto, que ficou pequeno para existir dentro e só. Ela o levou aos passeios da cidade, aos sorvetes das tardes, ao colorido movimentado das manhãs, como se o amasse como pai, como se houvesse isso na intenção. No entanto, ele, amando-a como se fosse filha, abriu os caminhos da alma, tanto assim escancarada para não haver volta, sem calcular quanta dor estava implicada nisso. 
        Eis o resultado: com amor consolidou-se aquele controverso laço. A moça conseguiu. Aos de vingança, o melhor momento de ataque é o percebimento da fragilidade do adversário. E foi isso que se deu naquela tarde. O homem, agora da alegria, ouvia música em seu quarto, quando de repente ela entrou, sem cumprimentá-lo, e espalhou sobre a mesa várias fotos de um casal. Eram imagens de rosto em papel amarelado: mãe e pai da moça. Os pequenos recortes de jornais também ali espalhados noticiavam a morte dessas pessoas – discursos abafados, corpos enterrados em matagais. A tragédia inteira, divulgada amplamente pela mídia, décadas antes, mencionava uma suposta desavença econômica entre duas famílias. Esse era o motivo. Para que o crime se consumasse, houve o mandante, o pagamento, o serviço, o executor, o crime, o local, os alicates, as cordas e os porões. E houve depois disso o tempo, que transformou o assassino em velhinho indefeso, morador de uma casa de repouso. 
        Subitamente, a tristeza, velha companheira, rebocou-o de volta ao passado, ao silêncio do pequeno quarto na escuridão. Olhou para as mãos enrugadas. Não havia água que lavasse ali a sensação de sangue, nem música que apagasse os gritos ainda lá nos corredores sombrios da memória. Ela insistia com o amor, fitando demoradamente as fotografias, deslizando os dedos sobre aqueles sorrisos de papel, a maldizer sua condição de órfã, com perguntas sem intenções de respostas, só desabafo. Esse tanto de amor presenciado, recém-percebido, sem doer em lugar certo, torturava o homem da tristeza sem fim, que tanto investiu nas tramas do caminho oposto - violência. Curiosamente, a última lição a conferir desse amor era contra ele mesmo, algo a roer-lhe a consciência no sempre dos dias, a mostrar-lhe tardiamente o outro lado da história. 
        A moça da vingança chorou mais três instantes e saiu. Antes, beijou, por mais intenção de ferir, a testa daquele que assassinou seus pais: era somente um homem idoso, assustado, vencido, mais morto que vivo, a secar no silêncio que cresceu dali para muito mais. Depois da porta, ainda que sem solução para as lacunas, havia o caminho. Ela foi, mas nem assim chegou.

Ricardo Fabião (Junho - 2011)

Texto para o desafio de Junho - Fábrica de Letras


A imagem acima é intitulada "Las manos del terror"; 
foi pintada por Oswaldo Guayasamín (1919-1999).

março 20, 2011

De vermelho o que se fez novembro


Aos que decidem viver suas próprias vidas

        Diz-se que, naquele lugar, vivia-se segundo os fundamentos da conservação, atendendo-se cegamente à ideia de um "viver sem entender para nunca ter de mudar". Dessa forma, cabia no tempo aceitar a existência como ela é, respeitá-la, fazendo disso o propósito de viver. Então sofrer era história que se imaginava distante; estava nos recantos remotos da cidade, nas vidas errantes de outros povos; não se materializava como coisa experimentada na pele de conhecidos. Para aqueles do cercado, viver era aceitar o ali parado do mundo que não ia. Apenas o silêncio quebrava o limite, e era maior que as distâncias. Sofrimento, portanto, estava nesse depois das coisas, e ninguém arriscava provar, por causar barulho, por provocar palavras. Contudo, depois, apareceu ali a mocinha do sapato, que tomou a curva para uma dor, e nada mais descansou. 
        Assim, era mantido, com esse cuidado, o tamanho de existir. E não havia força que permitisse aceitar as coisas viventes do além das cercas. Aquele lugar era a única possibilidade do mundo, onde o destino colhia-se com a mão, no formato suportado, tão já esperado e previsível quanto as frutas em suas temporadas. Não havia novidade que criasse novos sorrisos, nem desvio que gerasse vida além; o que se tinha para sorrir vinha do sempre, com a mesma intensidade, como ele é e se repete adiante. Sob esse desenho tímido de existir, os desejos dos quatro filhos homens da história eram estreitos, que não arriscavam coisa além da existência medida a palmo. Muito quando havia uma moça para o deleite dos olhos era em raro evento, e tudo ocorria sem chance de ir mais que imaginar. 
        O pai, então, o grande defensor do limite, repetidor obstinado das coisas como as coisas devem ser, mantinha a família dentro do cercado, com seu coração apertado de amor e zelo, a defender que vida boa é aquela que se conhece no passo, por isso era feliz com seus dois pés sobre a plantação, no tamanho em que sabia existir. E isso era tudo assim até que nasceu Teresa, que pediu um par de sapatos quando percebeu que já era menina no tempo de crescer - tudo muito rápido aos de vida parada no cercado. E não demorou para que um porco assado com boca assim aberta na mesa do sapateiro fosse o pagamento por um par vermelho, calçado no andar da mocinha depois, que correu feliz e livre, como nenhum ali antes provara. É certo que tal fato riscou um caminho distante aos que perceberam. 
        Foi um susto para aquelas pessoas criadas no limite. Ninguém antes arriscara ser sabendo ali. Ter liberdade? Como trabalhar esse tanto? Como traçar um plano ajustado entre as possibilidades de se pensar e as de se viver? Que tamanho assume o pensamento dentro de uma alma? Eles fariam tais perguntas se soubessem. Não fizeram. Mas elas estavam lá, gritadas silenciosamente, sem possibilidades de suscitar respostas corretas, materializadas no impasse, incomodando aquela gente. Porque sendo sapato, porque sendo menina, porque sendo vermelho, porque sendo cercado, porque sendo um mundo parado, porque estando tudo sob impositivo silêncio, não havia como contestar, como saber, compreender, experimentar a vida plenamente. Não havia confronto porque não havia discórdia - não havia desvios.
           Depois, com os sapatos sobre a roça, a jovem decidiu imaginar que grandeza era coisa que se encontrava longe, onde a montanha curvava e ia com seu desenho até perder-se de tanto dia para lá. E sabendo questionar como fazia, e buscando ser feliz como vivia, passou a evitar os olhares que pareciam perguntas e os silêncios que valiam como ofensas. E pensou tanto em crescer que a noite de abandonar o cercado chegou. E foi na intenção toda e só que ela partiu para completar treze anos em alguma estrada que só ia. Deixou apenas um barulho mudo de sorriso na última cerca, e rumou inteira, dentro da noite, para si e para o desconhecido, com o sempre do seu vermelho aceso. 
        Conta-se,  ainda que se evite, que muita alegria afundou com isso: um coração de pai lançado de vez ao alheiamento, coisa que perdeu a força de unir respiração e vida; uma mãe que calou no útero o corte da linhagem, com uma dor que cobria a cor de ver as coisas, murchou. E de silêncio, os rapazes, impossibilitados de entender como era um desejar depois do cercado, ensimesmaram-se. O sol por isso roeu-lhes a pele durante um novembro diferente, que não findou por dentro, na alma. Ficou aquele vermelho no alto das coisas, o do sapato, o do destino para depois da encosta, tudo longe da mão, do entendimento. 
        Enfim, não houve mais Teresa que lhes indicasse outras ruas; ficou o mundo só ali, no desenho inerte da previsibilidade. O pouco que ela disse, os verbos e os adjetivos que usou para significar vida diferente, tornou-se lembrança indevida, coisa proibida dentro dos quatro limites. Puseram, então, uma infinidade de dias sobre tudo isso, e viveram como sabiam. E com o tempo, que insistia alheio aos conflitos e às dores, vieram novas semeaduras e colheitas; tudo plantado para permitir a consumação da continuidade. Ainda assim, calando-se tão forçosamente, era certo que restasse o pensamento.
        Para a manutenção do cercado, por fim, não mais quiseram receber notícias da mocinha, que arriscou caminho desviado para ser humana sem eles. A vida, por essa razão, voltou ao tamanho, o sorriso ao formato das cercas, as frutas às temporadas previstas, tudo assim. E foi muita data que passou; contudo, ainda no último dia de existir, não havia palavra que lhes explicasse a intensidade daquele vermelho - tão novembro, tão diferente, tão para sempre.

Ricardo Fabião (Março - 2011)

outubro 29, 2010

Por uma diferença inteira



Para Oscar Wilde,
que não pôde usufruir, plenamente, uma diferença inteira.


Naquele instante desconectado, entre danças sem música e palavras sem som, ele era apenas o menino que não sabia protagonizar uma história de menino como um deve ser. Faltava-lhe o código social. Cansava então disso sozinho, dentro do ar pesado, parado, com sua bola de pensamento mudo a mover-se lentamente sob o queimar da tarde. O pouco barulho que ele produzia em existir provinha do medo de acordar o mundo como ele é, e do temor de permitir a imaginação como ela voa, porque imaginar é ter muito tamanho fora, ficar grande demais, solto no susto que há em ser gente. Disso ele tinha medo. Restava-lhe então calar e tentar pôr disfarces sobre a transparência dos seus desejos. Desse modo, experimentando solidões e silêncios, percebeu muito cedo aquela diferença, que era uma força ainda no grão. E assustou-se.
A partir desse incômodo, pôde finalmente constatar: ser menino é de um cuidado tão assim que só o medo de não ser na medida certa traduz a dimensão. O mundo dita o formato de sê-lo, e não sabê-lo ao certo é menos viver. Mas o menino do pensamento mudo não acatava esse ideário pré-determinado; ouvia as regras e cansava disso, dentro da tarde suspensa, oca de tanto descaminho. Como me encaixo nas coisas? Que tipo de amor carrega um diferente? Enquanto não respondia a isso, chegava a noite, e ter apenas onze anos é de um medo já no começo da existência, um sendo que avança mais fundo com o tempo, e esse afundar é muito escuro quando não há chão para a firmeza do passo. Corria então para o quarto, com o coração fora das horas, desejando encontrar-se consigo. Lamentavelmente, ali o silêncio logo ampliaria a sensação da diferença – algo que só cresceria para muito distante do seu entendimento. Punha-se à frente do espelho, despido, vencendo as máscaras da matéria até enxergar-se completamente; todavia, lá, muito dentro, morava uma voz que não era a sua, mas era. Acenava em vão, e não se reconhecia.
Deitava. Ficava de contar minutos, apenas respiração, na penumbra parada entre tomar conhecimento de si e aceitar-se. E logo sobrevinha a bola de pensamento mudo:  quantas dúvidas comporta uma vida tão pequena? Puxava o lençol, e tomava todo o impasse para esconder dentro dos seus medos, isento de cores e alegrias. O dia seguinte seria novamente o percebimento do desvio, e assim o sempre. Não havia régua que o medisse, não havia chão em que aprumasse sua transparência disfarçada; seu código era outro, seus brasões, sua ânsia, seus ímpetos. Seu suor seria derramado por outro sacrifício quando chegasse a hora. E assim permanecia a incerteza: eu vou com isso?
O mundo a repetir que meninos são meninos como meninos devem ser conseguiria converter sua diferença em sensações de semelhança? Haveria tal força? E a menina dentro dos seus olhos, refletida no espelho, quem era? Com o traço impreciso de gente pequena rascunhava na mente o mundo como sendo uma imensa bola hermética, onde códigos e leis têm mais protagonismo que pessoas. E, percebendo-se, concluiu que a diferença é uma bola ainda maior, da qual todos fogem a calcular que ali não há caminho para conduzir um bem-estar. Poucos querem arriscar permitir outras estradas; é mais cômodo reproduzir os conhecimentos e desconhecimentos do mundo,  e simplesmente seguir como a maioria faz. Ele, no entanto, tão deixado ao acaso, não tomava caminhos por não saber ao certo o formato condizente do seu ser - um desviado, dançando sem música, dentro da vida que nunca passava.
Tudo assim percebido doía baixinho no início do sono, sob aquele lençol deslizante que nunca cobria. Ele lamentava. Depois viriam outras manhãs para o cumprimento dos calendários. Ao mesmo tempo, cresceriam os silêncios, e assim outro enorme cinza se transformaria em tarde, e a tarde não traria solução para a menina dentro dos olhos no espelho, e depois noites inteiras reforçariam o conflito. A diferença levaria o menino a dançar sem música, a compor lamentos sem doer em lugar certo. Seria interessante experimentar o vão completo do desvio, mas, depois dos cálculos reais, ele compreendeu que era incerteza demais para o tanto de normalidade que circundava o seu mundo.
Numa certa manhã, utilizando diversos disfarces, conseguiu trancafiar a diferença dentro de algum ponto inativo de sua mente. Para concluir o processo, maquiou gestos, travou braços e deixou de ouvir a música que o fazia dançar. E temendo que a diferença lhe escapasse pelos olhos, passou a evitar espelhos. Em seguida, deixou emergir de si um ser inventado, que passou a distribuir sorrisos que diziam “sou normal; aceite-me, por favor”. O restante da história não demorou a ter encaixe. aquele fio em que se ouvia uma voz suave pôs timbres graves, masculinos, e logo passou a soar aos outros uma pessoa diferente. A imensa bola hermética do sistema que ali passava no sempre, superlotada, com o mundo dentro, no caminho que deve ser, parou na primeira esquina, e ele entrou. E foi muito bem recebido por todos; afinal, a diferença foi silenciada.
A partir disso, com os ímpetos  deixados às grades, um bem-estar inventado passou a contar a sua história: "Estão vendo? Eu sou normal". Contudo, por estar um disfarce constituído de forças antagônicas, há quem encontre nisso mais de um final na história.

Ricardo Fabião (Outubro - 2010)

Texto para o desafio de novembro - Fábrica de Letras
Tema: Transparência

A imagem "O menino e a boneca" é da autoria de Graça Martins;
disponível na página  

outubro 02, 2010

O segredo da tarde sem luz



Tudo começa com a chuva de algum dezembro, assim inesperada para o tamanho do dia. Para os que dividem o instante isso desce além das necessidades, pois não excede alguns baldes a sede das plantas, nem comportam mais que dez minutos de água caída as ruas e as praças. O que molha depois disso impõe ilhas ao dia, desmonta projetos humanos. E como há desvios nisso, imaginemos uma casa no meio de tudo, e dentro uma cara de menino impossibilitado na janela da sala; depois, lá fora, com um amarelo de vestido sob a tarde, a menina da história, que corre com a mãe até alcançarem o primeiro portão aberto, e logo uma varanda, que serve de abrigo até que não haja água demais no céu para seus trajes de sair. Calculemos agora a intenção do destino: o menino corre até a cozinha, mãe, há intrusos em nossa casa. Da janela, porém, eles logo compreendem menina e mãe, pessoas que vêm com a chuva, que logo retomam seu caminho, não há problema em acontecer numa varanda de empréstimo. Lamentavelmente, é natureza da chuva não corresponder às horas e aos desejos, e o tempo avança ali. Então fica bem oferecer uma fatia de bolo à menina com quase oito e à senhora com algo depois de quarenta, que não representam perigo. Elas entram, boa tarde, então as mulheres se reconhecem de algo antes, e nisso elas se inserem como se fossem velhas amigas. Os dois menores, silenciosos, de olhos na diferença, buscam outra linguagem, a da desconfiança, da confirmação de posse do território, o ajuste de forças que sempre determina o instante seguinte. Sentam-se e comem de olhos no impasse. Quando o assunto das mães torna-se muito adulto é melhor dizer às crianças que sejam crianças em outro lugar. Sejam. Elas procuram lugar, procuram, procuram, e, de tanto que são crianças, identificam quintal e chuva como a melhor das possibilidades, sejamos então felizes. Assim, com meias roupas, as de baixo, sem cálculos disso, eles entram no mundo molhado da tarde sem luz; deixam-se aos saltos, aos impulsos, imaginam piscinas nas poças lamacentas, arriscam abraços, ensaiam olhares, percebem-se, correm, sorriem, caem, misturam-se aos cheiros do chão. Ele a beija na face, sem entendimento, sem medidas de fazer, entretanto, considera mais estranho todo o resto, o impedimento, pois logo ecoam os gritos das mulheres, um, dois, três, muitos; ele toma palmadas e ela é arrastada pelas ruas com o vestido amarelo na mão. A família da garota, gente que responde bem aos ditames da década de 50, deixa o bairro no dia seguinte, certa de que esquecer completamente é caminho possível. Depois disso, como sabemos, o tempo transforma crianças em adultos, desvios em segredos. Hoje, eles não se conhecem, não lembram mais o fato; afinal é apenas uma tarde no meio de todo esquecimento necessário ao vivente. Todavia, não sabem dizer ao certo por que gostam tanto do cheiro sem luz da chuva - algo que futuro nenhum pode transformar em pretérito; conjuga-se sem verbo, alheio à consciência, em eterno presente. Não passa.

Ricardo Fabião (outubro, 2010)

Texto para o desafio de Outubro - Fábrica de Letras
Tema: O cheiro da chuva

setembro 22, 2010

Cartas ao dia seguinte

 
"A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata".
(Virginia Woolf)

                 Logo que se firmava o sol, ela acordava. Abria os olhos, e rapidamente deixava a cama, explicitando o seu descontentamento por dormir além do permitido. Estava atrasada, como sempre. O tempo, segundo sua percepção, era um senhor implacável, um negociante inflexível. Assim sendo, apressava-se em pôr organizadamente todas as suas atividades diárias. 
    Antes dos afazeres, porém, caminhava até o portão da frente para conferir sua caixa de correspondências. Apanhava os envelopes, abria-os, e logo estava a sorrir ou a chorar com os enredos registrados no papel. Depois, punha-se a fazer curvas no interior da casa, indo de um lado a outro, julgando-se a mais atarefada das mulheres, limpando, mudando objetos de lugar, com estratégia e cuidado, como se fossem peças num jogo de xadrez. Os relógios, espalhados por todo o ambiente, impunham-se como sinais de trânsito, como juízes inquisidores de suas ações, atirando-lhe flechas de prazos e atrasos. Olhava-os, evitava-os, e rapidamente iniciava outra atividade. Não poderia parar. Nunca.
        Era isso: ela aparecia vivendo assim, desde as primeiras horas, entre os despertos raios da manhã e as lacunas adormecidas dentro de sua mente. Sem saber os caminhos e as saídas, entretinha-se com vassouras e ferros de passar, fingindo-se preocupada com as exigências do seu dia. Inventava esse caminho de ter o que fazer até que não mais houvesse o que pensar, e não cansava dessa fuga. O que se comenta acerca de tal alheiamento é que ela guardou a última lembrança de existir no sótão, para que não desse com o peso de ser nas horas. 
        Nessa falta de luz interna se amplificaram as ausências, todas, e, ali, sem dia certo, data, sem ar, só mesmo uma desistência de vida cabia. Quando depois do sol, concentrada, escrevia cartas na varanda, para que no papel pudesse tornar-se personagem principal de alguma história. Nas linhas relatava as novidades do dia, importantíssimas, convinham a uma solidão. Escrevia-as com estreitura e contenções de quem confessa pecados. Antes de deitar, guardava as folhas escritas dentro de envelopes coloridos, e os levava para a caixa de correspondências. 
        Horas depois, assim que se firmasse o sol, ela acordaria sobressaltada, descontente com a falta de tempo, e repetiria a sua trajetória diária, vassouras, ferros de passar, panelas, coisas do seu sempre. E leria as cartas que recebera, com as quais, sendo ela emissora e receptora, retroalimentava sua solidão. Com o entardecer, estaria concentrada na varanda a lhe escrever novamente. Inventava algum remetente saudoso; depois, preenchia o espaço do destinatário com o próprio endereço. O envelope dormiria na caixa de correspondência, e de lá seria retirado por ela no dia seguinte.
       Ainda no portão, acreditando estar surpresa, gritava: "chegou uma carta para mim". Abria-a, e conseguia sorrir absurdamente com as histórias narradas no papel, algo apreensiva, com ânsias de adolescente. Emocionava-se. Os parágrafos traziam as narrativas felizes do seu interlocutor, e ela, atenta, lendo, sentia-se importante, aquela a quem os amigos procuram quando desejam escrever suas aventuras. Lia uma vez, duas, às vezes uma lágrima escapava, denunciando a realidade. E como ainda era manhã no mundo ali, corria ao fogão, apressada em pôr panelas no fogo, pois logo haveria crianças a correr na varanda, a saltar por entre os arbustos do jardim, tudo de muito movimento e vida ao ar livre. Mentira. Não havia criança para uma instalação de luz de dia diferente; até o sol naquela realidade era só ocaso. 
        A casa havia sido deixada ao que cala e seca, aos caminhos sem ida, e ela era mais impasse que mulher; por isso a importância da leitura em voz alta daquelas cartas ― para que delas reverberasse um caminho diferente, uma saída. De frente para vida, percebendo-se, ela não saberia rumar, dividida que estava entre os dois destinos possíveis do seu dia: entregar-se à história passada, que não mais voltava, ou àquela presente, que não avançava, um ponteiro de relógio quebrado, um mundo sem ir. Somente o tempo, com as chaves de tudo, seguia soberano, a devorar as curvas do depois muito. 
        Ela fechava as cortinas, pois não queria luz nem horizonte. O de qualquer jeito de sua vida era demais pesado para se levar sabendo. Agora, ela e aqueles objetos abandonados eram uma casa no meio do caminho empoeirado, sem filhos para uma aflição, sem par para um café. Ali ninguém chegava; por ali não se passava. Nenhum viajante perdido bateria à porta para pedir água. Nada barulhava naquela solidão além da porta entreaberta, perpassada pelos dois ventos sobreviventes, confusos. Coisa nenhuma alcançaria aquela solidão, não sob aquelas condições, estando toda ela dentro de sua conflituosa mentira. 
        A casa fora tomada como fuga; ali ela trancou-se, e pôs cadeados em tudo. Não demorou para que todos esquecessem o caminho que levava àquela mulher, que trancafiou as possibilidades de ir com a vida após ser deixada sem amor ao próprio passo. Dessa maneira, alheia, com o deitar do sol, escrevia sempre. E foi assim até o instante em que deixou de ver-se e de ouvir-se, e, logo, a esquecer-se de ser; mas não morreu quando chegou o dia: preferiu seguir com a solidão. 
        Guardou-se eternamente dentro das cartas, de todas aquelas que havia inventado e das outras, as que iria escrever, e lá permaneceu ausente de tudo ― dentro da caixa de correspondências. Com a chegada da noite, ela escrevia cartas ao dia seguinte.

Ricardo Fabião (Setembro - 2010)

setembro 19, 2010

Depois do escuro das coisas


Aquela criança era da parte mais oeste que se imaginava quando alguém dizia medo; e era moradora desse lugar que não constava no mapa, que nem mapa havia, nem mesmo desenhista, um quase existir, que não crescia e não diminuía, só havia com seu tamanho entre os quatro limites, e era o começo de tudo. E ninguém ali tinha coragem de aventurar um só pé mais oeste depois disso, porque haviam dito que indo para lá dormia o sol, e deveria ser mais quente que qualquer coisa mais reluzente de se conseguir ver. E por ser o lugar do seu descanso, um ninho aceso no meio das encostas, assim com tanto amarelo, o sol fatalmente sugaria as outras cores para dentro de si. Não cabia nem pensar nesse destino de uma cor só; melhor era ter medo, para ser mais do sossego que reside em não saber. Os habitantes desse receio, por isso, com o oeste do mais assustador de imaginar, gostavam de pintar o sol nas paredes, do modo mais intenso do seu arco diário, temendo que o astro pudesse morrer para sempre de tanto oeste que repetia no passo do céu e ser por isso esquecido. Ali, o sol era a presença maior, e sem esse entendimento não havia seguir. E todos cultivavam esse cuidado só de calcular que o medo pudesse ser maior que a noite, que já levava muito horário com o azul apagado. A menina, no entanto, mais curiosa que a razão de ser do mais oeste do mundo, resolveu seguir o sol para saber onde ele fingia que morria antes do escuro. E correu sem saber e muito, acompanhando o fio da luz caída, que de tanta natureza só sabia o destino inatingível de oeste. E porque era imensa a bola brilhante, assim deveria ser o ninho em que ela deitava a gerar o dia de outras vilas sem luz. Logo a grandeza seria notada. Mas a menina cansou de tanto que não achou sol naquela largura de noite, e dormiu por cima de uns escuros que encontrou no caminho. Até que veio do leste a primeira luz de sempre. E desse lugar alheio, a menina entendeu que todo leste, por mais imaginado que seja, tem um sol de nascença, e todo oeste, por mais lá indo longe de tudo, leva consigo o sol para o seu depois. E ela ficou feliz de perceber assim o sempre das coisas. Enfim, a distância do escuro do céu foi vencida. E foi por saber mais do oeste que a vila soube das horas que chegavam do leste, um ciclo, e que não havia cansaço em repetir-se. Depois, os habitantes marcaram o dia como tempo de viver, e passaram a ser assim, como se fossem livres. E porque ainda era início todos aprenderam. Então o sol passou a ser somente a bola curiosa que dizia os horários, com direito a uma morte de estrela no dia do seu último escuro. O que não se sabe, o caminho mais alheio, onde as luzes oscilam sem horas e datas, permanece dentro do homem, sem solução.

Ricardo Fabião (Setembro - 2010)

Texto para o desafio de Setembro - Fábrica de Letras
Tema: Livre

agosto 26, 2010

A fronteira


Para Ane, Jessiely, Keila, Renata;
mulheres que arriscam alma e palavras 
além de suas próprias fronteiras.


E com quatro dos símbolos aprendidos ele escreveu 'viver', e assim começou a história. Escreveu, que gostou, e soube como seguir. Agora cada um daqueles símbolos abria uma estranha passagem, o que ele tomou para si como ofício, para riscar nas coisas e arriscar-se mais. E desejou juntar todos eles, os vinte e seis símbolos, para chegar a todas as coisas do mundo, e com isso escrever tudo o que se ouve, o que se vê e se sente, e, com zelo especial, tudo o que se cala. Foi a professora, com algum tipo de luz nas mãos – como faz o sol, ao rasgar diariamente os caminhos e as cores aos seres –, que os desenhou no quadro, com giz e magia; e não só isso foi aberto ali, o que se escreve e a estrada depois: algo que ele não sabia onde era estendeu-se muito mais mundo adentro, que ele só alcançaria de juntar e dizer todas as letras. E foi sem cansar disso até muitos dias. Juntava então nos dedos as letras e as escrevia no ar. Escrevia, escrevia, ininterruptamente. Onde estava o mundo, lá punha seu dedo a escrever em cima das coisas, com exclamações nas ladeiras, interrogações no horizonte. Quando o ar estava cheio dos seus escritos, ele os apagava até que se refizesse o vazio para abrigar mais palavras. Até aí era a descoberta, o menino. Certa vez, no desvio do caminho, quis saber como era juntar humanos e sentimentos na mesma frase, e pôs 'Lúcia' em cima, no topo da paisagem, e 'meu amor' embaixo, no azul quase chão; depois riscou reticências para que isso ficasse ao tempo. E contemplou a possibilidade e a fundura daquelas palavras. E tão logo percebeu que alguém poderia ler o pedaço rabiscado do vazio, que com mão demais apagou além do que deveria, e deixou um buraco no céu onde antes estava 'amor'. E assustou-se. Sem aquele pedaço de ar faltava-lhe algum caminho até ser completamente. Mas não houve jeito: agora estava lá, em todos os lugares aonde ia, no que sentia e almejava, o tal amor apagado às pressas, doendo onde não estava, um furo no céu, um oco suspenso no olhar, que seguia junto vida adiante, desconhecedor das horas. E foi nessa margem pouco visitada que ele ancorou o passo; cresceu. Eis o adulto, o destino. Todos os dias punha escadas e escrevia no vão do amor arrancado, tentando chegar com palavras ao tamanho necessário para cobrir a falta, algo que aliviasse o incômodo de ter um buraco onde antes desenhado estava o primeiro amor. Quis remendar com linha e agulha, com adesivo e cola, mas nada fechava naquele lugar. Ainda fingiu que era janela, mas tinha de fato medidas de lacuna, de ausência, e não coube uma cortina. Depois ele soube que ali estava a fronteira de tudo. Um dia encontraram apenas a escada e o silêncio. No mundo de cá, aos de sensibilidade, restou o que ele havia escrito. Dizem que virou poeta.

Ricardo Fabião (Agosto - 2010)

agosto 11, 2010

Estranheza

Pode o autor ter predileção por alguns de seus textos?
Se me for dado tal direito, eis abaixo um deles.



A Victória, minha filha,
pela diferença que nos uniu
em tudo eternamente.

         Zafina sofria de esquisitice, de estranheza completa, um desajuste brabo, tão assim sem remédio que nem sete rezas em noite de lua cheia deram jeito; recomendaram em vão. E como não havia nome para o mal, nem tolerância às diferenças, ela tornou-se a aluada da cidade, a desandada, uma tristeza. Como resposta, no entanto, a garota apenas olhava, sorria inocentemente, mas adentrava o pensamento dos que se aproximavam, invadia as falsas verdades, desvendava as intenções ainda na alma.
         Estranho. Assustador. E não havia quem pudesse com o peso daquele olhar, tanto que desde o nascimento negaram-lhe qualquer possibilidade de afeto. E ela, algo assim calada, parada diante das paredes, olhava-as demoradamente, quase aos sorrisos, como se naquele vazio encontrasse uma saída para o seu descompasso. E foi por medo, por temer a escuridão encontrada na alma das pessoas, que decidiu não mais falar. Que palavras podem ser ditas aos que só se contentam com as próprias palavras?
         Havia começado as letras mas nada escreveu em cinco anos de chance. Sua única produção estudantil foi o desenho em que rabiscou uma família feliz: uma mãe que ama a filha e o filho, um pai com um abraço em que cabem todos, um irmão, e juntos no mesmo amor com um sol lá em cima para todo o sempre. Contudo, dinheiro empregado exige resultado em troca, e, sem leitura, sem escrita e sem avanços, a menina não valia os investimentos. Assim, sem demora, tiraram-na do colégio: num dia estava lá, no outro, trancada em seu quarto.
        A natureza tem dessas invenções, alguém tinha de ser Zafina e a pequena nasceu justamente assim. A família estranhou. O que é isso? Bem, aparece uma em cem milhões, o médico do posto de saúde foi categórico, mas dá para suportar, não surta, não contagia, e não mata, apenas é esquisita. De que jeito, doutor? Segundo minha experiência, ela não se irrita, não deseja o mal, possui todas as virtudes; tudo que faz e gosta e sabe é olhar, muito lá dentro, no viés da alma, e descobre suas imperfeições e relevos. É difícil de aceitar, suponho, mas ela possui também habilidade para amar incondicionalmente; isso talvez amenize o pesar da estranheza. Ameniza nada, estamos convencidos, ela é realmente estranha, somos uma família tradicional, não podemos com tamanho estorvo. Como alguém pode apenas olhar, amar e lidar com a verdade? É muito perfeito para ser humano legítimo, não sobrevive, não dá certo no caminho, sou mãe preocupada. E a sociedade?
        Decidiram então manter Zafina em casa, sob cuidadosa vigília, quarto separado, remédio controlado, horário para entrar e sair, essa coisa de só olhar e sentir amor é perigosa, ninguém sabe que rumo toma, cuudados são necessários. Os talheres foram marcados, a lavagem de sua roupa feita em outro tanque, a doença é rara, sabe-se pouco sobre contágio e tratamento, somos uma família que não arrisca desvios de conduta, há um brasão sobre nossas cabeças, a mãe repetia, mas veja, ninguém é desumano, aqui ela é bem tratada, há um rádio para distraí-la. Com o tempo avolumaram-se as migalhas de zelo daqui e os silêncios de lá, e Zafina cresceu. A serenidade permaneceu, o olhar firme, perfurador, o sorriso dentro de si e a clarividência, e isso incomodava os mais próximos, que eram, no mínimo, distantes. E com a força do abismo que faceteava os dois lados, vieram os meses e os anos.
        Ela tinha vinte e três quando Fabrício, seu irmão, procurou-a numa certa manhã. Ele todo sorriso, quer ver como é o mundo? Zafina toda esperança e feliz, com palavras ditas para dentro, só de olhares, vou ver como é o sol do longe, conhecer o mar, talvez um vestido novo, tomar sorvete, pensamentos. Sim, você vai ser livre, o irmão era convincente, tinha de ser, havia projetos em sua mente, grandes segredos, um circo, uma atração assim “o olhar que tudo vê”, bilheteria, sucesso, dinheiro, era só esperar. Você trabalha para mim, e eu cavo sua liberdade. Combinado. Mãe, eu levo Zafina para morar comigo, lugar distante, e não voltaremos, a razão ele omitiu, não se preocupe, melhor assim, que ela dirija seus olhos para quem os deseja ver, e saiba que saudade não é bem-vinda neste contexto. Ficaremos muito bem.
        E aconteceu: um trem, uma estação, um rosto virado de pai, uma boca torta de mãe, um lamaçal de primavera chuvosa, um rádio apertado nas mãos, um olhar a mais, um amor a menos, abortado, já sai, já foi, e depois uma porta, um vagão, os trilhos e a manhã gelada. Os acenos espalhafatosos jogados por Zafina ricocheteavam na frieza do casal estacionado na estação, silenciosamente satisfeito por dar destino a um impasse de duas décadas. Fizemos nossa parte, vamos para casa. Voltaram ao resto da manhã, dentro da cena muda, que era o início do vazio que guiaria suas vidas adiante. O trem partiu.
        Era já um terço da viagem quando ele reparou despropositalmente nos olhos da irmã. Não nos conhecemos. Como é apenas olhar? Não responderás, eu sei. De que lugar vieste assim tão diferente? Segundo o que aprendeu Fabrício, ela era perigosa, um castigo, aquela que jogou o nome da família no ralo, tanto que durante toda sua vida ele tratou de não entendê-la como irmã. Ela, alheia à inquietude daqueles questionamentos, só sabia a felicidade que era o chocolate em suas mãos. Não media a dor do passo que ia na direção contrária das coisas, por isso sorria para o desenho apressado das montanhas no lá fora, para o tamanho do céu, e escutava mais alto o mundo que só ela compreendia. Você tem lindos olhos, minha irmã, o que há de errado com eles?
        Aquela jovem mantinha o rádio no colo como quem tem as chaves que abrem a caixa da alegria de uma vida inteira, era seu único companheiro até ali. Ele pousou o olhar sobre essa cena, o que fizemos a ti? Zafina continuava de sorrisos, indiferente ao derretimento de sua vida, do chocolate, a sujar-lhe as mãos, o destino, deixada de qualquer jeito ao pé do instante seguinte; sim, talvez não coubesse neste mundo, e certamente era feliz por não saber que seria infeliz se soubesse como era ser. Então algo revirou dentro de Fabrício, uma náusea, uma saudade de algo que não conhecera, coisas que iam e voltavam, talvez o engasgo a tomar outro caminho, tornando-se respiração livre, portões que se abriram, água jorrada depois de represada, inundação. Ela virou-se para ele, os olhares bateram-se demoradamente, um minuto eterno, e ela não disse, que não precisou, e ele ouviu tudo, paralisado entre contemplar e lamentar, por ela e por ele, pelo mundo, pelo abismo entre os dois, pelo medo, pela fragilidade humana, pela maldade. Esse (des)engasgo todo era efeito da verdade deflagrada pelos olhos da irmã. Tudo ele diria se soubesse, mas palavras são instrumentos de uso complicado, e, recém-chegado de um longo silêncio, só coube na sua voz olhar, doer, lamentar. E, silenciosamente,  isso levou muito mais alma que morrer.
        Enxergar-se foi caminho que ele não soube administrar para um depois. Acostumara-se desde menino às meias verdades de sua família; de modo que uma verdade inteira trouxe luminosidade demais, desencadeou sensações controversas, interditou seus planos, teria que improvisar um desvio.
        Horas depois, a irmã dormia dentro do vagão gelado, com seu sonho de azul e calor, e distante consigo só. Apenas uma incerteza de madrugada chamava por ele lá fora. Assim sendo, desceu na estação seguinte. Duas malas estavam ao seu lado quando o remorso o tomou para sempre. O trem partiu lentamente, fazendo curvas e buracos naquele resto de noite. Deixou ali o cinza-escuro do impasse e o homem da lágrima silenciosa.
        Zafina acordou. Levantou-se. Isso foi quando o movimento da janela mostrou-lhe como era calada e triste uma imagem de irmão deixada para trás. Sentou-se. Sorriu alheia, sem cálculos, sem destino. Ligou o rádio. Comeu outro chocolate perto da manhã.

Ricardo Fabião (Julho, 2007)

Fogo obsessor

                 A velha placa de metal com os dizeres “A mulher que tudo vê e ouve, e que de todas as coisas sabe” estava na parte super...