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março 30, 2022

Fogo obsessor


 


            A velha placa de metal com os dizeres “A mulher que tudo vê e ouve, e que de todas as coisas sabe” estava na parte superior da porta. Deveria ou não entrar? A pergunta surgiu, mas não precisava de resposta. Nos momentos de indecisão, minha curiosidade sempre vence. Entrei. Subi a escadaria estreita, íngreme, que parecia não ter fim. Uma mulher, de olhar inquisidor, parada no último degrau, sorriu-me enigmaticamente, entre, moça bonita. Minhas cartas dizem tudo. 
           — Casarás em pouco tempo. Linda festa. Sorrisos, lágrimas, uma multidão, jardim florido... Homem bastante apaixonado, saúde frágil, curto destino, vida breve. Ele tombará sobre ti. Que tristeza, moça! Também vejo obsessão e fogo em teu caminho... 
          Não acreditei na profecia da mulher, obviamente, mas também não facilitei o trabalho do tal destino: nada de pensar em casamento, e nada de se relacionar com homens frágeis, jamais! Acabei o meu namoro no dia seguinte. Aníbal era bem franzino; certamente era forte candidato a uma vida breve. Sinto muito. Adeus! O tempo veio e eu casei, três anos depois, com Ambrósio, forte como um touro, alto, músculos e exames em dia, nada de fragilidade. O casamento foi simples, em uma praia, não houve festa, casei de azul, sem flores, apenas família como testemunha, dia nublado, duas fotografias apenas, tudo programado para dizer “não” às previsões da cartomante. Calculei que tivesse funcionado, mas foram apenas dois meses, três dias, e uma noite ao lado dele. A vidente venceu: enviuvei. Tal qual uma protagonista de tragédia grega, foi tentando evitar o tal caminho que peguei atalhos para ele.        
            O primeiro dia sem Ambrósio foi de fato o mais difícil. Começou já no momento da morte, quando precisei me soltar literalmente daquele corpo, um metro e oitenta de carne sem dono, largado sobre mim, depois de cinco minutos de cama, ainda aceso, coisa triste, e eu imprensada, por baixo, confusa, a ponto de reclamar pela rapidez com que ele terminou antes do meu começo, mas ele permaneceu parado, calado, pesado, inerte. Belisquei suas costas, sacudi o seu rosto levemente, gritei. Ambrósio se foi. Haveria momento mais inconveniente? As cartas tinham razão, ele tombou, maldita cartomante! 
           Cuidar do enterro foi nauseante: era apenas um resto de mulher sozinha a tomar as decisões, a cor das flores, a sequência do velório, onde ficaria o corpo, a roupa que deveria vesti-lo, a hora de fechar o caixão, de iniciar a marcha para o cemitério, de seguir a vida a partir dali. Estava de existência empenada, solta, quase desmaiada aqui, quase apagada ali, meus pêsames, obrigada, um comprimido azul, um marrom, outro amarelo, analgésico, ansiolítico, uma manhã fria dando em tarde descolorida, depois uma noite fervente, tristeza, sobrevivi. Levei dias a calcular ausência de marido e sofrimento. Contudo, três semanas depois, enquanto ajeitava a papelada do seguro, pensando em quantas direções gastaria aquela enorme soma, muito mais do que eu supunha, senti um alívio, sobretudo horas depois, diante da nova boutique da cidade, provando o primeiro vestido a ser comprado sem a vigilância de Ambrósio, que beijava bem, mas detestava compras. Santa recuperação! Naquele momento, admiti: a viuvez pode ter suas vantagens, sim. Adorei a tarde, amanhã cuidarei do cabelo, das unhas, da pele, estou viva; não fui eu quem partiu. 
       Infringiu os protocolos da morte, comentou a vizinhança, sofreu pouco, chorou apenas nas primeiras noites, colocou cortinas coloridas nas janelas, deixou que o sol entrasse no quarto, comeu bolo recheado, usou amarelo na semana seguinte, tomou vinho, maquiou-se, foi ao cinema. Desse modo, concluíram, não gostava do finado. Todavia, era cedo para conclusões. Eu mesma não sabia as medidas exatas dos meus atos. Nunca fora boa em matemática, trocava os sinais, multiplicava quando deveria dividir, subtraía quando era necessário somar; não seria difícil inverter os sentidos diante da morte, atropelar regras, desandar. Não me julguem! Estou apenas reformando a minha vida, era como me defendia.
          Num certo dia, cessou o desejo de comprar. Então eu soube, a ausência do meu marido começaria a incomodar a partir dali. Parei diante do espelho da sala. De repente, um arrepio profundo fez todo o meu corpo tremer. Em seguida, ouvi a voz de Ambrósio a sibilar algo no meu ouvido. Gritei. Corri para o quarto. Tentei dormir, mas rolei na cama por toda a noite, durante o mês inteiro, caí doente. Os sussurros do fantasma estavam em todos os lugares. Laura, meu amor! 
          Você precisa de Deus, querida, sangue de Cristo tem poder, minha secretária foi convincente, e tão atenciosa que conseguiu levar-me até a igreja para eu conversar com o padre. Aquela primeira visita à casa de Deus foi uma verdadeira faxina em minha alma: algumas linhas de João aqui, Mateus acolá, Lucas assim, Paulo para fechar os ensinamentos, não houve resistência, chorei o quanto precisava. De quebra, expulsei boa parte da minha vaidade; estava fragmentada, dilacerada. Agora, de acordo com as palavras do vigário, era só esperar que o Espírito Santo juntasse os cacos, e construísse em mim uma nova Laura. Enfim, disse ‘sim' a Jesus, santo forte, consolador de almas, aceitei a salvação. 
            Deixei a sacristia aliviada, olhei em volta, dei com o semblante das imagens, seus olhares de misericórdia, de lamento, de medo, de censura, uma artilharia apontada contra minhas privações de viúva, tão desnorteada que só me restava voltar no dia seguinte, e no outro, e no outro. Passaram-se meses. A visita à igreja tornou-se rotina. Ajoelhada, durante horas, implorava a Deus que apagasse a imagem de Ambrósio da minha mente. Isso você esquece com o tempo, querida, homem não é tudo, aquele lá em cima, sim, deve ser a razão da nossa existência. Minha secretária era formada em sofrimento. Apanhou durante dez anos do marido até que ouviu a voz do redentor; eu sei como é isso de ter homem, minha filha, hoje estou livre, fui ungida, ela disse, mas faz uma falta, repliquei silenciosamente. Certo dia, sentindo-me desesperadamente cristã, comprei todo o estoque de discos religiosos que encontrei numa livraria da cidade. Preciso me fortalecer, música acalma os ímpetos e a queimação de dentro. Ouvi e aprendi tudo. Ninguém tinha mais Jesus do que eu. Consegui. Estava transformada. Era um exemplo a ser seguido.
           Todavia, semanas depois, o que era apenas a voz sussurrada, ecoando no quarto, na cozinha, nos corredores, ganhou corpo. Então eu passei a ver Ambrósio por inteiro. Trancava-me no guarda-roupa, e ele estava lá. Depois, no banheiro, também estava lá. O fantasma insistia, assobiava, gargalhava, estava sempre despido, como no dia de sua morte, do jeito que foi tirado das minhas pernas, uma indecência. Constrangida, resolvi revelar tudo para o padre, com todos os detalhes, inclusive admitir um tanto de culpa, já que eu mesma havia implorado que Ambrósio voltasse, que não me deixasse sozinha, que me socorresse nas horas de necessidade. 
           Não há dúvida, a alma do finado precisa de reza, tomar o seu caminho, os que ouviram a história recomendaram. E combinaram um descarrego para a terça-feira da semana seguinte, eu agradeço, em nome de Jesus, e Ele estará lá, minha filha, para iluminar sua vida. No dia marcado, enquanto esperava os colegas da igreja, tentei uma última conversa com o finado, você continua bonito, e firme, se ao menos fosse de carne, adeus, querido. Minutos depois, a casa foi sitiada pelo Exército de Cristo, que era grupo famoso na cidade, quinze integrantes, encapuzados, rezando, cantando hinos, clamando aos anjos e aos santos a proteção daquela jovem. Além disso, havia o braço firme do sacerdote, homem de Deus, respingando água benta sobre a minha solidão de viúva, sobre a mesa da cozinha, dentro da banheira, sobre as almofadas; era força demais contra um fantasma. Ele deixará de atazanar, sim, a secretária sabia das coisas, já havia presenciado a expulsão de outros espíritos zombeteiros. Cantaram, rezaram e conseguiram. Ambrósio pegou a primeira trilha para o desconhecido, e não deixou rastros. Finalmente. Entre os sorrisos eufóricos, todavia, estava uma certa curva na minha boca, um desvio, que não sorria com as demais intenções do grupo, obrigada, amigos, fechei a porta, suspirei. Aliviada? Será? 
           O dia seguinte avançou tranquilamente, o fim de semana, o mês todo, passou um ano e nada, o fantasma não voltou a incomodar. Não havia mais assombração. Restava então desenrolar o resto da vida ao lado de Jesus, subir outros degraus, lutar contra a vaidade, o egoísmo e a luxúria. Repetia versículos bíblicos ininterruptamente, diz que protege, não vacile, minha filha, "segura na mão de Deus, e vai". O padre afirmou que o terço funciona quando a imoralidade aponta no pensamento. Então, obstinadamente, eu rezava, respirava fundo, corria para a igreja, suava, acelerada, atazanada, alterada, descontrolada; era uma guerra. Ajoelhava-me, Bíblia na mão, crucifixo no peito, olhar fixo no altar, uma oração para os desejos, duas para as vaidades, três para coisa mais séria, saía de lá quase noite, doída de tanto negar minhas necessidades, jurando que o calor havia passado. Certa vez, questionei se aquele seria o fogo obsessor que apareceu nas cartas da vidente. 
           Assim começou o sufoco, com a temperatura do corpo, que subia. Alguns homens provocavam essa reação. Desse modo, para minha segurança, deveria manter distância deles, principalmente daqueles que tinham barba, dos que não tinham também, dos que andavam sem camisa, dos que usavam terno e gravata, dos que vestiam calças justas, dos carecas, dos cabeludos, dos garçons, dos policiais, do carteiro, do encanador, dos que suavam, dos que sorriam, dos que falavam, daqueles que pregavam, não, do padre, não, jamais! Virgem Maria, como é isso? Nos dias menos movimentados, a coisa piorava; evitava ficar sozinha em casa, tinha sempre uma amiga por perto. Isso é obsessão do capiroto, filha, insistia minha secretaria. Banhos demorados, nem pensar. Nudez diante do espelho, proibida. Essas coisas alimentam fogo indevido, estava tudo no meu regulamento. Televisão, jamais. Era a pior das tentações. 
            Contudo, Rosirene, colega do curso bíblico afirmava que era necessário conhecer o inimigo; não perdia um só capítulo da novela das nove. Refleti: a mulher sabe o que diz, quem tem Cristo, não teme. Sentei-me durante cinco minutos diante da tevê, escolhi o canal das novelas, o coração era uma batucada, bobagem, possuo as armas necessárias; são imbatíveis. Então apareceu o protagonista da trama, tão bonito que me esqueci da batalha, e aí distraidamente reparei no corpo do rapaz, a boca dele era inacreditável, um absurdo, escandalosa, carnuda, vermelha, o jeito como ela se abria, depois se juntava à boca da atriz, e as línguas passeavam de um lado para o outro, uma perna deixada assim, um braço esquecido ali, e aquela música romântica dizendo ‘fique meu amor, não vá, eu te amo', que lindo, eu também quero. Não posso! Levantei-me do sofá. Desliguei a tomada. Corri para a janela, estava suada, aflita, descompensada, chorava e sorria, como uma doida. Decidi que detestava a novela, que o ator era o próprio Lúcifer, que venderia a televisão. Um inimigo a menos dentro de casa, em nome de Jesus. Como penitência pelos pensamentos indevidos, passei meia madrugada de joelhos no canto do quarto, cantando hinos de louvor. 
             Na manhã seguinte acordei quebrada, indisposta, mas satisfeita. O castigo tinha banido o mal: o pensamento da indecência se fora. Não obstante, permaneceu o calor. E Jesus, por que não me ajuda? A queimação deve ser hormonal, querida, minha secretária tinha sofrido coisa parecida, explicou que uma voz do além lhe revelara no passado. Nos argumentos da mulher havia sempre essa voz, e ela supunha que era a de Deus, por isso não errava, e eu acreditava. Fui ao médico. Nenhum distúrbio hormonal, Laura, você tem saúde no lugar, nem chegou aos trinta, quem lhe falou sobre hormônios? Deus me revelou, por meio da minha secretária, ele diz, ela escuta, pois tem unção, e eu sigo tudo. Ela tem também muita imaginação, o médico completou. Você é casada? Não mais, por quê? Procure uma companhia, faz bem, diminui a temperatura nos lugares. Sou uma pessoa de Cristo, doutor, meus desejos foram represados, não quero mais isso. Entendo. Nesse caso, reze para não se afogar no lago que se formará com essa represa. Seria conveniente conversar com um psicólogo. Vou, certamente, mas sei que minha cura está em Jesus. 
          Revelei minha história ao psicólogo. Ele tentou explicar tudo à luz da ciência: você projetou assim, suas frustrações seguiram adiante, por trás dos atos, das palavras, eu entendo de traumas, não me esconda nada. Foi a cartomante, que leu minha mão, e Ambrósio morreu, agora eu me entrego à reza diária, clamo, grito pelo redentor. Sofro de fogo obsessor. Como psicólogo, digo que isso não basta; religião não conforta certas ânsias. Saí desolada de lá, assando por dentro. O homem era lindo! Sangue de Cristo tem poder, mas será que pode com a minha obsessão? Então eu comecei a esquentar de um jeito insustentável; evitei sair de casa, pedi socorro às companheiras de caminhada. Elas agiram. 
          Na semana seguinte, um grupo de mulheres foi até a minha casa. Querida, viemos resgatar teu espírito sofredor, há vaga na nossa comunidade, vida de clausura dá jeito em queimação e necessidade; você vive para o criador, fecha a porta que leva ao mundo, abre algumas janelas para o Espírito Santo, entrega-se à oração, nega a carne, tudo é maravilhoso, abstinência e abstração, aceita? E assim troquei meus vinte e sete anos mundanos por aquela proposta de vida desapegada. Elas me levaram pelo braço; afastaram-me do mundo, mas nem assim passaram a chave nos meus desejos. 
          O vazio permaneceu até aquela madrugada de insônia, suor e paredes, quando o padre me visitou. Ainda à porta ele adiantou que trazia consigo minha cura. Arrisquei um pensamento, aquele santo homem diria palavras de sabedoria e de libertação; todavia, calou-se. Nada havia em seu poder além de tremores e sugestões. Aproximou-se. Perdi a voz. Lembrei-me do recado das cartas, de Ambrósio, do destino, da solidão, da ânsia, do fogo e do pecado em minha vida. E se esse fogo não for uma presença, mas uma ausência? E agora, quem me segura? Proteja-me, Jesus! 
         O padre sentou-se, colheu minha temperatura, tragou um tanto do meu fogo com seus olhos redondos, continuei queimando, queimando, veja, vejo sim, este lugar tem um propósito, há uma saída para o corpo quando a alma não vigia. Como? Fingi que queria entender, mas não precisava. Coisas do corpo só nele se resolvem. Confesse. E eu confessei àquele homem a história que lhes conto. E outras. Ele ouviu tudo, atento, acessível, o padre é um santo homem, não tem pecados, só veio para me livrar dos meus ímpetos. Despiu-me, e deitou-se sobre mim, e, diferentemente de Ambrósio, não morreu. Naquele momento ocorreu algo inesperado: minha temperatura diminuiu.

Ricardo Fabião (Fevereiro, 2022)

julho 08, 2011

Olhares e silêncios



             O segredo daquele mundo limitado era mantido pelo nosso pai, que punha chaves em tudo o que éramos, para que não enxergássemos livremente o que havia. Sob essa presença austera e distante nada crescia, só calava; vivíamos em eterna suspensão de ser, sensação amplificada pelo som mudo das coisas de fora ― o cercado largado embaixo do sol, o mato seco e o cheiro dos quatro lados da nossa casa. Dentro, no pensamento, éramos apenas crianças do tipo que nada podem saber. E como não nos era dada a faculdade dos desejos e dos argumentos, recolhíamo-nos em silêncios e acasos, a esperar o para sempre dos dias. Nesse impasse, não havia olhares nossos que pudessem com os dele, nem mesmo palavras. No caminho, tudo se partia em lados incomunicáveis.
            Alguém dissera, quando o segredo ainda era por dois ou três partilhado, com palavras sussurradas, para que assim fosse demonstrada a gravidade do dito, e soasse apenas uma vez, que nosso genitor era pai também de outros que não conhecíamos; e que moravam noutras terras para lá do dia mais longe. Para nós, então, eles passaram a ser os outros, a quem possivelmente o silêncio oferecera, desde o nascimento, a mesma impossibilidade de ser plenamente. Esses desconhecidos tinham direito a abraços de chegada de um pai? Recebiam olhares de afeto, algo que lhes pudesse indicar algum sentimento paternal? Ou eram apenas crianças, assustadas, acostumadas a olhar e silenciar?
            Então o segredo ali conosco era só a interdição das palavras, pois longe delas havia quem gozasse, em falso cálculo, de anonimato – um pai no seu silêncio. O medo, sim, era fato instituído, insustentável, alargava e tolhia os sentimentos, dava voltas em nossas percepções de família, de amor, de mundo. Sabíamos e não podíamos saber. Nossa mãe, pelos cantos, algo esquecida na sala e na cozinha, com intenções de conduzir e aliviar o crescimento de seis filhos, calava mais naquilo que não se via. Se ela vivia sem revelar sofrimento era no jeito que se entregava à vida, acostumada com a partilha desigual dos caminhos que estão no desenho do mundo. Por isso, de olhos levados para além das janelas, ela só sabia aceitar.
           Nosso pai, por outro lado, tinha as permissões do caminho; saía com a madrugada, horário que julgava ser viável para o sustento dos seus segredos. Quando acordávamos, éramos mais olhos por sobre as coisas e mais medo por dentro na alma. Era medo mesmo, de gente sem dono, não amenizemos aqui a dimensão disso; medo de que aquele homem calado não retornasse. Ele não traria sorrisos, dias depois, quando chegasse imenso à nossa porta, pesado, a pedir por água e comida; não afagaria nossas faltas, tampouco demonstraria alegria por estar entre nós. Contudo, ele era o mensageiro do mundo de todo canto; era quem dispunha dos olhos para o nosso depois; fundara naquele silêncio o chão por onde, bem ou mal, deslizaríamos nossa existência. E foi assim que crescemos todos, ou, pretensamente isso, fingindo que aquela tristeza era somente um segredo.
            Quando nosso pai morreu, havia aquela esposa ao seu lado, dizendo-se realizada em quase tudo, pois aprendera a calcular a vida sob o jugo de uma matemática absurdamente cruel. Conseguia dizer-se plena, e ainda do pouco ofertado sentir falta. Estava ali, no recolhimento de sua condição, desde sempre, a colher silêncios, sem poder comentar sobre as noites de lamento e solidão; suspirava só. Nós, os filhos, com exemplos a serem seguidos, outros tantos a serem deixados lá no tempo em que tudo era medo, ensimesmamo-nos. Conhecedores, já, da lacuna, tomamos o pé da vida e fomos.
            Essa história, que pouco se conta de tanta palavra calada que é, desenhou as curvas da estrada, as quais percorremos hoje com desconsertado silêncio; e esse trajeto só foi possível porque em algum momento recebemos a permissão daqueles olhos de brilho faiscante, acendendo e apagando na memória. Desses olhares herdamos imensos abismos, os quais, devido à profundidade, impuseram limites, mas que, de tanto vazio, inspiraram ânsias de amplidão em nossos pés.
 
Ricardo Fabião (Julho, 2011)

Texto para o desafio de Julho - Fábrica de Letras
Tema: Segredo

A imagem acima é de Constança Lucas; disponível na página: http://constancalucas.blog.uol.com.br/arch2007-10-01_2007-10-31.html

junho 26, 2011

Um minuto para nunca mais


"Nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos,
nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra".
(Friedrich Nietzsche)
        
          Uma cumplicidade de afeto guiava Marcos e Heloísa, presumidamente lúcidos, dentro daquele instante na cidade. Ela seguia confiante, com o seu coração acelerado, que era um motor movido pela promessa de futuro a dois e filhos; e ele, com a convicção de que investira acertadamente naquela possibilidade de sentimento compartilhado, buscava e permitia; e sentia-se feliz por estar ali. Além dessa crença em histórias felizes e mundo melhor, que é algo de dentro e do pensamento, queimava um leve sol sobre as calçadas, agradável nos últimos raios. E supondo que tudo é ajustado, os dois acreditavam.
         Desde criança, vivera Heloísa sob a custódia de uma existência dentro das medidas, em que só cabiam os ensinamentos estabelecidos já em família: amor e respeito, duas grandezas complementares, cujas forças teriam potência para enfrentar a brutalidade dos dias. Aprendeu de tal forma essa lição que deitou-a como caminho, e rumou. E cresceu. Agora, completava vinte e oito de vida, radiante, a julgar-se ainda menina, de tanta paixão, nos braços de Marcos. Era como se enxergava, entusiasmada com a própria respiração, certa de que viveria mais oitenta anos ao lado dele. Essa era a história que sabia contar sobre ser e viver.
          Quando se conheceram, dois anos antes, ela narrou essa alegria para Marcos, e, ele ouvindo, deixou-se contagiar, e disse ‘sim’, e casaram-se. Depois, amontoando-se os dias, consolidou-se o tal projeto de amor: estrada de tempo vezes espaço vezes profundidade à qual se entregaram e na qual fincaram o passo. E seguiam crédulos, movidos pela promessa de mais cumplicidade, naquele que era um dia especial. Ela havia saído mais cedo do trabalho para um sorvete de aniversário. Foi o que sugeriu como presente ao marido: apenas vê-lo e ouvi-lo, enquanto uma montanha gelada de chocolate seria devorada. Era nisso que residia sua eterna ânsia: um amor tranquilo para tomar como chão. 
         Terminado o sorvete, e estando mais suaves os raios solares, deixaram a sorveteria, e se aventuraram na incerteza das ruas. Agora, inspirados pelo movimento colorido dos carros e das pessoas, entretinham-se com planos de viagem ao exterior, de um cachorro dentro de casa para desfazer alguns silêncios, plantinhas floridas na varanda, essas e outras maneiras de sorrir com a vida. E assim avançaram os minutos e as esquinas, ao passo que os sorrisos e os olhares se tornaram todo o instante. Ela respirava profundamente para absorver a plenitude daquele pôr de sol, calculando que nada, em lugar nenhum, poderia experimentar tão perfeita sensação de completude. 
          Entretanto, ainda que parecesse improvável aos dois, apareceu ali, subitamente, aquele de harmonia quebrada, um ser moldado no desespero, de esperança há muito deixada no esquecimento. O desconhecido esbarrou sua trajetória errante no casal. E essa junção de energias, pela diversidade de suas intenções, mudou o pé e a estrada: nenhum deles avançou depois daquele encontro. E foi tudo muito rápido, o revólver na mão do homem, os insultos sibilados, as falas desencontradas, a carteira que ele exigiu, o relógio, os aparelhos celulares, tudo colocado em seu bolso, dentro do casaco, com mãos trêmulas e respiração descompassada, de qualquer jeito. E não houve reação contrária; no entanto, ouviu-se o disparo. Foi uma bala que, saindo do tambor da pistola do assaltante, procurou lugar acima do maxilar de Marcos, e fez caminho adentro em algum cinza de sua cabeça.
           Ele tombou sem chance de um instante seguinte de consciência, pesado, sobre a incerteza silenciosa da calçada. Heloísa, em resposta, com força desconhecida, empurrou aquele que lhes invadiu a tarde, alheia de suas ações, aflita, descompensada. O homem caiu. Apenas ela ficou de pé. Apanhou a arma que estava à sua frente, e a segurou tremulamente. Agora, punha-se em vantagem. Só teria de decidir. Tinha pavor à ideia, porém alvejou a perna daquele que já se levantava na tentativa. E voltou-se para o marido, que buscava respiração nos minutos demorados: Marcos, Marcos, gritava, e nada vinha como resposta.
         No outro ângulo do fato, o desconhecido se arrastava na calçada, com ânsia de outras ruas. Ela então pensou em vetá-lo para sempre, mas lembrou-se de que não acreditava na violência, tampouco nos discursos de força bruta como medida de defesa. Quis e não quis. Olhou para Marcos; queria ouvir uma palavra que orientasse suas ações, mas encontrou um olhar parado. E cresceu ainda mais o seu amor, e, paradoxalmente, o oposto dele. Gritou. Odiou. E conferiu o fim da tarde ao seu redor: nada seria como antes. Seu marido, que, nos projetos de mundo perfeito, seria a mão para a frieza das noites, contorcia-se agora na tentativa de unir ar e pulmões, e não chegava lá. Por que o homem atirou? Por quê? Onde recomeça a história depois de um final infeliz? Se Marcos não sobrevivesse, o que faria com tantos projetos pensados a dois? E aquelas tantas viagens a serem realizadas? E os filhos que ainda seriam gerados? Não havia respostas ajustadas naquela situação.
         Subitamente, algo irrompeu dentro dela. Apanhou o revólver. Enfim, decidiu. Por tudo que perdeu e perderia adiante, pela esquina que não sairia da memória, pelos sentimentos que certamente a sufocariam a partir dali, por todos esses cálculos realizados às pressas, inexatos, inconclusos, afastou-se do marido, e se aproximou do assaltante, que tentava se levantar. Respirou sofregamente, olhou em volta; que força e beleza teria o sol depois daquela tarde? Ergueu levemente o braço, e escolheu um ponto da cabeça do homem. Ouviu-se então o segundo disparo.
         No dia seguinte, nas manchetes impressas e digitais, sob as imagens de uma Heloísa assassina, constavam notas de repúdio, algumas de felicitação. Era a história da moça bem-criada, estudante de Fisioterapia, que atirou em homem desarmado. O assaltante, vítima segundo parte da população, não teve chances de defesa ― era um chefe de família, matara apenas quatro ao longo da vida. Sequestrava pessoas e explodia bancos para sobreviver, um desamparado.
        Quanto às informações sobre Marcos, noticiou-se em tímidas linhas que morrera a caminho do hospital, sem poder explicar o motivo de sua demora para aqueles que aguardavam suas instruções na festa-surpresa preparada para Heloísa. Mas, curiosamente, tal fato interessou muito pouco a muitos.

Ricardo Fabião (Junho, 2011)

Texto para o desafio de Junho - Fábrica de Letras

junho 06, 2011

Aos porões o sempre



        Que se diga inicialmente que havia tristeza e silêncio nas horas do homem da história. Quanto à descrição do quarto sem luz em que o encontramos, que se enfatize a impossibilidade da porta e das janelas - era o mundo do homem só. Sobre as dores que o cercavam, saibam, não havia sono que o libertasse de si nem remédio para as feridas que colhera no tempo. Em seguida, mencione-se que, a metros dali, dormia a coordenadora da casa de repouso em que morria lentamente o referido homem da tristeza. Essa senhora, ao saber da escuridão e dos porões que guardavam as tristes memórias do mundo de antes do senhor do quarto, decidiu convidar à história quem dela faria melhor uso – a moça da vingança. 
        Assim, apareceu nessa tristeza contada a mulher que tinha mais passado no seu presente, e carregava em sorrisos de metade os eternos traumas e as ausências. Ela começou a visitar o homem do silêncio na semana seguinte, fingindo ser aquela que usava afeto e sensibilidade como motivadores de sua repentina chegada. Asilos são lugares que conseguem somar amistosamente desconhecidos – gente que precisa com gente que se doa. E abrindo-se todo o caminho, como se fosse acaso, os dois se conheceram. E sendo vingar-se o seu único propósito na história, sentiu-se traída por si mesma, quando só conseguiu, diante daquele homem velho e decrépito, pronunciar "olá". Como lutar com monstros indefesos? 
        Sem ter respostas ali, procurou um banheiro. Diante do espelho, decidiu silenciosamente: mudanças. Com segundos planos, ela estendeu ao homem da solidão parada a estrada das mil possibilidades. No primeiro sorriso ele já acreditou. E foi tanta visita aos sentimentos que ele voltou a dormir. Também nos dias de sol ele arriscou alegrar-se; e com mais medidas de tudo voltou a amar. A moça da intenção velada, com idade de filha, devolveu, curiosamente, o oposto do que recebeu em dobro. Daquele ser semipresente reinventou um homem, deu-lhe vida. Então o amor passou a ser o tamanho do quarto, que ficou pequeno para existir dentro e só. Ela o levou aos passeios da cidade, aos sorvetes das tardes, ao colorido movimentado das manhãs, como se o amasse como pai, como se houvesse isso na intenção. No entanto, ele, amando-a como se fosse filha, abriu os caminhos da alma, tanto assim escancarada para não haver volta, sem calcular quanta dor estava implicada nisso. 
        Eis o resultado: com amor consolidou-se aquele controverso laço. A moça conseguiu. Aos de vingança, o melhor momento de ataque é o percebimento da fragilidade do adversário. E foi isso que se deu naquela tarde. O homem, agora da alegria, ouvia música em seu quarto, quando de repente ela entrou, sem cumprimentá-lo, e espalhou sobre a mesa várias fotos de um casal. Eram imagens de rosto em papel amarelado: mãe e pai da moça. Os pequenos recortes de jornais também ali espalhados noticiavam a morte dessas pessoas – discursos abafados, corpos enterrados em matagais. A tragédia inteira, divulgada amplamente pela mídia, décadas antes, mencionava uma suposta desavença econômica entre duas famílias. Esse era o motivo. Para que o crime se consumasse, houve o mandante, o pagamento, o serviço, o executor, o crime, o local, os alicates, as cordas e os porões. E houve depois disso o tempo, que transformou o assassino em velhinho indefeso, morador de uma casa de repouso. 
        Subitamente, a tristeza, velha companheira, rebocou-o de volta ao passado, ao silêncio do pequeno quarto na escuridão. Olhou para as mãos enrugadas. Não havia água que lavasse ali a sensação de sangue, nem música que apagasse os gritos ainda lá nos corredores sombrios da memória. Ela insistia com o amor, fitando demoradamente as fotografias, deslizando os dedos sobre aqueles sorrisos de papel, a maldizer sua condição de órfã, com perguntas sem intenções de respostas, só desabafo. Esse tanto de amor presenciado, recém-percebido, sem doer em lugar certo, torturava o homem da tristeza sem fim, que tanto investiu nas tramas do caminho oposto - violência. Curiosamente, a última lição a conferir desse amor era contra ele mesmo, algo a roer-lhe a consciência no sempre dos dias, a mostrar-lhe tardiamente o outro lado da história. 
        A moça da vingança chorou mais três instantes e saiu. Antes, beijou, por mais intenção de ferir, a testa daquele que assassinou seus pais: era somente um homem idoso, assustado, vencido, mais morto que vivo, a secar no silêncio que cresceu dali para muito mais. Depois da porta, ainda que sem solução para as lacunas, havia o caminho. Ela foi, mas nem assim chegou.

Ricardo Fabião (Junho - 2011)

Texto para o desafio de Junho - Fábrica de Letras


A imagem acima é intitulada "Las manos del terror"; 
foi pintada por Oswaldo Guayasamín (1919-1999).

março 20, 2011

De vermelho o que se fez novembro


Aos que decidem viver suas próprias vidas

        Diz-se que, naquele lugar, vivia-se segundo os fundamentos da conservação, atendendo-se cegamente à ideia de um "viver sem entender para nunca ter de mudar". Dessa forma, cabia no tempo aceitar a existência como ela é, respeitá-la, fazendo disso o propósito de viver. Então sofrer era história que se imaginava distante; estava nos recantos remotos da cidade, nas vidas errantes de outros povos; não se materializava como coisa experimentada na pele de conhecidos. Para aqueles do cercado, viver era aceitar o ali parado do mundo que não ia. Apenas o silêncio quebrava o limite, e era maior que as distâncias. Sofrimento, portanto, estava nesse depois das coisas, e ninguém arriscava provar, por causar barulho, por provocar palavras. Contudo, depois, apareceu ali a mocinha do sapato, que tomou a curva para uma dor, e nada mais descansou. 
        Assim, era mantido, com esse cuidado, o tamanho de existir. E não havia força que permitisse aceitar as coisas viventes do além das cercas. Aquele lugar era a única possibilidade do mundo, onde o destino colhia-se com a mão, no formato suportado, tão já esperado e previsível quanto as frutas em suas temporadas. Não havia novidade que criasse novos sorrisos, nem desvio que gerasse vida além; o que se tinha para sorrir vinha do sempre, com a mesma intensidade, como ele é e se repete adiante. Sob esse desenho tímido de existir, os desejos dos quatro filhos homens da história eram estreitos, que não arriscavam coisa além da existência medida a palmo. Muito quando havia uma moça para o deleite dos olhos era em raro evento, e tudo ocorria sem chance de ir mais que imaginar. 
        O pai, então, o grande defensor do limite, repetidor obstinado das coisas como as coisas devem ser, mantinha a família dentro do cercado, com seu coração apertado de amor e zelo, a defender que vida boa é aquela que se conhece no passo, por isso era feliz com seus dois pés sobre a plantação, no tamanho em que sabia existir. E isso era tudo assim até que nasceu Teresa, que pediu um par de sapatos quando percebeu que já era menina no tempo de crescer - tudo muito rápido aos de vida parada no cercado. E não demorou para que um porco assado com boca assim aberta na mesa do sapateiro fosse o pagamento por um par vermelho, calçado no andar da mocinha depois, que correu feliz e livre, como nenhum ali antes provara. É certo que tal fato riscou um caminho distante aos que perceberam. 
        Foi um susto para aquelas pessoas criadas no limite. Ninguém antes arriscara ser sabendo ali. Ter liberdade? Como trabalhar esse tanto? Como traçar um plano ajustado entre as possibilidades de se pensar e as de se viver? Que tamanho assume o pensamento dentro de uma alma? Eles fariam tais perguntas se soubessem. Não fizeram. Mas elas estavam lá, gritadas silenciosamente, sem possibilidades de suscitar respostas corretas, materializadas no impasse, incomodando aquela gente. Porque sendo sapato, porque sendo menina, porque sendo vermelho, porque sendo cercado, porque sendo um mundo parado, porque estando tudo sob impositivo silêncio, não havia como contestar, como saber, compreender, experimentar a vida plenamente. Não havia confronto porque não havia discórdia - não havia desvios.
           Depois, com os sapatos sobre a roça, a jovem decidiu imaginar que grandeza era coisa que se encontrava longe, onde a montanha curvava e ia com seu desenho até perder-se de tanto dia para lá. E sabendo questionar como fazia, e buscando ser feliz como vivia, passou a evitar os olhares que pareciam perguntas e os silêncios que valiam como ofensas. E pensou tanto em crescer que a noite de abandonar o cercado chegou. E foi na intenção toda e só que ela partiu para completar treze anos em alguma estrada que só ia. Deixou apenas um barulho mudo de sorriso na última cerca, e rumou inteira, dentro da noite, para si e para o desconhecido, com o sempre do seu vermelho aceso. 
        Conta-se,  ainda que se evite, que muita alegria afundou com isso: um coração de pai lançado de vez ao alheiamento, coisa que perdeu a força de unir respiração e vida; uma mãe que calou no útero o corte da linhagem, com uma dor que cobria a cor de ver as coisas, murchou. E de silêncio, os rapazes, impossibilitados de entender como era um desejar depois do cercado, ensimesmaram-se. O sol por isso roeu-lhes a pele durante um novembro diferente, que não findou por dentro, na alma. Ficou aquele vermelho no alto das coisas, o do sapato, o do destino para depois da encosta, tudo longe da mão, do entendimento. 
        Enfim, não houve mais Teresa que lhes indicasse outras ruas; ficou o mundo só ali, no desenho inerte da previsibilidade. O pouco que ela disse, os verbos e os adjetivos que usou para significar vida diferente, tornou-se lembrança indevida, coisa proibida dentro dos quatro limites. Puseram, então, uma infinidade de dias sobre tudo isso, e viveram como sabiam. E com o tempo, que insistia alheio aos conflitos e às dores, vieram novas semeaduras e colheitas; tudo plantado para permitir a consumação da continuidade. Ainda assim, calando-se tão forçosamente, era certo que restasse o pensamento.
        Para a manutenção do cercado, por fim, não mais quiseram receber notícias da mocinha, que arriscou caminho desviado para ser humana sem eles. A vida, por essa razão, voltou ao tamanho, o sorriso ao formato das cercas, as frutas às temporadas previstas, tudo assim. E foi muita data que passou; contudo, ainda no último dia de existir, não havia palavra que lhes explicasse a intensidade daquele vermelho - tão novembro, tão diferente, tão para sempre.

Ricardo Fabião (Março - 2011)

outubro 29, 2010

Por uma diferença inteira



Para Oscar Wilde,
que não pôde usufruir, plenamente, uma diferença inteira.


Naquele instante desconectado, entre danças sem música e palavras sem som, ele era apenas o menino que não sabia protagonizar uma história de menino como um deve ser. Faltava-lhe o código social. Cansava então disso sozinho, dentro do ar pesado, parado, com sua bola de pensamento mudo a mover-se lentamente sob o queimar da tarde. O pouco barulho que ele produzia em existir provinha do medo de acordar o mundo como ele é, e do temor de permitir a imaginação como ela voa, porque imaginar é ter muito tamanho fora, ficar grande demais, solto no susto que há em ser gente. Disso ele tinha medo. Restava-lhe então calar e tentar pôr disfarces sobre a transparência dos seus desejos. Desse modo, experimentando solidões e silêncios, percebeu muito cedo aquela diferença, que era uma força ainda no grão. E assustou-se.
A partir desse incômodo, pôde finalmente constatar: ser menino é de um cuidado tão assim que só o medo de não ser na medida certa traduz a dimensão. O mundo dita o formato de sê-lo, e não sabê-lo ao certo é menos viver. Mas o menino do pensamento mudo não acatava esse ideário pré-determinado; ouvia as regras e cansava disso, dentro da tarde suspensa, oca de tanto descaminho. Como me encaixo nas coisas? Que tipo de amor carrega um diferente? Enquanto não respondia a isso, chegava a noite, e ter apenas onze anos é de um medo já no começo da existência, um sendo que avança mais fundo com o tempo, e esse afundar é muito escuro quando não há chão para a firmeza do passo. Corria então para o quarto, com o coração fora das horas, desejando encontrar-se consigo. Lamentavelmente, ali o silêncio logo ampliaria a sensação da diferença – algo que só cresceria para muito distante do seu entendimento. Punha-se à frente do espelho, despido, vencendo as máscaras da matéria até enxergar-se completamente; todavia, lá, muito dentro, morava uma voz que não era a sua, mas era. Acenava em vão, e não se reconhecia.
Deitava. Ficava de contar minutos, apenas respiração, na penumbra parada entre tomar conhecimento de si e aceitar-se. E logo sobrevinha a bola de pensamento mudo:  quantas dúvidas comporta uma vida tão pequena? Puxava o lençol, e tomava todo o impasse para esconder dentro dos seus medos, isento de cores e alegrias. O dia seguinte seria novamente o percebimento do desvio, e assim o sempre. Não havia régua que o medisse, não havia chão em que aprumasse sua transparência disfarçada; seu código era outro, seus brasões, sua ânsia, seus ímpetos. Seu suor seria derramado por outro sacrifício quando chegasse a hora. E assim permanecia a incerteza: eu vou com isso?
O mundo a repetir que meninos são meninos como meninos devem ser conseguiria converter sua diferença em sensações de semelhança? Haveria tal força? E a menina dentro dos seus olhos, refletida no espelho, quem era? Com o traço impreciso de gente pequena rascunhava na mente o mundo como sendo uma imensa bola hermética, onde códigos e leis têm mais protagonismo que pessoas. E, percebendo-se, concluiu que a diferença é uma bola ainda maior, da qual todos fogem a calcular que ali não há caminho para conduzir um bem-estar. Poucos querem arriscar permitir outras estradas; é mais cômodo reproduzir os conhecimentos e desconhecimentos do mundo,  e simplesmente seguir como a maioria faz. Ele, no entanto, tão deixado ao acaso, não tomava caminhos por não saber ao certo o formato condizente do seu ser - um desviado, dançando sem música, dentro da vida que nunca passava.
Tudo assim percebido doía baixinho no início do sono, sob aquele lençol deslizante que nunca cobria. Ele lamentava. Depois viriam outras manhãs para o cumprimento dos calendários. Ao mesmo tempo, cresceriam os silêncios, e assim outro enorme cinza se transformaria em tarde, e a tarde não traria solução para a menina dentro dos olhos no espelho, e depois noites inteiras reforçariam o conflito. A diferença levaria o menino a dançar sem música, a compor lamentos sem doer em lugar certo. Seria interessante experimentar o vão completo do desvio, mas, depois dos cálculos reais, ele compreendeu que era incerteza demais para o tanto de normalidade que circundava o seu mundo.
Numa certa manhã, utilizando diversos disfarces, conseguiu trancafiar a diferença dentro de algum ponto inativo de sua mente. Para concluir o processo, maquiou gestos, travou braços e deixou de ouvir a música que o fazia dançar. E temendo que a diferença lhe escapasse pelos olhos, passou a evitar espelhos. Em seguida, deixou emergir de si um ser inventado, que passou a distribuir sorrisos que diziam “sou normal; aceite-me, por favor”. O restante da história não demorou a ter encaixe. aquele fio em que se ouvia uma voz suave pôs timbres graves, masculinos, e logo passou a soar aos outros uma pessoa diferente. A imensa bola hermética do sistema que ali passava no sempre, superlotada, com o mundo dentro, no caminho que deve ser, parou na primeira esquina, e ele entrou. E foi muito bem recebido por todos; afinal, a diferença foi silenciada.
A partir disso, com os ímpetos  deixados às grades, um bem-estar inventado passou a contar a sua história: "Estão vendo? Eu sou normal". Contudo, por estar um disfarce constituído de forças antagônicas, há quem encontre nisso mais de um final na história.

Ricardo Fabião (Outubro - 2010)

Texto para o desafio de novembro - Fábrica de Letras
Tema: Transparência

A imagem "O menino e a boneca" é da autoria de Graça Martins;
disponível na página  

outubro 02, 2010

O segredo da tarde sem luz



Tudo começa com a chuva de algum dezembro, assim inesperada para o tamanho do dia. Para os que dividem o instante isso desce além das necessidades, pois não excede alguns baldes a sede das plantas, nem comportam mais que dez minutos de água caída as ruas e as praças. O que molha depois disso impõe ilhas ao dia, desmonta projetos humanos. E como há desvios nisso, imaginemos uma casa no meio de tudo, e dentro uma cara de menino impossibilitado na janela da sala; depois, lá fora, com um amarelo de vestido sob a tarde, a menina da história, que corre com a mãe até alcançarem o primeiro portão aberto, e logo uma varanda, que serve de abrigo até que não haja água demais no céu para seus trajes de sair. Calculemos agora a intenção do destino: o menino corre até a cozinha, mãe, há intrusos em nossa casa. Da janela, porém, eles logo compreendem menina e mãe, pessoas que vêm com a chuva, que logo retomam seu caminho, não há problema em acontecer numa varanda de empréstimo. Lamentavelmente, é natureza da chuva não corresponder às horas e aos desejos, e o tempo avança ali. Então fica bem oferecer uma fatia de bolo à menina com quase oito e à senhora com algo depois de quarenta, que não representam perigo. Elas entram, boa tarde, então as mulheres se reconhecem de algo antes, e nisso elas se inserem como se fossem velhas amigas. Os dois menores, silenciosos, de olhos na diferença, buscam outra linguagem, a da desconfiança, da confirmação de posse do território, o ajuste de forças que sempre determina o instante seguinte. Sentam-se e comem de olhos no impasse. Quando o assunto das mães torna-se muito adulto é melhor dizer às crianças que sejam crianças em outro lugar. Sejam. Elas procuram lugar, procuram, procuram, e, de tanto que são crianças, identificam quintal e chuva como a melhor das possibilidades, sejamos então felizes. Assim, com meias roupas, as de baixo, sem cálculos disso, eles entram no mundo molhado da tarde sem luz; deixam-se aos saltos, aos impulsos, imaginam piscinas nas poças lamacentas, arriscam abraços, ensaiam olhares, percebem-se, correm, sorriem, caem, misturam-se aos cheiros do chão. Ele a beija na face, sem entendimento, sem medidas de fazer, entretanto, considera mais estranho todo o resto, o impedimento, pois logo ecoam os gritos das mulheres, um, dois, três, muitos; ele toma palmadas e ela é arrastada pelas ruas com o vestido amarelo na mão. A família da garota, gente que responde bem aos ditames da década de 50, deixa o bairro no dia seguinte, certa de que esquecer completamente é caminho possível. Depois disso, como sabemos, o tempo transforma crianças em adultos, desvios em segredos. Hoje, eles não se conhecem, não lembram mais o fato; afinal é apenas uma tarde no meio de todo esquecimento necessário ao vivente. Todavia, não sabem dizer ao certo por que gostam tanto do cheiro sem luz da chuva - algo que futuro nenhum pode transformar em pretérito; conjuga-se sem verbo, alheio à consciência, em eterno presente. Não passa.

Ricardo Fabião (outubro, 2010)

Texto para o desafio de Outubro - Fábrica de Letras
Tema: O cheiro da chuva

setembro 22, 2010

Cartas ao dia seguinte

 
"A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata".
(Virginia Woolf)

                 Logo que se firmava o sol, ela acordava. Abria os olhos, e rapidamente deixava a cama, explicitando o seu descontentamento por dormir além do permitido. Estava atrasada, como sempre. O tempo, segundo sua percepção, era um senhor implacável, um negociante inflexível. Assim sendo, apressava-se em pôr organizadamente todas as suas atividades diárias. 
    Antes dos afazeres, porém, caminhava até o portão da frente para conferir sua caixa de correspondências. Apanhava os envelopes, abria-os, e logo estava a sorrir ou a chorar com os enredos registrados no papel. Depois, punha-se a fazer curvas no interior da casa, indo de um lado a outro, julgando-se a mais atarefada das mulheres, limpando, mudando objetos de lugar, com estratégia e cuidado, como se fossem peças num jogo de xadrez. Os relógios, espalhados por todo o ambiente, impunham-se como sinais de trânsito, como juízes inquisidores de suas ações, atirando-lhe flechas de prazos e atrasos. Olhava-os, evitava-os, e rapidamente iniciava outra atividade. Não poderia parar. Nunca.
        Era isso: ela aparecia vivendo assim, desde as primeiras horas, entre os despertos raios da manhã e as lacunas adormecidas dentro de sua mente. Sem saber os caminhos e as saídas, entretinha-se com vassouras e ferros de passar, fingindo-se preocupada com as exigências do seu dia. Inventava esse caminho de ter o que fazer até que não mais houvesse o que pensar, e não cansava dessa fuga. O que se comenta acerca de tal alheiamento é que ela guardou a última lembrança de existir no sótão, para que não desse com o peso de ser nas horas. 
        Nessa falta de luz interna se amplificaram as ausências, todas, e, ali, sem dia certo, data, sem ar, só mesmo uma desistência de vida cabia. Quando depois do sol, concentrada, escrevia cartas na varanda, para que no papel pudesse tornar-se personagem principal de alguma história. Nas linhas relatava as novidades do dia, importantíssimas, convinham a uma solidão. Escrevia-as com estreitura e contenções de quem confessa pecados. Antes de deitar, guardava as folhas escritas dentro de envelopes coloridos, e os levava para a caixa de correspondências. 
        Horas depois, assim que se firmasse o sol, ela acordaria sobressaltada, descontente com a falta de tempo, e repetiria a sua trajetória diária, vassouras, ferros de passar, panelas, coisas do seu sempre. E leria as cartas que recebera, com as quais, sendo ela emissora e receptora, retroalimentava sua solidão. Com o entardecer, estaria concentrada na varanda a lhe escrever novamente. Inventava algum remetente saudoso; depois, preenchia o espaço do destinatário com o próprio endereço. O envelope dormiria na caixa de correspondência, e de lá seria retirado por ela no dia seguinte.
       Ainda no portão, acreditando estar surpresa, gritava: "chegou uma carta para mim". Abria-a, e conseguia sorrir absurdamente com as histórias narradas no papel, algo apreensiva, com ânsias de adolescente. Emocionava-se. Os parágrafos traziam as narrativas felizes do seu interlocutor, e ela, atenta, lendo, sentia-se importante, aquela a quem os amigos procuram quando desejam escrever suas aventuras. Lia uma vez, duas, às vezes uma lágrima escapava, denunciando a realidade. E como ainda era manhã no mundo ali, corria ao fogão, apressada em pôr panelas no fogo, pois logo haveria crianças a correr na varanda, a saltar por entre os arbustos do jardim, tudo de muito movimento e vida ao ar livre. Mentira. Não havia criança para uma instalação de luz de dia diferente; até o sol naquela realidade era só ocaso. 
        A casa havia sido deixada ao que cala e seca, aos caminhos sem ida, e ela era mais impasse que mulher; por isso a importância da leitura em voz alta daquelas cartas ― para que delas reverberasse um caminho diferente, uma saída. De frente para vida, percebendo-se, ela não saberia rumar, dividida que estava entre os dois destinos possíveis do seu dia: entregar-se à história passada, que não mais voltava, ou àquela presente, que não avançava, um ponteiro de relógio quebrado, um mundo sem ir. Somente o tempo, com as chaves de tudo, seguia soberano, a devorar as curvas do depois muito. 
        Ela fechava as cortinas, pois não queria luz nem horizonte. O de qualquer jeito de sua vida era demais pesado para se levar sabendo. Agora, ela e aqueles objetos abandonados eram uma casa no meio do caminho empoeirado, sem filhos para uma aflição, sem par para um café. Ali ninguém chegava; por ali não se passava. Nenhum viajante perdido bateria à porta para pedir água. Nada barulhava naquela solidão além da porta entreaberta, perpassada pelos dois ventos sobreviventes, confusos. Coisa nenhuma alcançaria aquela solidão, não sob aquelas condições, estando toda ela dentro de sua conflituosa mentira. 
        A casa fora tomada como fuga; ali ela trancou-se, e pôs cadeados em tudo. Não demorou para que todos esquecessem o caminho que levava àquela mulher, que trancafiou as possibilidades de ir com a vida após ser deixada sem amor ao próprio passo. Dessa maneira, alheia, com o deitar do sol, escrevia sempre. E foi assim até o instante em que deixou de ver-se e de ouvir-se, e, logo, a esquecer-se de ser; mas não morreu quando chegou o dia: preferiu seguir com a solidão. 
        Guardou-se eternamente dentro das cartas, de todas aquelas que havia inventado e das outras, as que iria escrever, e lá permaneceu ausente de tudo ― dentro da caixa de correspondências. Com a chegada da noite, ela escrevia cartas ao dia seguinte.

Ricardo Fabião (Setembro - 2010)

Fogo obsessor

                 A velha placa de metal com os dizeres “A mulher que tudo vê e ouve, e que de todas as coisas sabe” estava na parte super...