março 09, 2010

Pacto silencioso (conto)


Joana traz ainda consigo o sorriso daquele único encontro, o colorido da manhã, das bandeirinhas de São João, iluminadas pelos instantes felizes do sol de junho. Tudo isso guardado silenciosamente dentro da memória, regado cuidadosamente para que não seque, algo de ser degustado em pequenos pedaços pelo apetite dos seus repetidos dias. Devolverá no momento certo não apenas isso, mas as palavras que apanhou dos anos acumulados, das noites que não dormiu, dos desejos estacionados no porão dos sentidos; jogará tudo aos pés dele, quando finalmente voltar, num rápido desabafo, e tornará a reverenciá-lo, que ela estará pronta, de corda e alegria à mão, disposta a pular pela eternidade afora.
Ele chegou ao sítio muito depois do sol, embora não houvesse naquela manhã nada que brilhasse mais que seus olhos. Ela estava no terreiro, entretida entre o azul, verde, amarelo, branco e vermelho das bandeirinhas, vendo suas primas com os dedos metidos na cola, foi assim que ele a flagrou, Joana tomou um susto, quem é você? Contrataram minha mãe para fazer a comida de milho da festa. Você pode me ajudar a pular corda? Corda? Como assim? Não sabia que as meninas gostam de pular corda? Há muito tempo que ando com a minha corda, é importante, sabe? Amarramos uma ponta na árvore, na outra você gira enquanto eu pulo.
Até hoje, nas visitas que insiste à memória, ela se pergunta por que largou suas primas e o colorido das bandeirinhas por um olhar desconhecido de menino. Ele não era bonito e cheio de si como alguns paqueras do colégio, era talvez atencioso demais, tratava-a como ela calculava ser certo, olhando-a diretamente, ninguém fazia assim. Essa incompatibilidade os uniu: um garoto educado e uma garota inquieta. Foram até a mangueira, lugar onde uma manhã teria que ter mais horas. Sabe-se que percorreram caminhos improváveis com seus olhares, tanto que ele lhe confidenciou coisas silenciosas de menino. Contou que lamentava de lágrimas a morte do seu avô, que morrera dois anos antes, com 72 quando um ataque cardíaco o levou, deixando saudade e uma sensação de que viver dói. Você gosta de suas primas? Elas são estranhas, nunca me deixam brincar. Como você vê a morte, Joana? Não gosto desse assunto. Você pode ser meu novo companheiro de pular corda, Rui, sim, serei também amigo, embora a menina desejasse outros caminhos ao lado dele. Venha brincar comigo à noite, talvez.
No meio da tarde, ele foi levado pela mãe com promessa de que retornaria para logo mais, noite de São João, todos em volta da enorme fogueira, foi como ela ficou, pronta, de vestido florido, trança e laços de fitas, imaginava-o tímido, olhando-a como se pudesse parar o tempo, como se soubesse ler todas as histórias dela de uma só vez, tudo à luz de um saber de menino introvertido. Talvez ainda noite adentro conseguissem um sorriso de dois, possivelmente uma conversa sobre como meninos e meninas se percebem e se permitem às coisas das quais falam os adultos. A corda estava com ela. Sinal de que o garoto voltaria. Tudo acertado por olhares, um pacto silencioso, demais importante para ser deixado de lado.
Joana ficou de olho pregado na porteira, nada desviaria sua vigilância, havia razões de sobra para esperá-lo, uma corda para endosso de uma cumplicidade, um olhar que não se completou, as mãos que não se tocaram, caminhos de um projeto de felicidade, enfim, um ‘se’ com indícios de se tornar ‘sim’. Todos chegavam, gente dos sítios vizinhos, parentes próximos e distantes, alguns rostos desconhecidos, nada interessante, noite como outra qualquer, avançando, indo para longe do seu alcance, jogando horas escuras contra a ansiedade da menina. Houve quem se aproximasse, mas vinham silenciosos. Ele não apareceu, daí a corda em sua mão tornou-se um objeto estúpido, desnecessário. Joana permaneceu ali, ao lado do amarelo indiferente da fogueira, tentando desatar ideias inventadas, apagar projetos para tempos depois, jogar ao fogo as palavras que ele não disse.
Ela nunca soube por que Rui não voltou para rever a corda, e tanta dúvida teve sobre isso, e tanto respeito ao seu retorno, que tudo dela ficou ali, naquela noite, ao relento, de fogueira acesa, a contar em vão os minutos, impossibilitada, como ave de asa única. Nunca viveu como deveria; isso faria apenas ao lado dele, que a enxergava como era, mas ele não retornou, as bandeirinhas de São João nunca mais foram as mesmas, nem a porteira do sítio, e todos que por ela passaram depois daquela noite.
Rui e sua mãe chegaram em casa de lua nascendo, a gente vai à festa na fazenda dos Novaes? Não filho, faremos nossa festa aqui mesmo. É que a filha deles me convidou, pensei que fôssemos, impossível, eles só têm um filho, a menina morreu há oito anos, tristeza da rasgar peito, caiu num poço, era noite de São João.

DAnielle Grisi (Julho, 2009)

Desafio para Fábrica de letras
Para o tema "Silêncio"

5 comentários:

  1. Boa noite Ricardo
    Obrigada desde já pela tua participação no tema deste mês da Fábrica de Letras, contudo, a tua postagem não está de acordo com as regras estabelecidas previamente e já muito difundidas. Deves escrever o título do post e de seguida o nome do blog. Se reparares, todos têm assim. Pedimos portanto, que voltes a postar esta tua participação da forma correcta.
    Obrigada e bons textos.

    ResponderExcluir
  2. Boa noite Ricardo.

    Deverás postar da seguinte forma:

    Pacto Silencioso - Curvas da Palavra

    Em baixo, fazes como fizeste para postar este texto, colocando o link DO texto e não do blog.

    Cumprimentos

    ResponderExcluir
  3. A vida pode doer...
    e quando doi em silêncio, doi a dobrar!
    Também gostei do final inesperado

    bjo

    ResponderExcluir
  4. Ricardo uma história linda com um fim sobrenatural, adorei.
    Bjs

    ResponderExcluir

Direitos reservados