agosto 01, 2009

Ficção científica (conto)


Esse negócio de sensibilidade poética não vai te levar a lugar nenhum; poemas, contos, histórias inventadas, isso não pode garantir futuro de ninguém, meu filho, pode ter certeza. Você conhece poetas ricos? Dos seus amigos burgueses quantos têm pais que ganham a vida escrevendo contos? Fernando, a vida de viver gasta o passo em mundo menos colorido. Tudo lá fora aponta con-tra a fantasia, seja realista, mas quero ser poeta, e viver de quê? Certo, mãe, deixarei a poesia para outro momento, talvez uma segunda chance, não haverá, querido, siga seu irmão, talvez, aceite os fatos, eu tento.
A coisa para Fernando estava nesse ponto: riscar o que havia de poesia em sua vida para retomá-la por outro ângulo. Uma arrumação geral, toneladas de versos a serem removidos, alguns mofados por baixo dos tapetes, dos móveis, outros incrustados nas paredes do seu dia-a-dia, só com raspagem profunda largariam; teria que remontar seu dicionário, estabelecer novas conexões, esquecer alguns livros, manter certos amigos na geladeira, pendurar a maioria dos discos e evitar tudo que julgava ser lugar de buscar poesia. Terminada a graduação em Administração, outros barcos estarão à espera, ofícios que exigem comportamentos geométricos, vida para se viver de fato, conquistada com luta armada, com olhares que se lançam sobre o tempo para fotografá-lo, registrá-lo sem retoque e maquiagem. Enfim, realidade e ciência, como faz o irmão, engenheiro químico, cartilha de sua mãe.
Fernando sofreu alguns trabalhos científicos durante o seu curso, afinal tinha que enxugar a semiótica, de modo que o texto não atirasse sentidos em tantas direções, não distribuísse para os leitores links disfarçados de frases. Era preciso argumentar desviando alma e instabilidades de autor, distribuir períodos de modo objetivo, seco e acadêmico, ciência. É assim que se deve escrever para alcançar os lugares, filho, seu professor de Metodologia tem razão.
Foi tanto ensinamento, tanta imposição de mãe, de pai, de formato de vida brasiliense, cercada por uma máquina quadrada de governo, que pôs a poesia e a possibilidade de ficção na prateleira mais alta do esquecimento. Para selar a empreitada, matriculou-se em duas especializações voltadas à gestão de empresas. Aperfeiçoou o seu Inglês, iniciou Alemão, e foi neste período que conheceu Clara, de olhar provocante, com quem esbarrou num intervalo, trabalho na Esplanada dos Ministérios, há uma vaga no departamento em que trabalho, você aprende fácil, meu chefe, Sr. Túlio, é pai de uma amiga, posso indicar você, sério? Por que não, você é bastante inteligente, percebi como argumenta, como olha, podemos tomar um café?
Não foi o convite, mas o que estava por trás das palavras, os olhos quando se juntam com a boca e tudo desce e sobe, dando giros na respiração, que ele aceitou para logo mais outras descobertas em silêncio; as palavras Fernando guardou para uma certa entrevista marcada com o tal Túlio, encontro na semana seguinte, Esplanada dos Ministérios, mundo que ele desconhecia.
O rapaz que lá chegou era um Fernando diferente, de paletó e barba feita, fez uma prova, cruzou os dedos e entrou na sala do homem, bom dia, gostei do texto, você escreve bem, rapaz, bastante científico, imagino que seja o método ensinado nas faculdades, não é? Estilo adequado para pesquisas. Sim, procuro ser o mais objetivo possível, pés no chão, nada de ficção, olhos voltados para o que pode ser tocado, por dentro Fernando era um balão murchando, colocando panos sobre os ramos de sua verdadeira aptidão, faremos pesquisas, muitas, importantíssimas, mas você só poderá ser contratado se colocar um pouco de ficção na sua ciência, ficção? Não entendi...
Naquele bloco ministerial, noutros blocos em Brasília, no resto do país, quem abrisse um pouco mais os olhos encontraria Fernandos e Túlios acertando textos e negócios, o governo faz muitas pesquisas, rapaz, aceitação de presiden-te, qualidade de vida, crianças na escola, soluções de problemas sociais, dinheiro nos cofres públicos; usa-se a ciência para o estilo textual, o palavreado, a coleta dos dados para cálculos e estatísticas; todavia, resultados bem que merecem um pouco de ficção, concorda comigo?
Quem olhasse novamente perceberia que em seguida as mãos se apertam, mais um trabalho científico do governo se inicia.
Cinco semanas se passaram, Fernando tem nas mãos a pesquisa encomendada pelo chefe. Péssimas estatísticas. Resultados que não interessam à engrenagem governamental.
Sorriu. Retirou da manga três grãozinhos de ficção...

Ricardo Fabião (Agosto, 2009)

2 comentários:

  1. Ricardo,
    Que texto
    Pura ficção...
    Isto que se chama lapidar a palavra conforme o momento e as circunstâncias. E o poema e o texto real? Ora, ninguém se interessa pelas mazelas alheias, principalmente nos ministérios onde
    distribuir uma cesta básica e colocar um computador na escola, ( mesmo sem uma mestra à altura) já faz a festa e o circo do povão.
    bjs

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  2. Ricardo.
    Não consigo seguir seu Blog.
    Que será que acontece?
    bjs

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