março 12, 2010

Afluente




Para Fernando Pessoa


Ah, poeta...
"Dá-me sonhos teus para eu brincar" *
E que não seja mais eu a dizer minhas mãos;
Vem agora tu escrever minha vida,
Regar as minhas mudas tímidas de liberdade,
Meus projetos de norte e sul de toda parte,
Para que não haja mais lacunas entre ser e expressar...

Eu digo certo as coisas dos homens,
E somo de cor as contas quadradas da álgebra,
Mas não domino o plano disforme de contar poesia,
De arrumar palavras sabendo onde cada uma cabe,
De ajeitá-las de modo que possam abrigar um olho,
E tão rapidamente alcancem seus destinos de dizer.

Ah, vem morar na minha aldeia, 
Acende-me o azul dos dias,
Que tudo meu é cansado de cinza e de ocaso.
Conta-me como se descreve um doer em verso,
Pois nem sempre juntando dor e pena dá poema.
Explica-me como são as alegrias das palavras rimadas,
Ensina-me como sair em curvas por dentro do sentimento,
E ao mesmo tempo ter a mais reta visão de isento.
Se me estenderes teu rio como caminhada,
Não secarei ao tempo, de morte não morrerei...

Ah, acende-me um instante de tua plenitude,
E deixa-me enxergar o viés da alma, o frenesi dos sentidos.
Não quero ser apenas de viver e morrer como faço...
Preciso de tua escada para enxergar a altura do mundo,
Porque meu chão de gente comum é estreito de tão óbvio.
E assim, de frente para teu tamanho de mar e de poeta,
Que eu me faça afluente para me perder de tanto rumar.

Só depois disso assim, de ir tão longe como tu escreves,
De conferir infinitamente poesia como tu és,
Desça eu as escadas e encontre já um outro de mim,
Com alma suficiente para um mundo inteiro.

Ricardo Fabião (Março - 2010)

(*) O verso "dá-me sonhos teus para eu brincar" faz parte do poema O guardador de rebanhos, de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa).

5 comentários:

  1. Ricardo, estou sem fôlego ao terminar de ler essa súplica...

    Moço, voce não precisa pedir nada ao grande Poeta, já tens nas veias e na alma, a essência da poesia...

    E entre curvas e retas, traças o mais perfeito caminho da poeisa.

    Estou deveras encantada com sua poesia e totalmente impressionada como as palavras deslizam por entre teus dedos e vai formando um poema que é absurdamente belo!

    Bem, não sou tão pródiga com as palavras... Mais me faltam, para expressar minha admiração...


    Beijos!



    PS: Sei como é complicado juntar dor e pena para fazer um poema...

    ResponderExcluir
  2. e a historia de Alice, lá continua....
    no
    ... continuando assim...

    mais logo, um novo capítulo

    um obrigada a quem segue (porque só vale a pena assim).

    Um especial convite, para quem ainda não mergulhou naquela história.
    ...é só uma história, apenas isso.

    obrigada
    e até logo
    Bj
    teresa

    ResponderExcluir
  3. Oieeeeeeeeee..
    Desculpa ausencia rs
    Comecei um trabalho novo, treinamento, correria e acabando abandonando o blog.

    Não tem o que dizer do poema do Fernando.
    É um carater que todos gostaria de ter, pelo menos um pouco do raciocinio do cara neh?

    Eu fico sem palavras pelos textos, e a forma que a literatura dele, é uma realidade gostava e nós viajar.

    Um Abração amigo,
    Se cuida.

    ResponderExcluir
  4. É um poema incrível.

    Um poema assim como já não se acha mais. Ele é tão completo que faz faltar palavras.

    Tanto sentimento, tanta palavra posta, exatamente, onde não caberia outra senão a que foi posta.

    Poeta, poeta, pensador, poesia. Que orgulho de poder lê-lo! Que feliz é ler e saber que é poesia acontecendo agora e que eu tenho a chance de ver acontecendo.

    É dom, e um dom lindo.
    Lindo!

    ResponderExcluir
  5. Inês Cavalcanti6 de abril de 2010 21:30

    Rico querido, aliás... milionário em versos!!!! Fernando Pessoa certamente estaria honrado de seu poema, de tanto sentimento e sentido. Que prazer nos trás ler você: Ricardo Rico Milionário em versos Fabião!!!! Parabéns e que Deus continue assim a regar em prosa, verso palavra e letra em você, para deleite dos que teem a alegria de conhecê-lo.

    ResponderExcluir